Desde a infância, podemos ter pistas sobre quem somos a partir de quem são os nossos amigos. Gostamos de andar com quem aqueles que se parecem conosco, ou com a imagem que temos de nós mesmos.
Talvez, os amigos da adolescência tendem a ser transitórios menos por causa da mudança de rotinas do que pela luta individual em amadurecer. Em anos passados, aquilo que fazíamos e acreditávamos com os amigos bastante íntimos não combinaria mais com os presentes esforços de se encarar a vida adulta. Por outro lado, pelo fato da regra de se parecer com quem anda conosco permanecer, se o adulto é nostálgico dos companheiros de outrora, existe ali um sinal de dificuldade de amadurecimento. Este adulto ainda é adolescente no coração, porque se simpatiza mais pelos amigos de antigamente do que pelas pessoas que estão do seu lado.
Alguém poderia argumentar que as amizades são dependentes de círculos de convivência que não temos controle para demarcar, afinal não decidimos quem são nossos vizinhos e colegas de convivência diária. Porém, se o indivíduo se faz amigo de muitos daqueles que lhe são rotineiros – e aqui eu descrevo a amizade a partir de práticas como sair para jantar, chamar à casa, viajar juntos, etc – existe nesse sujeito um espírito inclinado a relacionamentos superficiais que reflitiria sua própria superficialidade. Exceções existem, mas se a identificação de amizade é imediata com muitos colegas de trabalho e vizinhos, isto significa que queremos nos parecer com indivíduos que têm as nossas mesmas inclinações – para usar um termo que leio em escritos de São Josemaría Escrivá – “aburguesadas”. Pode-se conviver por anos com um desses amigos, mas os diálogos dificilmente sairão de anedotas, comentários sobre espetáculos das massas, fofocas com psicologismos rasteiros e reclamações do tempo, do mundo e das pessoas. Não se pode ser seletivo para ser caridoso, mas aceitar todos os convites para passeios não é necessariamente um sintoma de sociabilidade saudável.
Certa vez, um colega de trabalho, de outro departamento, me disse que não tem amigos, mas que é amigo. Gosto parcialmente da afirmação, talvez porque seja mais fácil para mim ouvir alguém, falar algo e ir embora para casa do que confraternizar com os outros numa festa. Então, se eu converso às vezes com aquele sujeito, em encontros rápidos pelo pátio, é sinal também de que me identifico com alguma coisa dele. O analítico senhor Baltazar gosta de caminhar sozinho por entre os blocos da repartição, sem destino certo. Às vezes, eu faço esses pequenos banhos de sol também, enquanto penso na existência, na humanidade e se compensa comprar um salgado gorduroso na cantina.
Neste andar, de vez em quando a vida faz boa surpresa com uma ligação da Gaby. É bom caminhar ouvindo a voz dela. Para a Gabriely que tanto preciso amar, é dever de sempre que eu busque o melhor dos amigos. Não poderia me imitar, porque nunca sairia de mim a beleza que ela merece. Mas antes de falar sobre este amigo que quero imitar, me permitam recuar num apanhado de impressões recentes. Depois de abençoar o nosso noivado, Dom Rafael Cifuentes continuou sua conferência. Até então, nunca o vimos pessoalmente. Enquanto Dom Rafael falava, alguma coisa do seu olhar, da sua dicção e da sua respiração – enfim, todo um combinado harmônico de se pronunciar sobre a vida – me levava para o Padre Rafael. Espero que vocês não se confundam com tantos Rafaéis, mas eu, Rafael, percebia indícios fortíssimos do Padre Rafael, meu confessor, em Dom Rafael. Para facilitar nossa compreensão sobre os Rafaéis, curiosamente, Dom Rafael foi o primeiro diretor espiritual do Padre Rafael. Algum tempo depois, isso me fez descobrir no coração que existe um carisma especial na ordem a que eles pertencem. Um carisma se manifesta de diversas formas e eu captei parte dele num senso de humor, de serenidade e de bondade que colorem as palavras daqueles sacerdotes. Porém, mesmo tendo descoberto que o carisma era uma coisa da “ordem”, eu notava que aquela alegria não tinha sido inventada nem mesmo pelo fundador Escrivá. De fato, alguns padrões de comportamento que se repetem em amigos de um conjunto, mesmo religioso, são invenções bem mundanas. Vide o onipresente sotaque maroto, choroso e mais ou menos carioca dos pastores de uma seita, o palavreado barbado de sindicalistas e a oratória alegre, que não se sabe cínica, dos políticos brasileiros. Porém, na fala daqueles Rafaéis, o assemelhar-se é diferente, porque o amigo que eles imitam não vem da superficialidade da rotina ou dos interesses mundanos. É um amigo bastante conhecido, ainda que pouco ou superficialmente visitado.
Este amigo é Jesus Cristo. Quanto mais quisermos a amizade com Cristo mais nos pareceremos com Ele, do mesmo modo que quanto mais andamos com uma pessoa, mais tendemos a reproduzir o seu repertório de gestos e de expressões. Mas não pode se tratar apenas de uma amizade simbólica. É preciso visitá-Lo no sacrário, buscar Seus sacramentos na Igreja, conviver com bons sacerdotes, enriquecer a vida interior com orações e leituras espirituais, forçar o domínio de si por asceses, e fazer do cotidiano uma extensão da vida de Nosso Senhor.
Hoje, 4 de agosto, dia do Sacerdote, em homenagem a São João Maria Vianney, o Cura de Ar’s, e pedindo-lhe a intercessão para todo o clero, manifesto meu carinho enorme para com os amigos de Cristo, o Papa Bento XVI, nosso bispo Washington, meu diretor espiritual Rafael e meu pároco Félix.

É uma bênção poder confessar-se com padres tão bem formados na amizade com Cristo. Já me ajudaram muito! Mas há sempre que continuar, como você escreveu, Rafael: a buscar os sacramentos, “enriquecer a vida interior com orações e leituras espirituais, forçar o domínio de si por asceses, e fazer do cotidiano uma extensão da vida de Nosso Senhor.” E caindo e levantando, recomeçando a cada dia!
Eu penso, Stella, que a relação com os sacerdotes bem formados é um sinal concreto e real da nossa amizade com Cristo. De quem recebemos sacramentos e amizade, é preciso nutrir um profundo respeito. Um abraço!