Dennis Barlow, uma falsa promessa da poesia inglesa é contratado como roteirista por um estúdio de Hollywood. Perde o emprego. Precisa trabalhar e se ocupa num cemitério de animais de estimação. Sir Ambrose, outro escritor inglês demitido de Hollywood, e há tempos sem emprego, se mata e Barlow, seu único amigo na cidade, cuida de seu enterro. O velho será sepultado nas Clareiras Sussurrantes, cemitério dos endinheirados de Hollywwod, um autêntico parque temático. Barlow conhece a maquiladora Aimée Thanatogenos. Relacionam-se, mas o sr. Joyboy, embalsamador-chefe, apaixonado por Aimée entrará no triângulo amoroso. No fim, uma tragédia anglo-americana justificará o subtítulo de O ente querido, romance escrito pelo inglês Evelyn Waugh (1903-1966).
Existe uma certa displicência quando se alcunha a uma obra a qualidade de crítica mordaz, mas esse parece ser o único adjetivo apropriado ao humor do livro. Os luxos do cemitério temático e o tratamento estético dos mortos, cuja imagem para o sepultamento precisa ser a mais agradável possível para aqueles que se despedem, são metáforas mórbidas aplicáveis a qualquer incômodo cultural de nossa época.
G.K. Chesterton, Paul Claudel, T.S. Eliot, Shusaku Endo, Graham Greene, C.S. Lewis e J. R. R. Tolkien. Assim como eles, Evelyn Waugh também é um dos grandes imaginadores literários do século XX. E, pra variar, são todos cristãos. A crítica cultural de Waugh denota um esclarecimento tipicamente católico, mas de todos os escritores citados acima, o inglês talvez seja o mais insuspeito carola. Certa vez, uma amiga lhe questionou como um devoto católico poderia ser tão ofensivo. Waugh respondeu: “Você não tem ideia de como eu seria repugnante se eu não fosse católico. Sem a ajuda sobrenatural, dificilmente eu seria um ser humano”.
Trecho do livro O ente querido (tradução Cid Knipel, editora Globo, p. 79):
- É certamente um local poético para ser enterrado. Custa em torno de mil paus. O lugar mais poético em todo o bendito parque. Eu estava aqui quando eles o fizeram. Imaginavam que viriam irlandeses, mas parece que os irlandeses são naturalmente poéticos e não pagariam tanto assim por enterros. Além do mais, sendo católicos, eles têm seu próprio tipo deprimente de cemitério na cidade. O que temos aqui são principalmente judeus de bom gosto. Eles apreciam a privacidade. É a água, entende, que mantém os animais afastados. Os animais são uma dor de cabeça nos cemitérios. O doutor Kenworthy fez uma piada sobre isso numa reunião anual. A maioria dos cemitérios, disse ele, fornece um banheiro para os cachorros e um motel para os gatos. Muito esperto, hein? O doutor Kenworthy é um sujeito normal quando se trata da reunião anual. Não há problema com cães e gatos na ilha. As moças são nossa dor de cabeça,
moças e rapazes em quantidade considerável vêm aqui para dar uns amassos. Calculo que eles apreciam a privacidade, também, do mesmo jeito que os gatos.
Enquanto ele falava, alguns jovens tinham saído do arvoredo e esperavam o chamado do condutor para embarcarem; Paolas inconscientes e Francescas distraídas saindo de seu submundo em um invólucro incandescente de amor. Uma garota enchia bolas de chiclete como uma camela no cio, mas seus olhos estavam arregalados e dóceis na lembrança do prazer.