Inicio um projeto na internet para orientar o público católico em relação os filmes que são lançados. Trata-se de uma escolha ética, movida após várias meditações sobre um probleminha bastante ignorado. É impressionante como perdemos tempos valiosos com coisas que nos distanciam da vida verdadeiramente contemplativa. O tempo de “descanso” é fundamental, mas é espiritualmente indesejável fugir, nem que seja por pouco tempo, do confronto que o ser humano é convocado eternamente: fazer a coisa certa.
O guia que publico é de orientação católica, porque reflito a partir dos desdobramentos éticos dessa grande tradição. Por isso mesmo, todos os leitores, universalmente, são convidados a participar das leituras.
O site é este. No blog “Memória e Identidade”, publicarei também as atualizações.
Iniciei com a análise de três “fantasias”. Nenhuma delas memorável. Avaliando os últimos filmes de cineastas importantes (Spielberg, Scorsese e Allen), reparo fugas do real concreto, que variam do pueril ao displicente. Não pretendi criticar a ideia mesma de fantasia, afinal, como admitiria Chesterton, um verdadeiro conto de fadas tem, antes de tudo, uma ética “real”. Porém, em muitos casos, fantasia é uma coisa (coragem) e escapismo é outra oposta (covardia).
As aventuras de Tintim
Fiel aos quadrinhos de Hergé, o filme dirigido por Steven Spielberg é propositalmente escapista. O herói Tintim é um garoto de idade indefinida, sem laços familiares, e que vive tão somente para a aventura. Nesta aventura, o jovem repórter, seu cachorro Milu e o capitão bêbado Haddock (a figura mais humanizada da narrativa) enfrentam gananciosos vilões que querem se apossar de um tesouro conquistado pelos ancestrais daquele marinheiro. No fim do filme, chega-se à impressão de que a busca por riquezas move mais o herói do que o desejo de fazer a coisa certa. Na melhor das hipóteses, é uma boa diversão. De qualquer forma, podemos apreciar alguma coisa da coragem de Tintim e de seu senso de responsabilidade para com o amigo Haddock.
Recomendação etária: 10 anos, aproximadamente
Contém cenas de violência (Assassinato e agressão física)
Cotação pessoal: ** (Regular)
A invenção de Hugo Cabret
Martin Scorsese narra sua homenagem a um dos primeiros cineastas, Georges Méliès. Apesar do protagonista ser um garoto, o ponto de vista do filme é inconvenientemente adulto. O garoto é um escape narrativo para a obsessão do cineasta com o mundo do cinema. Hugo Cabret não inventa nada, apenas instrumentaliza o tentador desejo humano de se viver preso a um passado infantilizado e confortável. Não há cenas agressivas no filme. Porém, essa ausência de agressividade indica, em última instância, um espírito um tanto oficialesco de homenagens àquilo que os antepassados fizeram. No fim das contas, Hugo Cabret não amadurece. É difícil recomendar. Talvez, quem assistir poderá se divertir um pouco com uma ou outra estripulia.
Recomendação etária: Livre para todas as idades
Contém cenas de roubo e perseguição
Cotação pessoal: ** (Regular)
Para Roma com amor
Woody Allen é um cineasta inteligente e tem uma meia dúzia de filmes bastante interessantes. Porém, seu apego ao mundo das ilusões é, quase sempre, moralmente decepcionante. “Para roma com amor” é um filme articulado a partir de opções fantasiosas por parte de seus protagonistas. Para eles, fama e sexo não surgem a partir de confrontos com o real concreto, mas a partir de jogos demiúrgicos, (às vezes até um tanto cômicos – admitamos), por parte do autor. Se, por um lado, o erro moral dos personagens pode ser analisado a partir dessa vivência na ilusão deliberada, por outro lado, o cineasta, ao invés de demonstrar as consequências dos atos morais, encerra seus personagens num universo sempre inalterado e cuja realidade se encontra apenas no prazer do cineasta pelo absurdo. No fim das contas, é preciso que o espectador seja cúmplice desse “prazer”. Ou seja, é melhor ignorar o filme.
Não Recomendado
Contém cenas de sexo filmadas “à distância”, porém de forma vulgar; e diálogos chulos
Cotação pessoal: * (Ruim)