Comunismo e Igreja não dão certo juntos, porque aquele pretende instaurar o Reino ainda na história (séculos antes de Marx, já existiam heresias similares no cristianismo que remontam, em última instância, ao desejo de Judas), ao passo que a cristandade, até mesmo para não se misturar ao poder político, deve almejar a santificação dos seus, um a um, “ovelha perdida” por “ovelha perdida”. Naturalmente, a nossa santificação é que tornará o mundo lugar cada vez melhor.
Digo isso, porque, por outro lado, a união dos cristãos com o conservadorismo político chega a um ponto insustentável se a ideia for conciliar os valores e consequências do liberalismo econômico com o cristianismo. A Igreja, definitivamente, não endossa os rumos de uma cultura que, na criação desenfreada de produtos de consumo, tem alimentado os demônios do individualismo, da massificação, da avareza corporativa, da esterilidade social e da crise das famílias.
Penso que o liberalismo só pode ser mais “desejado” que o comunismo, porque não existe no sistema capitalista um projeto articulado de reformulação da sociedade. Porém, é bastante claro que a civilização do consumo tem causado revoluções de comportamento que, se fizessem parte de um programa organizado com este fim, seriam gravemente condenadas pela Igreja. Aliás, os “estragos” causados por esta cultura moderna não perdem em nada para as violências dos regimes totalitários, porque são nascidos do mesmo desencanto.
O liberalismo e o comunismo são filhos do mesmo pai, o deus ausente. Primeiro, acreditaram que Cristo não precisava da Igreja. Depois acreditaram que o mundo não precisava de Cristo. O ateísmo moderno foi o caminho natural desse desencanto que, nos dias de hoje, coloca em dúvida a própria crença no “homem”.
Se o liberalismo econômico, na pior das hipóteses, é mais “desejado”, eu ouso dizer que do ponto de vista da investigação da realidade que alerta para a necessidade de mudanças, há pontos do pensamento da esquerda indubitavelmente mais cooperativos com os desafios da cristandade do que as repercussões individualistas da filosofia liberal. Se eu chego à conclusão, por exemplo, que a esterilização artificial da sociedade tem raízes na alienação causada pelo mundo do consumo, humildemente atribuo à esquerda esse tipo de investigação.
É preciso abrir as portas para o diálogo com todos aqueles, à direita ou à esquerda, que estejam interessados num mundo atento para a dignidade humana.
Desde que era cardeal, o Papa Bento XVI mantém diálogo com um jornalista alemão de esquerda, Peter Seewald. Os diálogos já renderam dois livros “Sal da terra”, de 1996, e “Luz do mundo”, de 2010.
Uma pergunta do jornalista em “Sal da terra” me chamou muito a atenção. Peter Seewald rememora uma carta de Pier Paolo Pasolini ao Papa Paulo VI, numa época já próxima do falecimento do cineasta. Pasolini escreve, com uma certa esperança, que a Igreja deveria resgatar um espírito de contestação e unir os inconformistas do “império” do consumo, numa luta análoga à do papado contra os poderes de outrora.
Na resposta, o então cardeal Ratzinger diz que há muita verdade na fala de Pasolini, uma vez que desde os profetas hebraicos existe a disposição para a crítica radical da sociedade.
Penso que ainda há muito a ser amadurecido no diálogo da Igreja com a esquerda, não para uma conciliação harmônica e impossível do cristianismo com o marxismo, mas na busca de alguns pontos de cooperação, do mesmo modo que ocorre com o conservadorismo de direita. As consequências da teologia da libertação ainda causam problemas lamentáveis, mas se a cristandade e a esquerda quiserem cooperação parcial ao invés de conciliação total, boas coisas surgirão.
Oi Rafael,
Com certeza, se pensamos em princípios, a igreja e a esquerda podem cooperar (e muito). Nesse sentido, o Pasolini é um cineasta emblemático. Tenho a forte impressão de que precisamos de mais Pasolinis nos dias de hoje.
Sobre a teologia da libertação, agrada-me a postura de Leonardo Boff em entrevistas como a que colo abaixo, sobre o que motivou a corrente:
“Mais que uma reflexão teórica é uma prática de amor e de solidariedade com o destino trágico dos pobres que na América Latina são simultaneamente oprimidos e cristãos. Portanto, algo que nasce profundamente da experiência cristã. A nossa questão era e continua sendo: pode a fé cristã que está no povo ser mais do que mera resignação e unicamente resistência e fazer-se uma inspiração para a indignação e para a libertação? Nós cremos que a segunda possibilidade é a mais adequada e verdadeira pois está na herança de Jesus que não aceitou o mundo como estava e teve uma atuação libertadora. Não foi em vão que morreu na cruz e não de velho na cama, cercado de discípulos. E nós o fazíamos a partir da prática de Jesus e não do marxismo. Dizer o contrário é caluniar a maioria dos teólogos que dedicaram o melhor de suas vidas e alguns foram até martirizados em nome desta opção evangélica. O que mais me dói é que irmãos persigam outros irmãos exatamente por uma causa que nos deveria unir: a paixão por Deus unida à paixão pelos últimos da fila, os condenados e ofendidos da Terra.”
( http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=98388 )
Mesmo sem conhecer profundamente a própria teologia da libertação, a minha simpatia por Boff já fica garantida diante de uma declaração como essa. Pois é sempre admirável, do meu ponto de vista (ou seja, de alguém que se assume de esquerda), uma reflexão teórica que parta da experiência das pessoas nas circunstâncias em que elas vivem. Se Boff pode sustentar a doutrina cristã, sem cabular seus princípios essenciais, e ao mesmo tempo aproximar a Igreja do povo, vejo nisso algo positivo, sem dúvida.
Em todo caso, não conheço suficientemente este tema para tomar uma posição. Inclusive, se você puder me indicar algum artigo, será muito bem vindo. (Naturalmente, há na internet uma porça de coisas, mas interrompo a leitura sempre que o autor lança argumentos do tipo: “Boff é apenas um comunista safado” ou “Boff é um ateu inconsequente”, que nada dizem, rs).
Abraço.
Oi Rodrigo
Uma coisa ou outra da teologia da libertação foi comentada positivamente pelo próprio Ratzinger no “Sal da terra”. Sobre a fé que vem do povo, ele dizia que a ideia da “interpretação popular” da Bíblia, que vem da teologia da libertação, é algo interessante, porque retoma o fato de que as Escrituras foram feitas para os mais simples.
Porém, Ratzinger, como teólogo e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve de apontar, ainda que de forma dolorosa, para todas as incoerências da teologia da libertação com a fé cristã. Nesse trecho de Boff, por exemplo, fica patente a análise política da Paixão de Jesus Cristo. Claro que existe essa implicação, mas não se pode partir da interpretação recortada para constituir toda uma fundamentação da ação cristã. A Paixão de Jesus Cristo diz respeito aos outros (aos poderosos), mas também diz respeito a mim (Ele morreu também, especificamente, pelas minhas misérias individuais). Para o cristão, não se pode nunca colocar tal evento como uma luta contra os outros, porque Deus esteve na história, porque se preocupou com a minha história também.
De qualquer forma, o caso Boff foi uma exceção, porque ele foi convidado ao “silêncio” pelo período de um ano, isto é, não podia escrever sobre o assunto, mas podia continuar dando aulas, por exemplo. Como membro da Igreja, ele teria de rever alguns pontos, o que não foi feito. E como a Igreja precisa guardar a fé que não vem de criações individuais, algumas medidas difíceis precisam ser tomadas.
Ainda assim, a Igreja sempre esteve muito sensível à causa dos mais pobres. Se analisarmos apenas do ponto de vista da instituição humana, trata-se largamente da maior organização caritativa do mundo. E em relação à problemática política, a voz da Igreja se manifesta, por exemplo, em apelos recorrentes ao perdão da dívida dos países pobres.
Abraços,
Rafael