Uma defesa das histórias de detetive

Por G.K. Chesterton
Tradução: Rafael Carneiro Rocha
Fonte: http://www.chesterton.org/discover-chesterton/selected-works/the-detective/a-defence-of-detective-stories/

sherlock-holmesLivrar-nos das frases simplórias é o primeiro passo para que se descubra a verdadeira razão psicológica da popularidade das histórias de detetive. Não é verdade que as pessoas prefiram a má literatura e que aceitem as histórias de detetives porque elas sejam ruins. A mera ausência de sutileza artística não faz um livro popular. O guia ferroviário de Bradshaw contém nuances de comédia psicológica, mas não é lido em tardes de inverno. Se as histórias de detetive são lidas com mais entusiasmo do que guias ferroviários é porque elas são mais artísticas. Felizmente, muitos bons livros são populares; porém, outros vários livros bons, mais felizmente ainda, foram impopulares. Provavelmente, uma boa história de detetive seria mais popular do que uma má história. Mas o problema é que muitas pessoas não percebem que uma boa história de detetive possa existir. Tal existência seria para elas algo tão provável como um bom diabo. No entendimento delas, escrever uma história sobre um roubo seria como uma forma espiritual de cometê-lo. Para essas pessoas de sensibilidade frágil, é um dever confessar que muitas histórias de detetive são construídas a partir de crimes sensacionais, como uma peça de Shakespeare.

Há porém um fosso entre a boas e as más histórias de detetives que é bem maior do que a diferença entre um bom ou mau épico. A história de detetive não é apenas uma legítima forma de arte; seus benefícios ao público também possuem certas vantagens.

27O primeiro valor essencial da história de detetive está no fato de que é a primeira e única forma de literatura popular em que a poesia da vida moderna tem algum sentido. Por muito tempo, os homens viviam entre poderosas montanhas e florestas eternas antes de que desconfiassem de que aquilo era poético. Sendo assim, é razoável deduzir que alguns dos nossos descendentes se sensibilizarão com chaminés e terão os postes de luz como algo tão antigo e natural como as árvores. Da realização poética da grande cidade como algo selvagem e histórico, a história de detetive certamente será a “Ilíada”. Ninguém pode ter deixado de notar que nessas histórias o policial atravessa Londres com o mesmo tipo de solidão e liberdade do príncipe que percorre a terra dos elfos e que, na jornada do ônibus ordinário, a literatura assume as cores fundamentais de um navio de fadas. As luzes da cidade brilham como os inumeráveis olhos de um duende que guardam segredos primários, conhecidos do escritor mas ainda ignorados pelos leitores. Cada virada do caminho é um indicativo e a linha do horizonte fantástico das chaminés anuncia ironicamente o significado do mistério.

A compreensão da poesia de Londres não é uma coisa pequena. Num certo sentido, a cidade é mais poética do que o campo, porque a natureza é um caos de forças inconscientes, enquanto a cidade é um caos deliberado. A crista da flor ou o líquen podem ser ou não símbolos significativos. Mas não existe uma pedra na rua ou um tijolo na parede que não sejam símbolos conscientes. São mensagens vindas de um homem, como se fossem um telegrama ou um cartão postal. Os bandidos que tramam nas ruas mais estreitas circulam onde se inserem as almas de seus construtores, mesmo que eles já estejam nos túmulos. Cada tijolo tem como hieróglifo um ser humano, como se fosse parte de uma escultura da Babilônia. Cada junção de telhados é um documento educacional como uma lousa de somas e subtrações. Tudo o que tende, ainda que sob a forma fantástica das peripécias de Sherlock Holmes, para enfatizar o caráter humano impresso em pedras e telhas é uma coisa boa. É interessante que o homem médio tenha o hábito de imaginar que naqueles dez homens que circulam pelas ruas, talvez o décimo primeiro seja um ladrão notório.

frBrown_cover_lorezPodemos sonhar, talvez, que seja possível descobrir um grande romance de Londres, onde as almas dos homens se envolvam em aventuras mais estranhas do que os seus corpos, e onde seria mais difícil e mais emocionante caçar as suas virtudes do que os seus crimes. Porém, uma vez que os nossos grandes autores (com a admirável exceção de Stevenson) se recusam a escrever sobre os olhos felinos e emocionantes de uma grande cidade quando se escurece, devemos conceder justos créditos a uma literatura popular que, livre de pedantismos e preciosismos, rejeita o mundo moderno como um lugar repleto de banalidades. A arte popular em todos os tempos se interessa por hábitos contemporâneos. Foi ela quem vestiu mantos do populacho florentino e dos burgueses flamengos nas cenas artísticas da Crucificação. Em outro século, era hábito dos atores distintos apresentarem Macbeth vestidos de perucas e babados. Nesta época, a poesia de nossos hábitos cotidianos imagina uma pintura do Rei Alfredo, o Grande, em que ele esteja vestido de turista, ou uma performance de Hamlet em que o príncipe surge de sobrecasaca. O instinto da época de olhar para trás, como a mulher de Ló, não poderia continuar para sempre. Uma literatura rude e popular das possibilidades românticas de uma cidade moderna estava prestes a se levantar. Isto tem aparecido nas histórias de detetives, tão ásperas e cheias de frescor como as aventuras de Robin Hood.

No entanto, há outro bom trabalho desempenhado pelas histórias de detetives. Embora seja a tendência constante do velho Adão se rebelar contra algo tão universal e automático como a civilização e pregar a fuga e a rebelião, o romance da atividade policial mantém o sentido de que a própria civilização é a mais sensacional das partidas e a mais romântica das rebeliões. Ao lidar com os vigilantes sentinelas que guardam os postos avançados da sociedade, o romance policial nos lembra de que vivemos num acampamento armado, em guerra contra um mundo caótico, e que os criminosos, os filhos do caos, nada mais são do que os traidores dentro de nossos portões. Quando o detetive do romance policial está sozinho e destemido diante dos punhos e das facas de um ladrão, este bravo certamente nos lembrará de que o agente da justiça social é a primeira figura poética, enquanto os ladrões são os velhos conservadores cósmicos, criaturas felizes, mas tão respeitáveis como os imemoriais macacos e lobos. O romance da força policial é o romance da humanidade. É baseado no fato de que a moralidade é a mais ousada e obscura das conspirações. As histórias de detetive nos lembram de que as ações silenciosas e imperceptíveis que protegem o tecido social são feitas por bons cavaleiros.

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