Há trinta anos, o jovem Steven Spielberg capitaneava sucessos cinematográficos, como cineasta e produtor. Hoje, o seu nome consta nos créditos de produção de “Super 8”, filme dirigido por J. J. Abrams, que o universo das resenhas jornalísticas e do marketing da própria obra têm percebido referências estéticas e narrativas ao jovem Spielberg. Em sua história ambientada não por acaso em 1979, a trupe de pré-adolescentes que produz um filme sobre zumbis, na então bitola caseira super 8, terá o rito de passagem para a maturidade afetado por uma invasão alienígena numa pequena cidade americana. O bando de garotos envolvidos numa história fantástica pode remeter a filmes dirigidos por Spielberg como “E.T”. (1982), ou produzidos por ele, como “Os goonies” (1985). Os nostálgicos poderão se deleitar com “Super 8” e é a partir dessa infantilização de espírito que Abrams faz um filme, por vezes, emocionalmente poderoso.
O cinema de Steven Spielberg sempre teve fascinação por cordões umbilicais, atingindo o seu ápice no garoto em gozo eterno com a sua mãe no encerramento de “A.I – Inteligência Artificial” (2000). É comum em seus filmes que o drama passe pela ausência de um dos pais na formação familiar, por morte, divórcio ou abandono. Em “Super 8”, esse tipo de infortúnio se repete nas duas famílias protagonistas, ambas sem a presença das mães. Os filhos dos pais doloridos se tornam amigos e, neste “sair de casa” para fazer um filme amador, o filme investe no olhar virginal dos garotos, que não será o mesmo depois das experiências fantásticas com o alienígena que invade a cidadezinha. Os dois protagonistas, um garoto que faz a maquiagem de zumbi da menina atriz, se “olham” pelo dever da brincadeira e, apenas por simplórios campos e contracampos executados por Abrams, o espectador é situado na tensão entre os sexos que alerta para um mundo ainda misterioso.
“Super 8” é um filme sobre pessoas ainda imaturas e que nasce na imaturidade estética, afinal, ter Spielberg como referência nunca será um sinal profundo de excelência cinematográfica. Os únicos personagens do filme que agem de forma surpreendente são as crianças, porque elas ainda não atingiram os convencionalismos da vida adulta que o cinema de matiz spielberguiana não consegue compreender a fundo. Os personagens mais velhos passam o filme todo vestidos de militares, policiais, professores e operários. É uma visão que, assim como faz o cinema de Spielberg, estigmatiza quem se contrapõe à ingenuidade dos heróis. O nazista de uma fantasia como “Os caçadores da arca perdida” (1981) poderia atuar da mesma forma num filme adulto como “A Lista de Schindler” (1993).
Porém J.J. Abrams faz um filme sobre crianças que ainda precisam “olhar” para crescer, construindo, em alguns momentos, uma bonita radicalidade. Talvez, as figuras adultas de “Super 8” sejam superficiais, porque elas são filmadas por um cineasta que empresta todo o seu olhar para as crianças. O mundo de Super 8 é o da infantilização do espírito, para o bem e para o mal. Pela sua fixação secretamente mórbida com as coisas que o tempo apaga, a nostalgia juvenil não é lá uma coisa saudável, mas nos seus momentos de observação da meninice, “Super 8” se sai bem, porque é um olhar que busca numa época passada algum ideal de interação mais puro, ainda não mediado pela técnica dos telefones celulares e das redes sociais. Os rostos dos meninos se interagem. Olho no olho, campo, contracampo e alguma potência de vida.
Muito bom texto! Mas não vi o filme ainda.
Recebeu o nome que você queria, né?
Abraço.
Oi Rodrigo! Recebi, sim! Muito obrigado pela atenção.
Um abraço!