O antropólogo francês René Girard é um gênio que sustenta há umas quatro décadas a tese do bode expiatório, da violência fundadora das civilizações a partir de sacrifícios de vítimas. Uma de suas ideias mais brilhantes, pelo menos a que eu pude descobrir a partir do livro O bode expiatório, é a da impossibilidade mítica do cristianismo.
Girard se baseou em diversas fontes (peças literárias, mitos gregos e até mesmo teorias modernas, de Freud e Levi Strauss) e encontrou uma mesma fonte de estrutura vitimizadora. Assim, Girard entende que o sagrado, repleto de violência, funda as culturas.
Cristo, a vítima pascal, revela aos seres humanos a própria violência que forja o ambiente cultural. Porém, por mais que Nele o mecanismo vitimizador continuasse, na crença de que o sacrifício traria paz ao reino, Deus não se vinga. Pelo contrário, Ele se doa.
É a grande novidade. A grande reversão cultural. A verdade revelada.
A perspectiva da misericórdia é inédita. Ao invés de se pensar em culpa da vítima, revela-se o imperativo do perdão. A preocupação com a vítima traz novidades à cultura, que percebemos até os dias de hoje, inclusive com a nossa solidariedade às causas minoritárias.
Porém, ainda falta amadurecimento à nossa cultura. A auto-responsabilização individual pela violência ainda não ocorre e buscamos bodes expiatórios, como se a vingança instaurasse a paz.
Hoje, a violência não ocorre mais nos altares. Ocorre em ódios culturais cujo objeto, legítimo de crítica ou não, é sempre contemplado na perspectiva pré-cristã da violência punitiva. Há uma tendência cultural cujos repertórios de desconfianças descambam em diversos graus de ódio, numa reorientação do próprio fanatismo religioso pré-cristão.
Um dos inúmeros exemplos de barbárie religiosa reorientada é a atualização que o aborto faz ao infanticídio dos povos primitivos. A morte da criança restauraria a paz para a pessoa que escolhe tal atitude. Porém, trata-se de uma ilusão fundada atavicamente em perspectivas religiosas anteriores à revelação cristã.
Hoje, chega a ser perigoso ignorar as conclusões de um René Girard.
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Trecho de entrevista de Girard ao site O indivíduo:
Alvaro Velloso de Carvalho: O aborto nunca é visto num contexto bíblico, ou mesmo em um contexto antropológico mais amplo, certo?
René Girard: Sim, exato. Mesmo aqueles que argumentam contra o aborto nem sempre têm essa perspectiva, porque encaram a Bíblia de maneira excessivamente rígida.
A proteção à criança, a proteção ao recém-nascido é essencial na Bíblia. O sacrifício de Isaac marca a diferença entre o Deus antigo e o Deus novo: é o Deus antigo que pede a Abraão que ele sacrifique seu filho, e quando Abraão vai fazê-lo, o Deus novo impede o sacrifício da criança, e o substitui pelo sacrifício de um animal. O fim do infanticídio ritual é uma das marcas da nossa civilização, e estamos perdendo isso.
Recentemente, vi um livro em que o autor, de cujo nome não me lembro, dizia que o aborto era o sacrifício da criança, e ele tomava partido a favor desse sacrifício. Isso é o mais horroroso a que se pode chegar!
Fica a impressão de que as antigas fatalidades primitivas, descartadas provisoriamente pela luz profética e evangélica, estão ressurgindo. Na Bíblia, a proteção à criança vem junto com a proteção aos deficientes, aos leprosos, aos aleijados. Essas são as vítimas preferenciais nas sociedades antigas, e entendemos que devemos protegê-las. Hoje continuamos a proteger os aleijados, os deficientes, mas no centro de tudo há uma espécie de câncer se desenvolvendo, do retorno ao infanticídio. Este é um argumento decisivo, que poucos levam em consideração: os defensores do aborto estão procurando fazer a nossa sociedade retornar à barbárie pré-cristã.