Minha lista (top-15) dos melhores filmes dos anos 2000.
15. O lutador (EUA, 2008), de Darren Aronofsky
Humano, demasiado Mickey Rourke.
14. A comédia do poder (França/Alemanha, 2006), de Claude Chabrol
Percebi na mise èn scene sobre o poder, uma ausência absoluta e deliberada do sexo, seja como fator criativo e unitivo, seja como fator meramente de intrigas. A esterilidade do filme de Chabrol metaforiza muito sobre a falta de sentido e o impasse da política nos dias de hoje, seja ela qual for. Localizada, familiar, nacional ou global.
13. Miami Vice (EUA, 2006), de Michael Mann
Um filme de ação que tem “perdas de tempo” e que deixa flagrar personagens atônitos, quietos ou reflexivos. Imagens digitais e cenas incertas, mas pictoricamente a câmera de Michael Mann é sempre fascinante. Não chega a ser um filme seminal como Fogo contra fogo, mas Miami Vice é um dos maiores deslumbres experimentais do cinema de nossa época.
12. Rocky Balboa (EUA, 2006), de Sylvester Stallone
A performance de Stallone é soberba. Seu Rocky Balboa é um gigante decadente que luta para buscar a paz.
11. Amor à flor da pele (Hong Kong/França,2000), de Wong Kar-Wai
O filme é excessivo, muito perfumado e apegado ao fugaz. Talvez, autoconsciente de sua própria tentativa de grandesa. Mas é belo.
10. Vou para casa (Portugal/França, 2001), de Manoel de Oliveira
Em Manoel de Oliveira, não ocorre o milagre estético da “perda de tempo” que faz a graça de filmes que apresento nessa relação como Miami Vice ou Encontros e desencontros. Há “ganho de tempo”. Em ambos os sentidos, a arte do cinema precisa do tempo. Resgatado, revelado, criado ou perdido.
9. Bastardos inglórios (EUA/Alemanha, 2009), de Quentin Tarantino
Filme essencialmente espetacular e divertido. A performance de Christoph Waltz é um achado estético que apazigua o absurdo do mal.
8. Sinais (EUA, 2002), de M. Night Shyamalan
Um filme repleto de sentido. Narrativa orientada para um grande sentido e mise en scène permeada de simulacros dos nossos sentidos, onde o olhar de envolvimento do espectador é mais convidado do que orientado. Gêneros circundam o filme, do drama familiar ao filme de invasão alienígena, mas são referências de envolvimento que importam menos do que o convite ao espectador a uma curiosidade legitimamente estética.
7. Ligado em você (EUA, 2003), de Peter e Bob Farrelly
Peter e Bob Farrelly são muito calorosos. Fazem filmes corajosos, atrevidos e bastante pessoais sobre o coração humano. Filmes como este, Debi e Lóide e Amor em jogo me parecem variações para a nossa época do cinema de Leo McCarey. É muito.
6. Os excêntricos Tenenbaums (EUA, 2001), de Wes Anderson
O mundo de Wes Anderson é repleto de personagens decadentes em busca de redenção. Há carência, tristeza e obscuridade em seus homens, mas o universo que lhes circunda se parece com um parque de diversões. No fim das contas, são filmes solares ainda que bastante tristes. Não é para todos os gostos, mas da filmografia recente do cineasta, optei pelos Tenenbaums para a lista porque parece ser o filme mais apropriado de introdução ao cineasta e aos seus temas.
5. Monstros S.A. (EUA, 2001), de Pete Docter e David Silverman
As animações dos estúdios Pixar são aventuras juvenis sobre o amor. Monstros S.A. é belo, porque parece a metáfora perfeita para o medo injustificado que o nosso mundo tem do amor e do cuidado à infância.
4. Gran Torino (EUA, 2008), de Clint Eastwood
Gran Torino é um dos mais vulgares filmes do diretor, mas pode ser que seja o seu melhor. Há quatro décadas que Eastwood filma a inevitabilidade da morte. Cinema quase sempre antropocêntrico, como o de Howard Hawks, que vive num pêndulo entre a elegância e a vulgaridade. Filme de homens, também no sentido masculino do termo, Gran Torino oscila para o vulgar. Porém, há na morte final um avanço de Eastwood para a metafísica. Não é mais uma morte que se encerra no lúdico (Cowboys do espaço), na desesperança (Sobre meninos e lobos, Menina de ouro) ou na religação com as novas gerações (Honkytonk man, As pontes de Madison ou seus filmes sobre Iwo Jima). Em Gran Torino, há uma imagem de sacrifício como implicação histórica, política e, o mais importante, metafísica. Eastwood supera seu antropocentrismo.
3. Encontros e desencontros (EUA, 2003), de Sofia Coppola
Bill Murray é um gênio da arte dramática que apazigua o absurdo da fragilidade do homem contemporâneo. Seu último olhar para Scarlett Johansson é uma das coisas mais fantásticas já vistas no mundo do cinema. E que Deus abençoe Sofia Coppola por ter filmado aquelas cenas de karaokê.
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A paixão de Cristo (EUA, 2004), de Mel Gibson
Numa lista de melhores filmes da década, a Paixão de Cristo segundo Mel Gibson é presença importante, porque é a arte da nossa época. Criar imagens e encenações da Paixão de Nosso Senhor é algo que motiva os artistas ao longo dos séculos. É uma plenitude de história que só a arte pode lançar na materialidade de cada tempo a sinceridade do realismo sensitivo. Nossa época é hiper realista. Todos os estímulos existenciais contribuem para a visualização excessiva e para a comunicação onipresente. São dados violentos. De nossa época, de onde é possível “mostrar” tudo dessa realidade nua e crua, Gibson se aproveita da atual confecção tecnológica do cinema (em princípio, à serviço do hiper realismo) para fazer, em analogia à violência da contemporaneidade, o realismo sensitivo da paixão de Jesus Cristo. A encenação da violência mais absurda da história é feita por Gibson justamente na época mais violenta para se criar arte. Do seu modo, o cineasta foi visionário e isso sempre é o que mais importa para a estética.
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A inglesa e o duque (França, 2001), de Eric Rohmer
Eric Rohmer quer o belo. A imagem da sua Revolução Francesa é do ponto de vista da aristocracia, porque não poderia haver beleza a partir da perspectiva que corta as cabeças. Os rostos finais das futuras vítimas são closes cinematográficos de vida e de movimento. Talvez só na Paixão de Joana D’Arc, de Carl Dreyer, a beleza dessa potencialidade do cinema foi tão dignamente alcançada. Por outro lado, a beleza que pode existir nas palavras progressistas, em seu devido contraponto à apologia inconsequente ao aristocracismo, são teatralizadas por Rohmer. Cineasta dos diálogos, Rohmer faz da beleza do teatro a justificativa histórica para a estética das falas e dos gestos aristocráticos. Tudo nessa obra de arte tende ao belo. Artista de nossa época, Rohmer se utiliza da tecnologia digital para inserir cenários pintados ao filme, nos quais os personagens aparecem em encenações típicas da plasticidade. O moderno Rohmer, da tecnologia cinematográfica dos anos 2000, faz da beleza ontológica das artes plásticas a justificativa estética para o cinema de todas as épocas.