Tempo livre: A base da cultura

Confira o primeiro capítulo, em português, do livro “Leisure – The basis of culture”, de Josef Pieper. Trechos desse livro, incluindo o primeiro capítulo na íntegra, estão disponíveis no Google Books. Clique aqui para ter acesso a essa versão em língua inglesa da obra.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha
Publicado no Cozinha e Biblioteca

Porém os deuses, piedosos dos seres humanos – uma raça nascida para o labor – concederam-lhes festas em honras às divindades, como meio dos homens aliviarem-se por um tempo de suas fadigas; desse modo, aos homens foram concedidas as Musas, sendo Apolo e Dionísio os senhores delas. Portanto, após a companhia restauradora dos deuses, os homens deverão retornar aos seus honrados afazeres.

Platão

Parai, disse ele, e reconhecei que sou Deus
Salmo 45

I

Podemos começar, como os mestres escolásticos, com uma objeção: videtur qued non… “Parece não ser verdadeiro que…”

Ei-la: Parece que numa época como esta presente (o livro foi publicado inicialmente na Alemanha, poucos anos após a II Guerra Mundial), em comparação a todas as épocas, não é atual falar de “tempo livre”. Estamos engajados em reconstruir nossa casa e nossas ocupações estão inteiramente preenchidas. Todos os nossos esforços não deveriam ser direcionados exclusivamente para a finalização dessa obra?

Esta não é uma pequena objeção. Porém, há uma boa refutação para ela. Hoje, “construir nossa casa” implica não apenas em assegurar-nos a sobrevivência imediata, mas colocar em ordem toda a nossa herança moral e intelectual. E, antes de que apresentemos um detalhado plano de ação para isso, nosso recomeço civilizacional, ou refundação, demanda imediatamente por… uma defesa do “tempo livre”.

Pois, quando consideramos as fundações da cultura ocidental (seria precipitado assumir que nossa refundação executar-se-ia pelo espírito “ocidental”? De fato, este é o pressuposto que está colocado em questão hoje), uma dessas fundações é o “tempo livre”. Podemos ler sobre isso no primeiro livro da Metafísica de Aristóteles. A própria história do significado da palavra carrega consigo algo de elucidativo. A palavra grega para “tempo livre” (σχoλ´η) é a origem do termo em latim scola que, em português, significa escola. O nome dessas instituições de educação e aprendizagem significa “tempo livre”.

Obviamente, o significado original do conceito de “tempo livre” tem sido praticamente esquecido em nossa cultura do “trabalho total”. Para que possamos ser bem sucedidos em compreender realmente o que o “tempo livre” é, teremos de dialetizá-lo com a ênfase exagerada que dedicamos ao mundo do trabalho. “O indivíduo não trabalha apenas para viver, mas vive pela causa de seu próprio trabalho”, esta sentença de Max Weber faz muito sentido para nós. É difícil que reconheçamos como isso é uma inversão na própria ordem das coisas.

E como seria nossa resposta para esta sentença: “Trabalhamos para garantir o tempo livre”? Neste caso, hesitaríamos em dizer que o mundo foi realmente virado de cabeça para baixo? Essa afirmação não parece imoral para o homem e a mulher do mundo do “trabalho total”? Isso não é um ataque aos princípios básicos da sociedade humana?

De qualquer forma, não fui em quem forjou aquela sentença para demonstrar algo. Aquela afirmação foi feita por Aristóteles. Sim, Aristóteles: o sóbrio e o árduo realista, e o fato de que disse aquilo concede à sentença um significado especial. O que ele diz, numa tradução mais literal, seria: “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”. Para os gregos, “não estar em tempo livre” era a palavra que designava o mundo do trabalho diário; e isto não era um indicativo apenas do “corre-corre” das nossas labutas, mas o trabalho em si mesmo. A língua grega tinha sua própria forma negativa para expressar o termo (´α−σχoλ´ια), do mesmo modo que o latim (neg-otium, “não-ócio”).

O contexto não apenas daquela sentença de Aristóteles, mas de uma outra deste mesmo autor em sua “Política” (quando ele declara que o eixo pelo qual todas as coisas se voltam é o “tempo livre” – Política VII, 3 (1337b33), demonstra que tais noções não foram consideradas extraordinárias, mas evidentes por si mesmas: os gregos provavelmente não compreenderiam nossas máximas sobre “trabalhar pela causa do trabalho”. Poderia isso implicar no fato de que as pessoas de nossa época não conseguem mais ter um acesso direto ao significado original de tempo livre?

De qualquer forma, poderíamos, é claro, propor uma objeção para Aristóteles. Afinal, quão a sério poderemos tomá-lo? Nós podemos admirar os antigos, mas isto não significa que sejamos obrigados a segui-los.

Por outro lado, consideremos o seguinte: o conceito cristão de “vida contemplativa” (a vita contemplativa) foi construído a partir do conceito aristotélico de “tempo livre”. Ademais, a distinção entre “Artes Liberais” e “Artes Servis” tem a sua origem precisamente ali. Mas essa não seria uma distinção de interesse exclusivo dos historiadores? Bem, pelo menos um lado dessa distinção destaca-se na vida cotidiana, quando surge o tema do “trabalho servil”, o tipo de atividade considerada inapropriada para o “descanso sagrado” do Sabbath e dos domingos e feriados. Quantos são aqueles que estão conscientes de que a expressão “trabalho servil” não pode ser integralmente compreendida sem contrastá-la com as “artes liberais”? E o que significa afirmar que algumas artes são “liberais” ou “livres”? Essas coisas ainda precisam ser esclarecidas.

Demonstramos, pelo menos, que as palavras de Aristóteles tem alguma relevância para nossa época. Porém, isso ainda não é suficiente para nos “engajar”. O real motivo de mencionarmos a sentença aristotélica foi para mostrar quão nitidamente a moderna valoração do trabalho e do “tempo livre” difere daquela promovida pela Antiguidade e pela Idade Média. De fato, essa diferença é tão grande que já não podemos compreender instantaneamente o que a mentalidade antiga e medieval apreendia da sentença “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”.

Hoje, a mera existência dessa diferença e de nossa inabilidade em recuperar o significado original de “tempo livre” vai nos abalar cada vez mais que percebermos como, de forma extensiva, a ideia oposta de “trabalho” tem invadido e tomado conta de todo o reino da ação humana – e da existência humana como um todo; e também seremos abalados quando percebermos como estamos solícitos para atender a todos os apelos de uma pessoa que “trabalha”.

(…)

Uma concepção alterada do ser humano e uma nova interpretação do significado da existência humana estão por trás dos recentes apelos feitos pelo “trabalho” e pelo “trabalhador”. E, como nós mesmos poderíamos esperar, a evolução histórica que resultou nessa mudança de concepção é difícil de seguir e quase impossível de ser recuperada detalhadamente. Se algo de real importância vai ser dito sobre o assunto, isso vai ser alcançado não por uma reconstrução da narrativa histórica, mas por uma escavação mais profunda às raízes mesmas da compreensão filosófica e teológica da pessoa humana.

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