A vida em comunidade precisa de ordem. A inexistência de modos de comportamento regidos pelos mais experientes implicaria numa escravização dos homens aos apetites primários, o que não possibilitaria a vida humana como a conhecemos. A autoridade é, então, uma coisa necessária para a humanidade.
A partir da lei natural, aprendemos em nossos corações que existe uma fonte de autoridade. Na vida social, ora precisamos impor, ora precisamos obedecer. Neste chamado tipicamente humano, há uma série de direitos e deveres que cumprimos, não porque foram invenções de nossos apetites, mas porque é algo que todos reconhecem em si.
Porém, esta igualdade entre os homens, que é a semelhança com Deus, sempre foi questionada. Não me refiro, necessariamente, aos ateus, aos anarquistas, ou a quem quer que duvide ou negue a existência do Deus que ensina aos homens como se assemelhar a Ele.
O nosso egoísmo, quando consumado em qualquer uma de nossas faltas, é um sintoma, desde o primeiro erro da humanidade (que a Igreja chama sabiamente de “pecado original”), de que somos tentados a ser inventores de uma coisa que não nos pertence, que é a fonte de toda a autoridade. Se o outro também tem esta fonte inscrita no coração, eu não posso me colocar à frente dele como legislador da vida. Eu não posso destituir o outro de tal dignidade. Nesse sentido, preciso amar ao próximo como a mim mesmo.
Portanto, somos chamados a viver numa comunidade que será tão mais saudável quanto mais próximo for o entendimento de que os homens são semelhantes a Deus. O uso altruísta da autoridade nata é uma manifestação dessa semelhança e o uso egoísta é a sua negação.
A primeira comunidade semelhante a Deus é a família. Da geração do homem e da mulher, existe uma manifestação que se assemelha à criação primeira. Deus criou o homem e os homens criam os seus filhos.
Se quisermos que a vida humana “dê certo”, é preciso que a família “dê certo”. É muito difícil mudar para melhor as ordenações injustas de nossos sistemas políticos e econômicos, mas, ainda que isto seja possível, é preciso que as mudanças comecem conosco, a partir de nossos círculos mais íntimos.
A família precisa ser imitadora das intenções divinas, criando pessoas em corpo e alma. A educação dos filhos é devedora do “ser humano” que Deus nos concede. A formação precisa da autoridade e enquanto os filhos não atingirem total responsabilidade pelos seus atos, é dever dos pais, não apenas com Deus, mas consigo mesmos e com a prole, exercer os deveres que lhe são concedidos. Se os filhos não estiverem sob as regras firmes dos pais, a família trairá a sua vocação natural.
Pai e mãe são uma só carne e todas as suas intenções para com os filhos precisam ser semelhantes. Aos olhos dos filhos, diferenças de opiniões entre marido e mulher só valem no âmbito das preferências entre morango e chocolate. Se houver diferenças de intenção sobre como exercer a autoridade paterna, que o consenso seja buscado a qualquer custo, nem que um dos lados tenha de ceder. E, mesmo que o lado que opine por mais “rigidez” pareça ter menos razão, é recomendável que a concessão seja para esta orientação. Impedir os garotos de fazer isso, vestir aquilo ou ir para acolá não é o fim do mundo.
Tradicionalmente, a figura do pai zela mais pela rigidez, enquanto a mãe nutre um espírito maior de cumplicidade para com a prole. Se por um lado, a educação moderna coloca o pai mais próximo afetivamente dos filhos, o que é algo muito bonito, por outro lado existe aí a perigosa tentação da cumplicidade. Em muitos lares, o pai é mais manso com a prole do que a mãe, porque o homem quer ser bem quisto pelos garotos. É um anseio compreensível, devido à dureza do mundo. O sujeito passa o dia pressionado pelas dificuldades da vida e quando chega em casa deseja, legitimamente, alguma ternura. Claro que os filhos são fonte de ternura, mas quem tem o dever de zelar pela autoridade no lar não deve se preocupar em ser recebido com mimos. Quando for necessário, o pai deve fazer o sacrifício de ser menos compreendido e querido do que a mãe. Faz parte da sua digníssima vocação. A longo prazo, os filhos bem formados lhe serão gratos, mas no calor do momento, o pai deve estar preparado para a impopularidade.
O homem se inclina mais facilmente pelo zelo da autoridade, enquanto a mulher é uma guardiã mais natural das ternuras. Em algumas ocasiões, o homem pode ser mais terno e a mulher pode ser mais rígida, mas se esta inversão se tornar uma regra, o lar não terá uma ordenação clara e natural. Ainda que o temperamento do homem seja mais maleável do que o da mulher, é preciso ter em vista que o exercício de formar os filhos é algo que nos transcende. Não fomos os primeiros e nem seremos os últimos a educar crianças. É preciso moldar nossas condutas para que sejam de acordo com as intenções divinas para a humanidade. Agiremos em verdade e, neste exercício livre, teremos feito a nossa parte para o bem estar de todos.