Sete equívocos sobre a educação, segundo Jacques Maritain

Publico abaixo o resumo de um trecho da obra “Rumos da educação”, de Jacques Maritain, onde ele analisa sete equívocos sobre a natureza e os fins da educação.

A tarefa principal da Educação é dirigir o desenvolvimento dinâmico que faz um homem ser homem. O homem não pode progredir, dos pontos de vista intelectual e moral, na vida específica que lhe é própria, se não for auxiliado pela experiência coletiva das gerações procedentes.

Educar para o meio social é o segundo fim.

Os erros:

Primeiro erro – Ignorância dos fins

Educação é arte que pertence ao domínio da moral. A excelência dos meios pode ser perigosa. Sendo os meios tão bons, somos levados a perder de vista os fins.

Segundo erro – Ideias falsas concernentes aos fins

A tarefa da educação é ajudar a guiar a criança à realização humana. Portanto, educação não pode furtar-se ao empreendimento filosófico que pergunta o que é ser homem e qual é o seu fim.

Uma concepção puramente científica da educação ignora o “ser enquanto ser”.

Se propusermos uma educação baseada numa concepção puramente científica do homem, quando tivermos de responder às questões sobre a natureza e o destino do homem, seria preciso extrair da ciência uma espécie de metafísica inteiramente contrária à sua estrutura típica. A educação perde o mistério da significação ontológica do homem e este torna-se um animal adestrado em proveito do Estado.

A concepção integral do homem é filosófica e religiosa. Filosófica, porque tem por objeto a natureza ou essência do homem; religiosa, por causa do modo de existir da natureza humana vocacionada e provocada em relação a Deus. Quando é dito que a pessoa é um todo, um universo em si mesma, dizemos que ela está em relação direta com o reino do ser, da verdade, da bondade e da beleza – isto é, com Deus. Por amor, dedica-se livremente a seres que são para ele como outros “eus”.

Terceiro erro – Pragmatismo

A vida, para ser digna, existe para um fim. A contemplação e a perfeição de si mesmos, nas quais a existência humana aspira a florescer, escapam ao horizonte do espírito pragmático.

Quarto erro – Sociologismo

O acondicionamento social não é a regra suprema da educação. A essência da educação é formar um homem – e por aí, preparar um cidadão. A educação para a comunidade requer a educação para a pessoa. Infeliz é o jovem que não conhece os prazeres do espírito e não se alegra no saber e na beleza. A concepção pragmática e sociológica subordina e escraviza a educação às tendências que se desenvolvem na vida coletiva da sociedade.

Quinto erro – Especialismo intelectual

A suprema realização da educação não é a especialização científica e técnica. Embora exigida pela vida moderna, ela deve ser compensada, sobretudo na juventude, por uma formação geral intensa. O animal é um especialista perfeito. Ele fixa toda a sua capacidade de aprender numa determinada tarefa a ser executada. O programa educacional que visa formar especialistas, incapazes de apreciar outras matérias além de sua competência, tem como resultado a animalização progressiva da mente e da vida humana. Isso prejudica não apenas o tempo profissional dos homens, mas também o tempo livre, cada vez mais ocupado por divertimentos sociais medíocres e, o que é mais grave, por uma religiosidade de sentimentos vagos, sem conteúdo lógico e de realidade.

A vida da comunidade corre riscos graves com o “especialismo”, porque a disposição das atividades humanas em compartimentos especializados torna a atividade política exclusiva aos tecnocratas do Estado que, por sua vez, desconhecem as riquezas espirituais que garantem a consistência do “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

A educação, constituída por regras imperativas de algum sistema de orientação profissional, tornar-se-ia um processo de diferenciação de abelhas na colmeia humana. Uma concepção democrática da vida exige educação liberal para todos, porque mesmo para o sucesso das atividades industriais, a educação que libera e alarga a mente é mais importante do que a especialização técnica.

Sexto erro: Voluntarismo

A tendência voluntarista desenvolvida por Shopenhauer submete a inteligência à vontade, recorrendo às virtudes das forças irracionais. O mérito das melhores e mais perfeitas formas de voluntarismo no campo ideológico foi chamar a atenção para a importância essencial dos atos volitivos e para a primazia da moralidade, da virtude e da generosidade na formação do homem. De fato, antes de ser erudito, é importante ser reto. Porém, as realizações pedagógicas do voluntarismo foram decepcionantes do ponto de vista do bem e um sucesso do ponto de vista do mal.

Escolas e organizações da juventude nazista arruinaram senso de verdade nos espíritos, submetendo a inteligência aos desejos do Estado. Por outro lado, nos países democráticos, a pedagogia voluntarista pode ser descrita como esforço para compensar inconveniências do mero intelectualismo por uma educação da vontade, do sentimento, da formação do caráter, etc. Porém, é fácil deformar o caráter dessa forma. O voluntarismo exagera a importância da vontade.

Mortimer Adler diz: “Assim como no domínio da política, a primazia do querer identifica a autoridade com a força, assim também no domínio do pensamento tal primazia reduz todas as coisas a opiniões arbitrárias ou a convenções acadêmicas”. Tudo depende da vontade de crer. Não há verdades primárias, mas apenas postulados e exigências da vontade para que isto ou aquilo seja tido como certo. Assim sendo, todo conhecimento repousa, em certo sentido, sobre os atos da fé, embora o único princípio de tal fé seja nossas preferências pessoais.

Acreditamos que a inteligência, em si, é mais nobre do que a vontade, pois sua vontade é mais imaterial e universal. Porém, é pela vontade, quando ela é boa, que o homem se torna bom e reto, não pela inteligência, por mais perfeita que seja. Assim, a educação completa do homem deve contribuir para que tanto a inteligência como a vontade caminhem para a sua perfeição, mas a formação da vontade é certamente mais importante que a formação do intelecto.

Sétimo erro: Tudo pode ser aprendido

Os sofistas gregos acreditavam que tudo, mesmo a virtude, pode ser adquirida mediante o ensino dos mestres e por meio de explicações científicas. O ensino da moral, no que concerne à sua base intelectual, deve ocupar importante lugar na escola e na universidade. Mas a apreciação exata dos casos práticos, que os antigos denominavam prudentia, é uma capacidade interior e vital de discernimento desenvolvida no espírito e apoiada por uma vontade bem dirigida. Também a experiência, que é um fruto incomunicável do sofrimento e da memória, não pode ser adquirida num curso. Sir Arthur Clutton-Brock diz: “A Educação deveria ensinar-nos como amar e o que deveríamos amar. Os grandes feitos da história foram obras de grandes apaixonados, dos santos, dos homens de ciência, dos artistas. O problema da civilização consiste em dar a cada homem a oportunidade de ser alguém daquelas grandes estirpes”.

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Um homem prudente

Papa Bento XVI e dirigentes do Vaticano terão de responder processo

Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve (Mt 11, 28-30)”.

Se eu pudesse falar sobre o sentimento da cristandade nesta época, ousaria dizer que estamos gravemente abalados e enormemente felizes.

De qualquer forma, para quem tem empatia, seja cristão ou não, o anúncio de renúncia feito pelo Papa Bento XVI é um evento radical de humanidade.

Todo o pontificado de Bento XVI foi para ele uma renúncia enorme de si mesmo. Uma cruz espinhosa e pesadíssima, que todo católico deveria agradecer de joelhos pela providência dotar alguém de tanta caridade para carregar.

Então, houve para o papa um momento onde cumprir a vontade de Deus seria aliviar-se.

Só um santo é livre assim. É desnecessário buscar um conjunto de causas que explique a decisão da renúncia, porque, como a de qualquer outro homem, a prudentia do Papa – e ele certamente é um homem de grande sabedoria – repousa na sua mais profunda intimidade com Deus. O discernimento do Papa é inacessível para nós, porque a experiência humana forjada por proezas, derrapadas e sofrimentos é sempre individual, mas é um acontecimento grandioso da sabedoria humana. Ainda há gente prudente.

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Sermão do Bem-aventurado J.H. Newman para o Dia de Natal

Desejo a todos os leitores do blog um Feliz Natal.

Para honrar o espírito natalino, publico abaixo um belo sermão do Cardeal Newman.

Alegria Religiosa

Tradução de Rafael Carneiro Rocha

“O anjo disse-lhes: não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor (Lc 2,10-11)”.

Hoje, humildade e alegria são as duas principais lições que nos são ensinadas na grande festa que celebramos. Entre todos os outros dias, hoje está mais claramente diante de nós uma excelência celestial. O olhar de Deus aceita a alegria pela qual a maioria dos homens aloca, ou poderia alocar, às as suas humildes vidas privadas. Se consultarmos os escritos dos historiadores, filósofos e poetas deste mundo, seremos levados a pensar na felicidade humana; nossos corações e mentes serão conduzidos para grandiosas e respeitáveis trajetórias, em que talentos poderosos são despendidos em estranhas aventuras, lutas memoráveis e grandes destinos. Deveremos, então, considerar que o curso mais elevado da vida é a mera busca, e não o gozo do bem.

Porém, quando pensamos na Festa de hoje e naquilo que comemoramos, uma nova e muito inusitada cena se descortina diante de nós. Primeiramente, somos lembrados de que, embora esta vida deva ser sempre uma vida de trabalho e de esforço, ainda assim, propriamente falando, nós não temos de procurar por nosso maior bem. O bem é encontrado. Ele é trazido para perto de nós, na descida do Filho de Deus, do seio do Pai para este mundo. Ele está guardado na terra, entre nós. Os homens não precisam mais do ardor de suas mentes para buscar aquilo que, luxuosamente, pensam ser os bens principais; não precisam mais vaguear perigosamente pela busca de uma desconhecida bem-aventurança que os seus corações naturalmente aspiram, como era feito nos tempos pagãos. As Escrituras falam para eles e para todos: “A vós”, ela diz, “nasceu hoje, na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor”.

Os homens nem precisam, ainda, buscar por qualquer dessas coisas que este mundo vão chama de grandes e nobres. Cristo escolhe para Si mesmo aquilo  que o mundo despreza.

A Festa da Natividade nos dá, portanto, duas lições – ao invés da ansiedade e do desânimo, e ao invés da busca fatigante por grandes coisas – sermos alegres e felizes; e perseverarmos nesses estados diante das circunstâncias obscuras e ordinárias da vida, às quais o mundo opta por ignorar, atribuindo-lhes desprezo.

Consideremos isso mais profundamente, assim como está contido na graciosa narrativa das Escrituras.

1. Em primeiro lugar, o que lemos pouco antes da cena da Natividade? Que havia certos pastores vigiando o seu rebanho, de noite, quando anjos lhes apareceram. Por que os exército celestial deveria aparecer para esses pastores? O que havia neles que atraiu a atenção dos Anjos e do Senhor dos Anjos? Eram esses pastores cultos, distintos ou poderosos? Nada do que é dito poderia nos fazer pensar assim. Fé, podemos dizer com segurança, esses homens, ou alguns deles, tinham, pois para quem tem, mais será dado; mas ainda não há nada para demonstrar que eles eram mais santos e mais iluminados do que os outros bons homens de sua época que esperavam pela consolação de Israel. De fato, não há nenhuma razão para supor que eles eram melhores do que seus iguais de classe, pessoas simples e tementes a Deus, mas sem grandes avanços nas práticas de piedade ou em outras formas do costume religioso. Por que, então, eles foram escolhidos? Justamente por causa de suas pobrezas e obscuridades. Deus, Todo-Poderoso, olha com uma maneira especial de amor e de afeto sobre os humildes. Talvez, esse homem, uma criatura caída, destituída e dependente, esteja mais em seu lugar apropriado quando está em circunstâncias humildes. O poder e a riqueza, embora inevitáveis no caso de alguns, são apêndices artificiais para o homem, enquanto tal. Existem comércios e vocações que são inconvenientes, embora necessários. Enquanto lucramos por eles e honramos aqueles que lhes são engajados, sentimo-nos contentes, porque eles não são nossos (como nos sentimos gratos e respeitosos para com a profissão de um soldado). Do mesmo modo a grandeza de Deus é menos aceitável do que a obscuridade. Isso nos torna menores.

Os pastores, então, foram escolhidos em razão da sua humildade para serem os primeiros a saber da natividade do Senhor, um segredo que nenhum príncipe deste mundo conheceu.

E que contraste nos é apresentado quando levamos em conta quais eram os mensageiros do Senhor para eles! Os Anjos, que são excelentes por sua força, cumpriram a vontade de Deus para os pastores. Aqui as maiores e as menores criaturas racionais de Deus estão reunidas. Um grupo de homens pobres, engajados numa vida árdua, expostos ao frio e à escuridão da noite, assistindo os seus rebanhos, com o intuito de assustar animais de rapina ou ladrões; eles – sem pensar em nada além das coisas terrenas, e das peculiaridades de suas ovelhas, mantendo os cães ao seu lado enquanto ouviam ruídos sobre a planície, supostamente do raiar do dia – de repente são encontrados por visitantes que jamais conceberiam. Nós sabemos sobre o alcance limitado do pensamento e dos objetos cotidianos daqueles homens expostos a uma vida de calor, frio, umidade, fome, nudez e servidão. Eles deixam de importar muito para qualquer coisa, porque basta viver de forma mecânica, sem coração e, mais ainda, sem reflexão.

Para homens tão arraigados pelas circunstâncias, apareceu-lhes o Anjo para abrir as suas mentes e ensiná-los a não se sentirem abatidos ou em cativeiro, em razão de sua pequenez para o mundo. Ele apareceu como que para mostrar-lhes que Deus havia escolhido os pobres deste mundo para serem herdeiros do Seu reino, para assim honrar-lhes a sorte. “Não temais”, disse ele, “eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor”.

2. E agora nos vem uma segunda lição que, como eu disse, deve ser adquirida nessa Festa. Em seu aparecimento aos pastores, o Anjo muito honrou a humildade; em seguida, ele nos ensinou, por sua mensagem, a alegria. Ele revelou boas novas que estão muito acima deste mundo, como que para equalizar o alto e o baixo, o rico e o pobre. Ele disse: “Não temais”. Como vocês devem observar, trata-se de uma direção bastante frequente nas Escrituras, como se os homens precisassem dessa garantia para dar conta da mensagem, especialmente na presença de Deus. O Anjo disse “Não temais” quando viu o alarme que sua presença causou entre os pastores. Mesmo uma maravilha menor teria, razoavelmente, assustado aqueles homens. Portanto, o Anjo disse: “Não temais”. Por causa de nossa consciência pesada, temos um medo nato de qualquer mensageiro vindo de outro mundo. Ensimesmados, creditamos um prenúncio do mal à voz do mensageiro. Além do mais, percebemos tão pouco o mundo invisível que a apresentação perturbadora do Anjo faria com que a nossa razão apelasse para a zona de conforto da incredulidade. Assim, por um ou outro motivo, os pastores tiverem muito medo quando a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles. E o Anjo disse: “Não temais”. Um pouco de religião nos faz medrosos; quando um pouco de luz é derramado em nossa consciência, há uma escuridão visível; nada além de imagens terríveis e miseráveis; a glória do Senhor alarma em seu resplandecer. Sua Santidade, o alcance e as dificuldades de seus mandamentos, a grandeza de Seu poder e a fidelidade de Sua palavra assustam o pecador, e os outros homens vendo-o com medo logo pensam que a religião é o motivo de perturbação. Mas isso não é ser religioso. Os homens podem chamar de religioso a alguém que está apenas arrasado pela consciência. Mas a religião mesma, longe de inculcar alarme e terror tem sua voz nas palavras do Anjo, “Não temais”; porque tal é a misericórdia do Senhor que, Todo-Poderoso, derramou sobre nós a Sua glória consoladora. É um glória de consolo, pois o esplendor de Deus se reflete na face de Cristo (II Cor 4,6). Assim o arauto celestial temperou o brilho demasiadamente deslumbrante do Evangelho naquele primeiro Natal. A Glória de Deus primeiramente alarmou os pastores, por isso foram acrescentadas as boas novas para lhes inspirar um temperamento mais benéfico e feliz. Em seguida, eles se alegraram.

“Não temais”, disse o Anjo, “eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. E subitamente ao Anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina”. Tais foram as palavras que os espíritos abençoados, que ministram Cristo e Seus Santos, falaram naquela noite graciosa para os pastores, para arrancá-los de seus modos frios e famintos em prol de uma grande alegria. A eles foi ensinado que cada um é objeto do amor de Deus, como se eles fossem os maiores homens da terra; ou melhor ainda, para eles, a boa nova que acontecia naquela noite foi primeiramente anunciada. O Filho, então, nascia para o mundo. Nascimentos são contados para pessoas bem queridas, para aqueles que amamos, para aqueles que se simpatizam conosco e não para estranhos. Como poderia Deus Todo-Poderoso ser mais gracioso do que mostrando, de forma impressionante e antecipada para os seus amigos pequeninos aquele grande e alegre segredo? Ele havia confidenciado o segredo para pastores que guardavam os seus rebanhos durante a noite.

O Anjo foi o primeiro a dar uma lição combinada de humildade e alegria; mas uma outra, infinitamente maior, está por trás do evento em si, para o qual foram dirigidos os pastores: o nascimento mesmo do Menino Jesus. Isso foi insinuado pelos Anjo nas seguintes palavras: “Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”. Indubitavelmente, quando os pastores ouviram que nasceu para o mundo o Cristo Senhor, imaginaram que teriam de procurá-lo nos palácios reais. Eles não seriam capazes de imaginar que Ele havia se tornado um semelhante, ou que poderiam se aproximar Dele; portanto, o Anjo advertiu-os de onde Ele seria encontrado, não apenas como um sinal, mas como uma uma lição também.

“Falaram os pastores uns com os outros: vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou”. Caminhemos, nós, também com eles, para contemplar o segundo e mais grandioso milagre para o qual o Anjo direcionou os pastores, a Natividade de Cristo. São Lucas diz sobre a Virgem Maria: “E deu à luz seu Filho primogênito, e envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Quão maravilhoso sinal isso é para todo mundo e, portanto, o Anjo repetiu-o aos pastores: “Achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”. O Deus dos céus e da terra, o Verbo Divino, glorificado por seu Pai Eterno desde o início, nasce neste mundo de pecado como uma criancinha. Ele, assim como agora, está deitado nos braços de Sua mãe, ao que tudo indica desamparado e impotente. Ele foi envolvido por Maria em faixas infantis para ser colocado a dormir numa manjedoura. O Filho do Deus Altíssimo, que havia criado os mundos, se fez carne, embora permanecendo aquilo que sempre fora. Ele se fez carne, tão verdadeiramente como se tivesse deixado de ser o que era para se transformar em carne. Ele submeteu-se à descendência de Maria, tomando-se pelas mãos de uma mortal, para ter o olhar fixo de uma mãe sobre Ele e para ser estimado no seio de uma mãe. A filha de um homem tornou-se a Mãe de Deus – para ela, de fato, um dom inefável da graça, mas para Ele quanta condescendência! Que esvaziamento de Sua glória para tornar-se homem! E não apenas um bebê indefeso. Embora isso seja uma humilhação suficiente, Ele ainda herdou, tão como era possível para uma alma sem pecado, todas as enfermidades e imperfeições de nossa natureza. Quais foram os Seus pensamentos, se é que podemos nos aventurar a utilizar esse tipo de linguagem ou admitir tal reflexão sobre o Infinito, quando os sentimentos, as tristezas e as necessidades humanas se tornaram Suas? Quão misterioso é o Filho de Deus tornar-se homem! Contudo, na proporção do mistério estão a sua graça e misericórdia. Quão grande é o fruto que resulta da graça!

Perseveremos na contemplação do mistério, e digamos que todas as consequências de tão maravilhosa dispensa são enormes. A encarnação e a morte do Filho Eterno nos manifestam um mistério grandioso e uma graça avassaladora. Avisaram-nos que o efeito disso nos tornou como um Serafim? Surpreenderia-nos, após a notícia do Anjo para os pastores, que estávamos a ascender tão alto do mesmo modo com que Ele se rebaixou? Isso é o efeito da graça, na medida mesma em que essas palavras sejam piedosamente ditas. Nós permanecemos homens, mas não meros homens. Somos dotados com a medida de todas aquelas perfeições que Cristo tem em plenitude. Cada um, em seu próprio grau, participa tão plenamente da natureza divina de Cristo, que a única razão (por assim dizer) pela qual os Seus santos não são como Ele, é que aqueles são criaturas e o Senhor é o Criador; mas ainda assim eles são toda a plenitude possível sem que seja violada a incomunicável majestade do Altíssimo. Certamente, em proporção à Sua glória está o Seu poder de glorificar; de modo que podemos dizer que por Ele somos tudo, menos deuses – ainda que estejamos infinitamente abaixo do adorável Criador – e podemos dizer ainda que, verdadeiramente, devemos ser superiores a todas as outras criaturas do mundo; superiores ainda aos Anjos e Arcanjos, Querubins e Serafins – não aqui, ou em nós mesmos, mas no céu, e em Cristo – Cristo já tendo ascendido acima de todas as criaturas, tendendo para mesma bem-aventurança do Altíssimo, nos dá aqui esse penhor de Sua glória e a plenitude do que virá depois.

Se todas essas coisas são assim, certamente a lição de alegria que a Encarnação nos dá é tão impressionante como a sua lição de humildade. São Paulo assim leciona em sua epístola aos filipenses: “Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens (Fil 2, 5-7)”. Por sua vez, São Pedro nos dá a lição da alegria: “Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes Nele, sem o veres ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas (I Ped 1, 8-9)”.

Tomem essas reflexões para vós, meus irmãos. Levem-na para suas casas neste dia de Festa, para as suas família e para a sociedade. É um dia de alegria: é bom ser feliz – e errado é agir de forma contrária. Por um dia, podemos ser livres do fardo de nossas consciências poluídas para regozijarmos nas perfeições de nosso Salvador Jesus Cristo, sem pensarmos em nós mesmos e nas nossas miseráveis impurezas. Contemplemos Sua glória, Sua justiça, Sua pureza, Sua majestade e Seu amor transbordante. Podemos regozijar-nos no Senhor e vê-lo em todas as Suas criaturas. Podemos desfrutar de sua generosidade temporal e participar das coisas agradáveis na terra com Ele em nossos pensamentos; podemos regozijar-nos com os nossos amigos por causa Dele, amando-os mais especialmente, porque Ele os ama.

“Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele morreu por nós, a fim de que nós, quer em estado de vigília, quer de sono, vivamos em união com Ele (I Tes 5, 9-10)”. Busquemos a graça de um coração alegre, e um temperamento de doçura, gentileza e clareza da mente, porque caminhamos na luz e na graça de Deus. Rezemos ao Senhor para que Ele nos dê um espírito de amor sempre abundante e florescente, que domine e varra todos os dissabores da vida por sua própria riqueza e força. Assim, que sejamos unidos a Ele, a fonte e o centro de toda a misericórdia, bondade e alegria.

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O aborto e o mundo da utilidade

De um marxista homossexual saíram palavras bastante perspicazes sobre o problema do aborto. Em entrevista para o periódico italiano Corriere della Sera, publicada em janeiro de 1975, o cineasta, poeta e professor italiano Pier Paolo Pasolini (1922/1975) afirmou: “A propósito do aborto, é o primeiro e único caso em que os radicais e todos os abortistas democráticos mais puros e rigorosos fazem apelo à realpolitik, e assim recorrem à distorção cínica dos fatos e do bom senso. Reduzem-no a um caso de pura praticidade. Mas isto (como eles bem sabem) é sempre condenável.”

Aqui no Brasil de 2012, algumas “práticas” como o aborto de anencéfalos já foram aprovadas e isto é terrível. Infelizmente, a vida humana – e a própria política, por consequência – tem perdido a noção de “bem comum”, voltando-se de forma suicida para a “utilidade comum”. Pode ser “útil” para essa sociedade descartar uma vida humana que não dure tanto tempo, afinal uma criança com má formação cerebral pode fazer sofrer a sua família e quem gostaria de algo tão inútil e, neste caso, gratuito como o sofrimento? É preciso ter o espírito livre para acolher uma criança inútil. Porém, como o mundo contemporâneo não educa os seus filhos para o gênio da gratuidade (quem quer perder tempo com coisas que não podem ser instrumentalizadas?), qualquer discurso contrário à prática do aborto terá, para esses homens práticos, um dispensável sabor metafísico. O debate público rechaça violentamente qualquer apelo para a transcendência, ou para, utilizarmos os termos críticos de nosso querido Josef Pieper, aquilo que escapa ao “mundo do trabalho” ou da “utilidade comum”. Então, partindo-se desse dado, os religiosos serão, como prevê o Evangelho de São Mateus, despedaçados pelos porcos da opinião pública se lançarem mão de suas pérolas (Mt 7,6).

A primeira liberdade de existir é de uma dignidade que ninguém pode violar. Isto é elementar para qualquer um que compreenda as consequências realistas das antigas filosofias primeiras (hoje superadas a fórceps pelo cientificismo prático). Porém, se o realismo primeiro que torna o aborto um ato gravíssimo não pode mais ser aceito pela nossa vida pública forjada pelos interesses do Estado e do Mercado, que seja então admitido pela realidade secundária da materialidade do corpo.

Naquela mesma entrevista, Pasolini dizia: “Nos sonhos e no comportamento cotidiano, eu vivo a minha vida pré-natal. Minha feliz imersão no ventre materno indica: eu era um existente”. A declaração é poética, e desvela a verdade de um corpo que, definitivamente, não é o da mãe. Por outro lado, uma declaração científica tornaria correta a existência de informações genéticas singulares naquele indivíduo que é o feto. Desse modo, a retirada forçosa de um existente do ventre materno é um ato tão constrangedor, que até mesmo os mais fervorosos defensores da validade jurídica dessa prática admitem coisas como “ninguém é a favor do aborto, mas do direito a ele”

Isso parece ser o reconhecimento não admitido de que o aborto medicamente causado é, em todos os sentidos, uma violação. Ainda que se dê crédito à ideia de que não se pode afirmar seguramente quando uma vida humana começa, o mero fato da dúvida indica um risco supremo: retirar um feto pode significar o assassínio de um ser humano. Se há o risco do crime, não seria mais prudente não cometê-lo? Vejamos aí como a prudentia concebida por S. Tomás de Aquino, ou mais amplamente a sua filosofia negativa, pode nos ensinar muito mais sobre os mistérios da existência do que uma política que quer dar solução para tudo ou de um arrogante cientificismo que tem todas as respostas para o mundo.

Em todos os casos, o direito ao aborto é defendido pelo apelo ao pragmatismo político. “Uma vez que muitas mulheres cometerão o aborto, a forma mais segura de evitar desastres hospitalares, comprovados estatisticamente, é por meio da legalização da prática”, dizem aqueles que, para qualquer outro assunto, como a necessidade de uma guerra ou de uma política econômica impopular, poderiam muito bem criticar os fundamentos da realpolitik, conforme comentava Pasolini.

De fato, a realpolitik é sedutora e, muitas vezes, penosa de ser intelectualmente combatida. No diálogo “A República”, de Platão, Sócrates passa por constrangimentos quando debate com Trasímaco, aquele sofista bruto, mas conhecedor esperto da psicologia humana. Trasímaco define a justiça como interesse do mais forte, isto é, de quem governa. É uma definição realista, porque o ser humano tende a buscar o que é mais vantajoso para si. Porém o pragmatismo político só faz pleno sentido, num contexto ironicamente bem pouco realista, quando as relações de poder arruínam a possibilidade de qualquer escolha moralmente fundamentada. Via de regra, a realpolitik é teoricamente constrangedora, como aquela recente foto em que Maluf demonstra apoio ao candidato de Lula à prefeitura de São Paulo.

Defender o direito ao aborto é defender o risco pela imoralidade do ato. Deverá reconhecer até mesmo o incrédulo que a retirada do feto pode ser um atentado à vida, porque um dos primeiros pressupostos do debate público, tal como ele está organizado no âmbito da laicidade, é que não é possível afirmar onde a existência humana começa. Em última instância, se o defensor do direito ao aborto não se posicionar simpaticamente à ideia de que nenhuma violação seja punida, me parece haver uma contradição de consciência. Só alguém que defendesse plenamente a inimputabilidade criminal para qualquer tipo de ato poderia ser favorável, com clareza de consciência, ao direito de alguém abortar. Trata-se aí de uma perspectiva que nega a civilização, mas esse é justamente o ponto de partida de um temor que qualquer pessoa pode ter: católico, ateu ou feminista. Se existe a hipótese de não respeitar a liberdade de um vivente de, simplesmente, viver, os fundamentos que nos garantem qualquer legislação podem se tornar “hipótese”.

Afinal, o que é o “bem comum” e a “liberdade”?  Vou terminar este texto com essas perguntas e, também, com uma acolhida a todas as pessoas que já provocaram um aborto. No fim das contas, nenhum de nós, homens ordinários, é Deus para fazer o juízo final de uma mulher que opta pelo aborto, mas reconheçamos que qualquer decisão humana tomada à espreita das luzes da razão leva o indivíduo à angústia das sombras. Respeitar profundamente a consciência é, antes de tudo, um apelo da condição humana e podemos voltar a ela em todos os momentos, mesmo no fim de uma vida repleta de escolhas infelizes. Isso é o que deve ser entendido como questão de foro íntimo: o comprometimento com aquilo que é verdadeiro. Se nos colocarmos cinicamente, ou até mesmo ceticamente, contrários à ideia de que existe sempre uma coisa certa a ser feita, a única estratégia de vida que parece restar é a realpolitik, ou seja, buscar no mundo do cálculo e das estatísticas aquilo que parece mais vantajoso, nem que seja aliar a alguém ou a algum programa que as luzes da nossa intimidade repudiam. Nesse sentido, talvez, não precisemos esperar por um outro mundo possível e, sim, resgatar aquele que trocamos por alguma comodidade arbitrária. Quando falamos em “prática do aborto”, talvez a palavra mais feia nesse contexto seja “prática”. Tenhamos, portanto, a disposição livre para viver nesse mundo que já nos é dado gratuitamente, onde as mulheres dão à luz e a seriedade poética dos pequeninos não revela nenhuma sabedoria dos homens.

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Tempo livre: A base da cultura

Confira o primeiro capítulo, em português, do livro “Leisure – The basis of culture”, de Josef Pieper. Trechos desse livro, incluindo o primeiro capítulo na íntegra, estão disponíveis no Google Books. Clique aqui para ter acesso a essa versão em língua inglesa da obra.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha
Publicado no Cozinha e Biblioteca

Porém os deuses, piedosos dos seres humanos – uma raça nascida para o labor – concederam-lhes festas em honras às divindades, como meio dos homens aliviarem-se por um tempo de suas fadigas; desse modo, aos homens foram concedidas as Musas, sendo Apolo e Dionísio os senhores delas. Portanto, após a companhia restauradora dos deuses, os homens deverão retornar aos seus honrados afazeres.

Platão

Parai, disse ele, e reconhecei que sou Deus
Salmo 45

I

Podemos começar, como os mestres escolásticos, com uma objeção: videtur qued non… “Parece não ser verdadeiro que…”

Ei-la: Parece que numa época como esta presente (o livro foi publicado inicialmente na Alemanha, poucos anos após a II Guerra Mundial), em comparação a todas as épocas, não é atual falar de “tempo livre”. Estamos engajados em reconstruir nossa casa e nossas ocupações estão inteiramente preenchidas. Todos os nossos esforços não deveriam ser direcionados exclusivamente para a finalização dessa obra?

Esta não é uma pequena objeção. Porém, há uma boa refutação para ela. Hoje, “construir nossa casa” implica não apenas em assegurar-nos a sobrevivência imediata, mas colocar em ordem toda a nossa herança moral e intelectual. E, antes de que apresentemos um detalhado plano de ação para isso, nosso recomeço civilizacional, ou refundação, demanda imediatamente por… uma defesa do “tempo livre”.

Pois, quando consideramos as fundações da cultura ocidental (seria precipitado assumir que nossa refundação executar-se-ia pelo espírito “ocidental”? De fato, este é o pressuposto que está colocado em questão hoje), uma dessas fundações é o “tempo livre”. Podemos ler sobre isso no primeiro livro da Metafísica de Aristóteles. A própria história do significado da palavra carrega consigo algo de elucidativo. A palavra grega para “tempo livre” (σχoλ´η) é a origem do termo em latim scola que, em português, significa escola. O nome dessas instituições de educação e aprendizagem significa “tempo livre”.

Obviamente, o significado original do conceito de “tempo livre” tem sido praticamente esquecido em nossa cultura do “trabalho total”. Para que possamos ser bem sucedidos em compreender realmente o que o “tempo livre” é, teremos de dialetizá-lo com a ênfase exagerada que dedicamos ao mundo do trabalho. “O indivíduo não trabalha apenas para viver, mas vive pela causa de seu próprio trabalho”, esta sentença de Max Weber faz muito sentido para nós. É difícil que reconheçamos como isso é uma inversão na própria ordem das coisas.

E como seria nossa resposta para esta sentença: “Trabalhamos para garantir o tempo livre”? Neste caso, hesitaríamos em dizer que o mundo foi realmente virado de cabeça para baixo? Essa afirmação não parece imoral para o homem e a mulher do mundo do “trabalho total”? Isso não é um ataque aos princípios básicos da sociedade humana?

De qualquer forma, não fui em quem forjou aquela sentença para demonstrar algo. Aquela afirmação foi feita por Aristóteles. Sim, Aristóteles: o sóbrio e o árduo realista, e o fato de que disse aquilo concede à sentença um significado especial. O que ele diz, numa tradução mais literal, seria: “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”. Para os gregos, “não estar em tempo livre” era a palavra que designava o mundo do trabalho diário; e isto não era um indicativo apenas do “corre-corre” das nossas labutas, mas o trabalho em si mesmo. A língua grega tinha sua própria forma negativa para expressar o termo (´α−σχoλ´ια), do mesmo modo que o latim (neg-otium, “não-ócio”).

O contexto não apenas daquela sentença de Aristóteles, mas de uma outra deste mesmo autor em sua “Política” (quando ele declara que o eixo pelo qual todas as coisas se voltam é o “tempo livre” – Política VII, 3 (1337b33), demonstra que tais noções não foram consideradas extraordinárias, mas evidentes por si mesmas: os gregos provavelmente não compreenderiam nossas máximas sobre “trabalhar pela causa do trabalho”. Poderia isso implicar no fato de que as pessoas de nossa época não conseguem mais ter um acesso direto ao significado original de tempo livre?

De qualquer forma, poderíamos, é claro, propor uma objeção para Aristóteles. Afinal, quão a sério poderemos tomá-lo? Nós podemos admirar os antigos, mas isto não significa que sejamos obrigados a segui-los.

Por outro lado, consideremos o seguinte: o conceito cristão de “vida contemplativa” (a vita contemplativa) foi construído a partir do conceito aristotélico de “tempo livre”. Ademais, a distinção entre “Artes Liberais” e “Artes Servis” tem a sua origem precisamente ali. Mas essa não seria uma distinção de interesse exclusivo dos historiadores? Bem, pelo menos um lado dessa distinção destaca-se na vida cotidiana, quando surge o tema do “trabalho servil”, o tipo de atividade considerada inapropriada para o “descanso sagrado” do Sabbath e dos domingos e feriados. Quantos são aqueles que estão conscientes de que a expressão “trabalho servil” não pode ser integralmente compreendida sem contrastá-la com as “artes liberais”? E o que significa afirmar que algumas artes são “liberais” ou “livres”? Essas coisas ainda precisam ser esclarecidas.

Demonstramos, pelo menos, que as palavras de Aristóteles tem alguma relevância para nossa época. Porém, isso ainda não é suficiente para nos “engajar”. O real motivo de mencionarmos a sentença aristotélica foi para mostrar quão nitidamente a moderna valoração do trabalho e do “tempo livre” difere daquela promovida pela Antiguidade e pela Idade Média. De fato, essa diferença é tão grande que já não podemos compreender instantaneamente o que a mentalidade antiga e medieval apreendia da sentença “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”.

Hoje, a mera existência dessa diferença e de nossa inabilidade em recuperar o significado original de “tempo livre” vai nos abalar cada vez mais que percebermos como, de forma extensiva, a ideia oposta de “trabalho” tem invadido e tomado conta de todo o reino da ação humana – e da existência humana como um todo; e também seremos abalados quando percebermos como estamos solícitos para atender a todos os apelos de uma pessoa que “trabalha”.

(…)

Uma concepção alterada do ser humano e uma nova interpretação do significado da existência humana estão por trás dos recentes apelos feitos pelo “trabalho” e pelo “trabalhador”. E, como nós mesmos poderíamos esperar, a evolução histórica que resultou nessa mudança de concepção é difícil de seguir e quase impossível de ser recuperada detalhadamente. Se algo de real importância vai ser dito sobre o assunto, isso vai ser alcançado não por uma reconstrução da narrativa histórica, mas por uma escavação mais profunda às raízes mesmas da compreensão filosófica e teológica da pessoa humana.

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O cavaleiro das trevas ressurge, de Christopher Nolan

Publicado no Guia de Orientação Católica para Cinéfilos

O movimento do herói

O Cavaleiro das Trevas Ressurge, em cartaz nos cinemas, encerra a trilogia do cineasta Christopher Nolan sobre Batman, super-herói criado pelos quadrinistas Bob Kane e Bill Finger em 1939. As histórias, que se repetem há mais de 70 anos em diversas mídias, narram as peripécias do bilionário Bruce Wayne, que se fantasia de morcego para combater o mal na fictícia Gotham City, povoada por criminosos igualmente fantasiados, como o Coringa e a Mulher-Gato. Entre os poucos que sabem da identidade heroica de Bruce Wayne estão o seu jovem tutelado Dick Grayson, que também se fantasia de “Robin” para auxiliá-lo nas aventuras, e o fiel mordomo Alfred. É um entretenimento bem razoável, não apenas pela movimentação das aventuras, mas pelas possíveis colorações simbólicas das relações entre os personagens.

Nesse universo fantástico, e um tanto comovente pela ausência de elementos explicitamente sobrenaturais, podem ser desenvolvidas relações humanas autênticas entre os personagens. Na trilogia de Nolan, muitos críticos têm observado significados políticos sobre o mundo após o 11 de setembro. Os filmes do Batman ficaram, supostamente, mais realistas. Tudo o que era pitoresco hoje é justificado com dados cientificamente plausíveis. A fantasia do morcego surge por causa de um medo que o personagem adquiriu na infância e os acessórios do super-herói, como o bat-móvel e o cinto de utilidades, tornaram-se produtos da indústria militar. O novo Batman surge para os espectadores jornalisticamente acostumados com imagens do medo e da guerra.

O diagnóstico realista dos críticos está correto, porém, há um dado cinematográfico na trilogia de Nolan, especialmente nos dois últimos filmes, que merece ser considerado. O Cavaleiro das Trevas Ressurge, até mais do que os anteriores, é um exemplo singular de filme sobre o “movimento”.

Observamos sem muita dificuldade que os filmes de ação e fantasia estão cada vez mais movimentados. A própria câmera costumar participar dessa movimentação intensa dos filmes e, não raro, os espectadores saem entontecidos das sessões. Desse modo, a construção das cenas sugere a arbitrariedade mesma como força-motora das coisas. Tudo é indeterminado. Tudo flui. E, assim, os filmes refletem como o mundo contemporâneo se percebe. Porém, é bastante antigo afirmar a indeterminação ou o devir como princípios explicativos. Alguns filósofos pré-socráticos já cogitavam seriamente essas possibilidades.

No filme de 2008, O Cavaleiro das Trevas, o vilão Coringa, na performance antológica de Heath Ledger, é a personificação radical da arbitrariedade e do desenfreado. Ele se disfarça de policial, de enfermeira e de mafioso. Aparece sempre em ação, sendo assim tudo aquilo que não repousa e que não se contempla. Personagem de memória incerta e contraditória, esse diabo inquieto faz questão de se parecer com a loucura de um mundo esquecido de suas origens morais.

Os homens do mundo do Coringa movem-se pela indeterminação e assim os últimos filmes do Batman correm aos nossos olhos incessantemente, de tal modo que o próprio herói é repetidas vezes apresentado em movimento. Fugindo dos carros de polícia, Batman em sua moto veloz parece ser uma das imagens favoritas de Nolan.

Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, são dramas grandiosos os momentos em que os herói são forçados a usar uma bengala, estar numa cadeia, ou ainda, experimentar a impotência diante de uma ponte interditada. Porém, a representação de Nolan, diferente da maioria dos filmes de ação produzidos hoje em dia, opta pela câmera consciente das cenas. A câmera movimenta-se bastante, mas nunca de forma aleatória. O diretor reconhece o “movimento”, mas a ação irrequieta, antes de ser o fundamento do mundo, é um mal que deve ser enfrentado.

Nesta clássica luta do bem contra o mal, o personagem mais resistente ao mundo corrupto não é Bruce Wayne/Batman, o Cavaleiro das Trevas. Na verdade, o policial John Blake, que surge apenas no terceiro filme, é o herói que melhor testemunha as regras de movimento, mudança e corrupção daquele mundo. Ele sabe qual é a identidade secreta de Batman. Ao fim, quando os perigos de destruição de Gotham City são derrotados, consuma-se a movimentação dos três filmes sobre o universo do Batman.

É como se o mundo do pré-socrático Heráclito, que dizia que tudo flui, fosse novamente corrigido pela observação atenciosa de Aristóteles sobre o movimento. Uma potência torna-se ato e, assim, um novo herói desponta na nossa imaginação. Eis a velha lição filosófica rememorada neste bom filme sobre detetives. Como dizia o escritor inglês G.K. Chesterton, “o romance da atividade policial mantém o sentido de que a própria civilização é a mais romântica das rebeliões”.

Recomendação etária: 14 anos, aproximadamente
O filme contém cenas de violência (agressão física e assassinato).

Recomendo que se o filme for assistido em família, com filhos adolescentes, que sejam debatidos alguns pontos mencionados neste artigo – o principal deles, certamente, refere-se ao herói mais ideal da trama, o policial John Blake. Bruce Wayne/Batman apresenta virtudes como a disposição ao sacrifício, mas trata-se de um personagem com algumas atitudes morais que devem ser refletidas como, por exemplo, naquela cena “romântica” com Miranda Tate. É bastante sugestivo que aqueles personagens cederam ao hedonismo de uma relação descompromissada. Outrora os heróis das fantasias costumavam ser celibatários por um grande sacrifício em prol do bem comum. Hoje, possivelmente como resposta ao cinismo de uma sociedade que relaciona o celibato ao homossexualismo reprimido, forçam aos protagonistas das fantasias heroicas comportamentos sexuais não condizentes às virtudes de um verdadeiro herói.

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Guia de orientação católica para cinéfilos

Inicio um projeto na internet para orientar o público católico em relação os filmes que são lançados. Trata-se de uma escolha ética, movida após várias meditações sobre um probleminha bastante ignorado. É impressionante como perdemos tempos valiosos com coisas que nos distanciam da vida verdadeiramente contemplativa. O tempo de “descanso” é fundamental, mas é espiritualmente indesejável fugir, nem que seja por pouco tempo, do confronto que o ser humano é convocado eternamente: fazer a coisa certa.

O guia que publico é de orientação católica, porque reflito a partir dos desdobramentos éticos dessa grande tradição. Por isso mesmo, todos os leitores, universalmente, são convidados a participar das leituras.

O site é este. No blog “Memória e Identidade”, publicarei também as atualizações.

Iniciei com a análise de três “fantasias”. Nenhuma delas memorável. Avaliando os últimos filmes de cineastas importantes (Spielberg, Scorsese e Allen), reparo fugas do real concreto, que variam do pueril ao displicente. Não pretendi criticar a ideia mesma de fantasia, afinal, como admitiria Chesterton, um verdadeiro conto de fadas tem, antes de tudo, uma ética “real”. Porém, em muitos casos, fantasia é uma coisa (coragem) e escapismo é outra oposta (covardia).

As aventuras de Tintim

Fiel aos quadrinhos de Hergé, o filme dirigido por Steven Spielberg é propositalmente escapista. O herói Tintim é um garoto de idade indefinida, sem laços familiares, e que vive tão somente para a aventura. Nesta aventura, o jovem repórter, seu cachorro Milu e o capitão bêbado Haddock (a figura mais humanizada da narrativa) enfrentam gananciosos vilões que querem se apossar de um tesouro conquistado pelos ancestrais daquele marinheiro. No fim do filme, chega-se à impressão de que a busca por riquezas move mais o herói do que o desejo de fazer a coisa certa. Na melhor das hipóteses, é uma boa diversão. De qualquer forma, podemos apreciar alguma coisa da coragem de Tintim e de seu senso de responsabilidade para com o amigo Haddock.

Recomendação etária: 10 anos, aproximadamente
Contém cenas de violência (Assassinato e agressão física)
Cotação pessoal: ** (Regular)

A invenção de Hugo Cabret

Martin Scorsese narra sua homenagem a um dos primeiros cineastas, Georges Méliès. Apesar do protagonista ser um garoto, o ponto de vista do filme é inconvenientemente adulto. O garoto é um escape narrativo para a obsessão do cineasta com o mundo do cinema. Hugo Cabret não inventa nada, apenas instrumentaliza o tentador desejo humano de se viver preso a um passado infantilizado e confortável.  Não há cenas agressivas no filme. Porém, essa ausência de agressividade indica, em última instância, um espírito um tanto oficialesco de homenagens àquilo que os antepassados fizeram. No fim das contas, Hugo Cabret não amadurece. É difícil recomendar. Talvez, quem assistir poderá se divertir um pouco com uma ou outra estripulia.

Recomendação etária: Livre para todas as idades
Contém cenas de roubo e perseguição
Cotação pessoal: ** (Regular)

Para Roma com amor

Woody Allen é um cineasta inteligente e tem uma meia dúzia de filmes bastante interessantes. Porém, seu apego ao mundo das ilusões é, quase sempre, moralmente decepcionante. “Para roma com amor” é um filme articulado a partir de opções fantasiosas por parte de seus protagonistas. Para eles, fama e sexo não surgem a partir de confrontos com o real concreto, mas a partir de jogos demiúrgicos, (às vezes até um tanto cômicos – admitamos), por parte do autor. Se, por um lado, o erro moral dos personagens pode ser analisado a partir dessa vivência na ilusão deliberada, por outro lado, o cineasta, ao invés de demonstrar as consequências dos atos morais, encerra seus personagens num universo sempre inalterado e cuja realidade se encontra apenas no prazer do cineasta pelo absurdo. No fim das contas, é preciso que o espectador seja cúmplice desse “prazer”. Ou seja, é melhor ignorar o filme.

Não Recomendado
Contém cenas de sexo filmadas “à distância”, porém de forma vulgar; e diálogos chulos
Cotação pessoal: * (Ruim)

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