Publico aqui a minha tradução do célebre ensaio do poeta T.S. Eliot, Tradition and the individual talent. Inicialmente, o ensaio foi publicado em duas partes, entre os anos de 1919 e 1920. Abaixo, segue a primeira parte do ensaio. Prometo a segunda parte para a próxima publicação do blog. O texto já existe em publicações de língua portuguesa, mas não o encontrei traduzido na internet.
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Tradição e o talento individual
Fonte: http://essays.quotidiana.org/eliot/tradition_and_the_individual/
Tradução: Rafael Carneiro Rocha
I
Nas letras inglesas são poucas as vezes em que falamos sobre tradição, ainda que ocasionalmente apliquemos este nome como lamento de sua ausência. Não conseguimos nos referir “à tradição” ou a “uma tradição”. Na maior parte das vezes, empregamos o adjetivo para dizer que a poesia de fulano é “tradicional” ou ainda “muito tradicional”. A palavra surge raramente, apenas em isoladas frases censoras. Caso contrário, ela será vagamente aprovável se a implicação do seu uso for uma agradável reconstrução arqueológica. Dificilmente a palavra tradição soará agradável aos ouvidos ingleses sem a cômoda referência à ciência da arqueologia.
Certamente trata-se de uma palavra rara nas nossas apreciações de escritores vivos ou mortos. Todas as raças de todas as nações tem os seus criadores e as suas fases críticas de reviravoltas no pensamento. Porém, a genialidade dos criadores é muito mais lembrada do que as deficiências e limitações dos hábitos críticos. Sabemos, ou pelo menos supomos que sabemos que a partir da enorme massa crítica literária escrita em língua francesa, nossa conclusão inconsciente é a de que os franceses sejam mais “críticos” do que nós. Por vezes, chegamos a nos envaidecer um pouco com o fato, como se os franceses fossem menos espontâneos. Talvez eles sejam assim, mas precisamos nos lembrar de que a crítica é tão inevitável como a respiração, e que não deveríamos nos diminuir, criticando nossa própria capacidade crítica quando articulamos aquilo que se passa em nossas mentes quando lemos um livro e reagimos emocionalmente a ele. Nesse processo, um dos fatos que deve ser elucidado é a nossa tendência de insistir, quando enaltecemos um poeta, nos aspectos de sua obra que não se assemelham ao que ninguém jamais fez. Procuramos encontrar o que é individual, ou aquilo que seja a essência peculiar do sujeito. Insistimos satisfeitos nas diferenças do poeta com os seus antecessores, principalmente seus antecessores imediatos, de modo que encontremos a peculiaridade que possa ser apreciada. Porém, se considerarmos um poeta sem essa predisposição, frequentemente encontraremos que não apenas as melhores, mas a maior individualidade de seu trabalho está nos aspectos em que os poetas mortos, seus antecessores, afirmam sua imortalidade mais fortemente. E não faço a consideração a partir de poesias adolescentes e impressionáveis, mas de períodos de maturidade integral dos poetas.
No entanto, se a única forma de tradição e de persistência de legado for o seguimento dos passos da geração imediatamente anterior à nossa, numa cega ou tímida fidelidade ao seu sucesso, a “tradição” deveria ser positivamente desencorajada. Nesse sentido, entre tantas correntes simplórias que brevemente se tornam pó, a inovação se torna melhor do que a repetição. Mas a tradição é um assunto de muito maior significância. Ela não pode ser herdada. Se existe no autor a pretensão de alcançá-la, será preciso muito esforço. A tradição envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico indispensável para qualquer um que continue poeta além dos seus vinte e cinco anos; e o sentido histórico envolve uma percepção, não apenas do passado que fora, mas do passado que permanece. O sentido histórico incita o indivíduo a escrever não apenas com o fluxo de sua geração em seu sangue, mas com o sentimento de que toda a literatura da Europa de Homero adiante e de que toda a literatura de seu próprio país existem simultaneamente e formam uma ordem simultânea. Esse sentido histórico é um senso de infinito, como também um senso do temporário e do infinito que o temporário emana. O escritor que tem essa percepção é um escritor tradicional e intensamente lúcido sobre o seu lugar no tempo e sua própria contemporaneidade.
Nenhum poeta e nenhum artista de qualquer ofício produz sentido integral sozinho. Seu significado é a apreciação de sua relação com os poetas e artistas mortos. Não se pode prezar um artista sozinho; deve-se confrontá-lo, por contraste ou comparação, com os motos. Não se trata meramente de historicismo ou criticismo. Considero isso um princípio da estética. A necessidade que o artista deve se conformar e ser coerente não é unidimensional; o que acontece quando uma nova obra de arte é criada é algo que acontece simultaneamente a todas as obras de arte que a precederam. Os monumentos existentes formam uma ordem ideal que é modificada pela introdução da nova (a realmente nova) obra de arte entre eles. A ordem existente é completa antes do surgimento das novas obras. Para que a ordem persista após a intromissão do inovador, a inteira ordem deve ser alterada, ainda que levemente. Consequentemente, as relações, proporções e valores de cada obra de arte diante do todo são reajustadas, e esta é a conformidade entre o velho e o novo. Quem quer que aprove essa ideia de ordem não considerará absurdo que o passado seja alterado pelo presente tanto quanto o presente é dirigido pelo passado. O poeta que está ciente da ordem formal europeia, ou especificamente de uma ordem da literatura inglesa, estará ciente também das grandes dificuldades e responsabilidades da sua criação.
Inevitavelmente, o poeta terá a percepção especial de que será julgado pelos padrões do passado. Digo julgado, não amputado por eles; não apenas julgado como tão bom ou pior do que os mortos; e certamente não julgado pelos cânones dos críticos mortos. Trata-se de um julgamento, uma comparação em que duas coisas são avaliadas entre si. Apenas render-se não seria para a nova obra de arte uma conformação integral; ela nem seria nova e nem seria consequentemente uma obra de arte. Não dizemos apenas que o novo vale mais porque se encaixaria, mas sim que a sua conformação ao passado é um teste do seu valor – um teste, é verdade, que só pode ser aplicado de maneira lenta e prudente, pelo fato de nenhum de nós ser um juiz infalível da conformidade. Assim, dizemos: isso aparentemente se conforma e talvez seja singular, ou isso é aparentemente singular e pode se conformar; mas dificilmente descobriremos qualquer individualidade.
Para proceder uma exposição do diálogo do poeta com o passado, ele não poderá considerar o passado como uma massa informe, nem o poeta poderá se constituir inteiramente de pouquíssimas admirações particulares, nem poderá o poeta se fixar em apenas um único período preferido. O primeiro movimento é inadmissível, o segundo deve ser entendido como a importante experiência da juventude e o terceiro como um agradável e altamente desejável complemento. O poeta deve estar muito consciente dos grandes fluxos, que não necessariamente fluem para as mais distintas reputações. Ele precisa saber do fato óbvio de que a arte não se aprimora, ainda que a matéria da arte nunca permaneça a mesma. Ele deve estar ciente de que o pensamento europeu, ou o pensamento de seu próprio país- algo que ele aprende ser muito mais importante do que sua mentalidade temporária- é um pensamento que muda, e esta mudança é um desenvolvimento que não abandona nada em sua rota, que não descarta Shakespeare, Homero, nem os pintores das cavernas. Que este desenvolvimento, refinamento talvez, complicação certamente, não é, a partir do ponto de vista do artista, uma melhoria. Talvez ainda nem uma melhoria do ponto de vista psicológico ou do porte que imaginamos. Talvez, o desenvolvimento se encerre apenas na complexidade da economia ou das máquinas. Mas a diferença entre o presente e o passado é que a consciência do presente é atenta para o passado numa extensão que a autoconsciência do passado não pode apresentar.
Certa vez alguém disse: “Os escritores mortos estão tão distantes de nós porque nós conhecemos muito mais do que eles”. Precisamente, eles são aquilo que conhecemos.
Estou ciente de uma objeção comum que é feita àquilo que é claramente parte do meu projeto de métier de poesia. A objeção é que minha doutrina poética solicita uma quantidade ridícula de erudição (pedantismo), uma reivindicação que pode ser rejeitada sob o apelo das vidas dos poetas de qualquer panteão. Dizem assim que muito conhecimento amortece ou perverte a sensibilidade poética.
No entanto, enquanto persistimos em acreditar que só se pode saber o suficiente para que a necessária receptividade poética e a indolência do poeta não sejam afetadas, percebemos que não é desejável limitar o conhecimento àquilo que pode ser ajustado para exames, salas de estar ou em pretensiosas formas de notoriedade. O conhecimento pode ser obtido e os mais relutantes devem suar por ele. Shakespeare adquiriu mais conhecimentos de História de Plutarco do que a maior parte dos homens conseguiria diante de todo o Museu Britânico. Deve-se insistir que o poeta desenvolva ou procure a consciência do passado e que isso deve ser contínuo ao longo de sua carreira.
É ncessária uma constante rendição de si mesmo quando se lida com algo mais precioso. O progresso de um artista é um prolongado autossacrifício em sua contínua extinção da personalidade.
Ainda resta definir o processo de despersonalização e a sua relação com o sentido da tradição. Na despersonalização, a arte pode ser aproximada à condição de ciência. Devo assim te convidar à apreciação de uma sugestiva analogia, a ação que ocorre quando uma elegante liga de platina é introduzida num recipiente que contenha ácido sulfúrico.

Rafael,
muita grata por essa tradução.
Anna
Bom saber que a tradução te serviu. Volte sempre, Anna.
Ótima iniciativa. Vai me possibilitar comparar com outra tradução!
Obrigado.
Samuel, se vc quiser voltar aqui depois de comparar as traduções, eu ficarei agradecido. Até.
“É ncessária uma constante rendição de si mesmo quando se lida com algo mais precioso. O progresso de um artista é um prolongado autossacrifício em sua contínua extinção da personalidade”.
maravilhoso, heheheheh
Lembra muito a concepção que o Tarkóvski tem do artista.
Interessante você ter lembrado esse cineasta. Dele, eu vi apenas “O sacrifício” e não li “Esculpir o tempo”, mas tenho vontade de conhecer melhor a sua obra.
Volte sempre.