Café Society, de Woody Allen

Café Society, o novo Woody Allen, é uma beleza fotografada por Vittorio Storaro que parece estar de acordo com aquilo que aprendi na segunda parte da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino: em termos da ação humana, a atividade racional só é para ser compreendida a partir de um contexto em que as paixões da alma são levadas em conta. Alma apetitiva e alma racional não são dois compartimentos descontínuos, mas potencialidades de uma só alma humana. O filme de Woody Allen ilustra brilhantemente em suas últimas cenas que a vida ganha mais sentido se for reflexiva e que, para nós, pobres homens, as paixões são uma porta significativa de entrada para a reflexão.

Publicado em Cinema, Uncategorized | Marcado com , | Deixe um comentário

Esquadrão Suicida

Parece-me que David Ayer teve certa liberdade criativa da Warner/DC para desenvolver o filme, pelo menos enquanto o filmava. O que houve, na minha opinião, foi falta de tempo para dar ao filme uma coerência interna, isto é, uma articulação de seus elementos cinematográficos e narrativos que manifeste “qual é” a do filme. Nesse sentido, é difícil avaliar se o filme é bom ou ruim, porque mesmo quando dizemos que o filme é ruim, o juízo parte de uma generalidade que aplicamos ao filme como um todo. Podemos dizer que um dado filme ruim tem performances comprometedoras, encenação preguiçosa, ou ainda um roteiro incoerente, de maneira que tais elementos problemáticos são generalizações que procuram dar conta do filme como uma unidade.

Pensemos, por exemplo, na performance de Jared Leto, como Coringa. A propaganda oficial procurava acentuar uma aura em torno da performance do Coringa, de modo a acentuar que Leto, um ator do método, estava a construir uma atuação à altura do grande legado dos intérpretes anteriores do personagem. Porém, é fato que nem Leto e nem Ayer conseguiram chegar ao que seria uma apresentação de personagem minimamente coesa. Em algumas cenas, Leto parece demais com o Jim Carrey de filmes como “The cable guy” ou “Eu, eu mesmo e Irene”. Carrey é um gênio e não há nada de errado, a priori, numa performance que nos lembre dele, ainda mais se tivermos em consideração que o Coringa é um palhaço. Contudo, uma perfomance do Coringa à Jim Carrey não se articula coerentemente com um filme que tenta, por meio da direção de arte e figurinos, tornar a imagem do vilão parecida com a de um rei do tráfico atormentado, algo que, em outras cenas, o próprio Leto se incumbe muito bem em fazer, fornecendo um registro de vião bem menos histriônico. Isso torna claro que o ator, nas filmagens, ofereceu outras possibilidades de performance que, ao invés de serem eliminadas em favor de uma unidade de caracterização, foram acrescentadas no filme lançado, fazendo da fruição de Esquadrão Suicida uma experiência com um trabalho em andamento.

Outro sintoma da pressa com que o filme foi produzido está no descuido dramático com a vilã do filme, Magia. Fica ao espectador a sensação de que fizeram questão de filmar o primeiro tratamento do roteiro do próprio Ayer, em que este, para ter um primeiro vislumbre da história como um todo (que depois teria de ser naturalmente melhor elaborada), simplesmente se aproveitou das ideias do Caça-Fantasmas, de 1984. A vilã de Esquadrão Suicida, o seu capanga e o combate final com a sua derrota, que implica na “desincorporação” da entidade maligna que havia possuído a mocinha, repetem muitos elementos do Caça-Fantasmas. Contudo, isso nunca é uma “referência” ou “homenagem”, mas ao que me parece apenas um remendo narrativo, porque é necessário um combate com o vilão no terceiro ato e, na falta de tempo para a elaboração de algo mais singular, repete-se descaradamente elementos que já foram utilizados num filme famoso do passado. Isso pode funcionar num primeiro tratamento de roteiro, mas não num filme lançado.

De qualquer maneira, mesmo que o resultado final seja mais uma prestação de contas do atual estado de coisas do universo cinematográfico que a Warner/DC vem elaborando do que um filme uno, acabado e resolvido (para o bem ou para o mal) em si mesmo, o que assistimos não deixa de ser, sob certas perspectivas, muito interessante. O “fracasso” do filme em não ter uma boa história, por exemplo, pode ser personificado na personagem, a um passo da vilania, Amanda Waller, interpretada por Viola Davis. Que essa mulher, o cérebro por trás do Esquadrão Suicida, seja obstinada em reunir, sem muita razoabilidade, um grupo suspeito para a execução de missões confusas, parece indicar que realmente não faz sentido, do ponto de vista narrativo, algo como um “Esquadrão Suicida”. Dessa maneira, o que temos num primeiro momento é inevitavelmente um fracasso narrativo que, enquanto filme, reflete a instabilidade mesma da personagem que move as peças do jogo. Como diz a letra da música dos Rolling Stones que embala as cenas iniciais de apresentação da “jogadora” e da própria cartela com o título do filme: “.. what’s confusing you is just the nature of my game”…

Fiquemos, então, a esperar as próximas jogadas.

Publicado em Cinema, Uncategorized | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Ave, César! e Invocação do Mal 2

Até o presente momento, meus dois filmes favoritos da safra 2016 são Ave, César! (dos irmãos Coen, lançado em abril) e Invocação do mal 2 (de James Wan, lançado no último fim de semana).

Os irmãos Coen têm tanto prazer em narrar a história, que todas as referência ao modus operandi dos clássicos da era de ouro dos grandes estúdios de Hollywood não têm nada a ver com citações satíricas com ar de superioridade ou ainda com meras homenagens vazias; mas, isto sim, com a única saída possível para quem ainda acredita nos encantos narrativos do cinema. A crença dos irmãos Coen no bom cinema narrativo deixa claro para nós que o cineasta têm de ser crédulo para que, enquanto espectadores, acreditemos no filme, por mais absurdo que tudo aquilo possa parecer.

Por sua vez, o filme de terror de Wan me agradou muito, porque eu também vi ali um cineasta profundamente comprometido com a crença. A narrativa de Invocação 2 baseia-se em eventos sobrenaturais que teriam ocorrido em Londres no fim dos anos 70 e toda a construção narrativa fundamenta-se na crença de que tudo foi daquele jeito: não apenas as manifestações demoníacas, mas os penteados, os objetos cotidianos e até o clima de melancolia causado pelas intensas mudanças culturais e crises econômicas, de maneira que tudo é envolvido pelo pano de fundo das típicas músicas tristes do período (numa certa altura, o uso de I started a joke, dos Bee Gees, é um soco no estômago).

Porém, o que mais me chamou a atenção nesses dois filmes é que seus protagonistas do passado são dois sujeitos católicos, moralmente íntegros, e radicalmente crédulos daquilo que seria a missão própria e tradicional do varão: amar a mulher e proteger a família. Você pode discordar dessa visão de mundo, mas o fato é que em mentes criativas elas sempre rendem boas histórias. E que esses dois filmes, que acenam um tanto positivamente para modos de vida que eram mais habitais no passado, sejam distribuídos por grandes estúdios de Hollywood em 2016 indicam algo mais fácil ainda de acreditar: os produtores de cinema não são todos eles inimigos dos costumes tradicionais e da religião obcecados em incutir ideais revolucionários nos espectadores com o objetivo de promover grandes mudanças culturais. Eles querem principalmente ganhar dinheiro e o fato é que enquanto houver filmes tão bons quanto Ave, César! e Invocação 2 saindo de Hollywood, continuaremos todos nós, conservadores e progressistas, a pagar para vê-los.

Publicado em Cinema, Uncategorized | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Batman vs Superman vs Guerra Civil

Um vilão pretende derrotar ou enfraquecer dois heróis poderosíssimos e, com certa astúcia, ao invés de optar pelo confronto direto com eles, cria uma série de aparências de realidade que colocam equivocadamente um contra o outro. Esse é o fio condutor do enredo dos últimos candidatos ao sucesso esmagador nas bilheterias mundiais, lançados com um intervalo de apenas um mês de distância. Nesse confronto, eu tendo a preferir Batman vs Superman, que tem muitos problemas pontuais, mas é instigante se considerado de acordo com perspectivas mais gerais,  ao Guerra Civil, que tem muitos acertos pontuais, mas que no fim das contas parece ser apenas uma diversão bem agradável.

Desde que a Warner/DC inaugurou seu universo cinematográfico de super-heróis com Homem de Aço (2013), os problemas de delegar tal responsabilidade para um cineasta limitado como Zack Snyder já estavam patentes. No fim das contas, o filme é bem razoável (principalmente por causa do ótimo roteiro), mas revela um certo descuido em coisas realmente importantes como direção de atores e escalação de elenco. Snyder definitivamente importa muito mais com o impacto visual da cena isolada do que com a encenação dramática de uma sequência. Isso causa perplexidade não apenas quando assistimos à ruindade performativa de um Henry Cavill (o Superman), mas principalmente quando o desconforto do ator com o papel se revela numa Amy Adams (Louis Lane), que é realmente uma das melhores atrizes de sua geração. Em Homem de aço, eu já lamentava que um projeto de sustentação de universo cinematográfico que abrangeria no futuro personagens fascinantes como Batman e seus inimigos estivesse confiado a um sujeito que não sabe dirigir atores, ou simplesmente não dá bola para isso. Tendo isso em mente, fui assistir ao Batman vs Superman desconfiado. Porém, eu me surpreendi.

Henry Cavill continua canastrão, mas arrumaram uma solução interessante para Amy Adams: ao invés da jornalista abelhuda que nem ela nem Snyder conseguiram construir convincentemente no primeiro filme, surge em cena uma mocinha que, sempre em situações de perigo, só tem a função narrativa de permitir ao Superman fazer cálculos morais bem complicados, ao decidir como salvar a namorada nas ocasiões em que isso pode implicar no efeito colateral de várias outras mortes.

É justamente esse um dos pontos fortes do filme. Batman vs Superman tem peso moral, e isso se reflete o tempo todo até mesmo na canastrice de Cavill, mas principalmente na envergadura forte, pesada e cansada de Ben Affleck, como Bruce Wayne/Batman. Em relação ao Batman, eu posso até preferir interpretações menos violentas do personagem e, de fato, como fã do personagem, não “simpatizo” com a ideia de vê-lo torturar inimigos e matá-los, mas é inegável que do ponto de vista desta específica criação, que não tem obrigação cinematográfica nenhuma de “honrar” com outras interpretações do personagem  (o purismo do fã não tem o menor sentido), o arco dramático dele é muito bem desenvolvido. Achei formidável o recurso da voz em off de Bruce Wayne no começo do filme a lamentar a “queda”, ao mesmo tempo em que grãos de terra caem em cena, em contraposição ao discurso esperançoso dele no final, de maneira que, em seguida, a terra que “sobe” sinaliza uma importante reviravolta. Trata-se de um protagonista que muda, sendo que em todas as etapas desse processo há uma certos elementos cênicos e de enredo construídos para revelar um razoavelmente bem sucedido arco dramático.

Outra coisa bastante interessante no processo de sofrimento do protagonista foi a concepção de um Bruce Wayne atormentado por pesadelos ou premonições, de maneira que a atmosfera onírica sombria prevalece até mesmo em momentos “reais”. Alguns super-heróis apresentados brevemente nesse filme, como Aquaman, Flash, Mulher-Maravilha e Cyborg, são tratados como meta-humanos e achei uma ousadia bem vinda que, nos momentos em que eles são visualizados em vídeos, aquilo tudo pareça como um filme de terror. Parece que em vez de optar pelo humor auto-referencial como uma das estratégias de consolidação da fantasia absurda que envolve heróis fantasiados, que é o caso em todos os filmes da Marvel, Snyder optou por consolidar o absurdo criando um clima geral de pesadelo inóspito. O sujeito tem a mão bastante pesada, sem dúvida, mas o fato é que a proposta do filme tem a ver com esse peso mesmo. Alguns críticos reclamam de falta de senso de humor nesse filme de heróis, mas o fato é que há humor; porém, um humor coerentemente inserido na proposta geral do filme. Eu me diverti bastante com as cenas de paquera na alta sociedade entre Bruce Wayne e a Princesa Diana/Mulher Maravilha (Gal Gadot), e confesso que o filme me ganhou completamente quando, numa dessas cenas de paquera dolorida e desengoçada, eles estavam num ambiente onde se ouvia a valsa n° 2 de Dmitri Shostakovich, a mesma executada naquele grandioso filme de Stanley Kubrick, De olhos bem fechados. Naquele momento, Ben Affleck e Gal Gadot eram dois errantes oníricos desconfortáveis na alta sociedade exatamente como os personagens do filme de Kubrick. Snyder não tem nada a ver com Kubrick, mas uma referência assim que ele faz em Batman vs Superman me parece ser muito mais interessante para reforçar o aspecto fantasioso de seu filme do que qualquer auto-referência sarcástica que vemos aos montes nos filmes de super-heróis.

Por fim, acredito que o maior peso do filme seja aquele peso do temor religioso que teríamos num mundo habitado por homens que voam, que se vestem de morcego, que não envelhecem, ou que vivem nas águas. E que o filme se encerre no momento em que o temor é finalmente iluminado por um faísca de esperança me parece deixar bem claro que houve uma certa coerência em toda as opções visuais e dramáticas fúnebres, cinzentas e feias que saíram da mente de um cineasta quase sempre não muito talentoso. Batman vs Superman é um filme com problemas de encenação, de roteiro (a reviravolta que une rapidamente os dois heróis é, no mínimo, picareta), de edição (o filme precisaria de pelo menos 3 horas de duração) e de concepção visual, mas é muito bom.

Por sua vez, Capitão América: Guerra Civil, de Joe e Anthony Russo, tem pelo menos três atores-personagens excelentes: Robert Downey Jr.- todos os únicos filmes bons que eu vi da Marvel têm ele no elenco, e eu começo a acreditar que isso não é mera coincidência; Tom Holland – o Homem-Aranha/Peter Parker dele é realmente impagável; e por fim, apesar das poucas cenas, um Paul Rudd que faz um Homem-Formiga bem divertido (é fato que a sequência de confronto entre os heróis no aeroporto é sensacional e muito do jeitão fantástico dela se deve ao Homem-Formiga). Há também no filme um uso interessante da paleta de cores para enfatizar seu aspecto fantástico, e um roteiro bem mais “certinho”. Enfim, não tem como não gostar de um filme desses, mas o fato é que é ainda assim eu o considero “derrotado” no confronto com Batman vs Superman. O filme da Marvel é leve e vai embora assim que saímos do cinema. O filme da DC é pesado e literalmente marca a ferro quente.

Publicado em Cinema, Uncategorized | Marcado com , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Creed, de Ryan Coogler

Há um bocado de pequenas maravilhas  em Creed. A primeira delas, mais geral, diz respeito à sua ideia mesma e ao modo como ela é incorporada no enredo: trata-se da tentativa de Ryan Coogler, um jovem cineasta, de revisitar o legado de uma famosa série de filmes, colocando a sua narrativa sob o ponto de vista de um protagonista que, na história, também tem de viver sob o peso de um legado.

Antes da grande luta, o jovem Adonis recebe o calção do pai. No calção estão bordados, de um lado, o nome que representa o legado (Creed) e, do outro lado, o nome que ele havia escolhido anteriormente para viver sua carreira sem o peso paterno (Johnson). A graça disso tudo é que Creed, assim como o novo Star Wars, revisita elementos narrativos e estéticos de filmes do passado de maneira a agradar os fãs; mas diferentemente do novo Star Wars, é também um filme marcado pela criatividade própria de seu realizador.

Ryan Coogler revelou nesse filme ser membro de uma escola cujos integrantes estão quase todos eles mortos ou, na melhor das hipóteses, justificados pela máscara da ironia. Coogler é, simplesmente, um criador inteligente do bom e velho melodrama. A sequência em que Adonis treina no hospital em que Rocky está internado é uma das coisas mais fantásticas saídas da mente de uma cineasta nos últimos anos. Pouca gente consegue fazer rir e chorar ao mesmo tempo em cenas que estão lá não apenas para cumprir um propósito de pausa emocional, mas que fazem também a narrativa ir para frente, revelando um pouco mais as características de seus personagens. É admirável também o senso de precisão de Coogler. Os temas musicais famosos que Bill Conti compôs para o primeiro filme Rocky são tão pouco utilizados que mesmo em cenas onde a nossa memória cinéfila suplica fortemente pelas execuções mais empolgantes da trilha, Coogler opta por utilizá-la com parcimônia. Sem dúvida, seria mais “fácil” usar bastante a música de Conti, mas o fato é que mesmo o legado da trilha sonora é também neste filme não apenas um peso do qual que se deve ceder sempre, mas uma influência a ser retrabalhada para o bem maior do melodrama.

Por fim, é preciso destacar as performances de Michael B. Jordan e de Sylvester Stallone, que emprestam grande vitalidade para os seus personagens. No terceiro ato, Rocky se torna praticamente um co-protagonista e é impossível, mesmo para o espectador mais frio, sair ileso da história de amizade que é construída entre o velho e o jovem. Enquanto o penúltimo filme da série, Rocky Balboa, dirigido por Stallone, é uma beleza introvertida, na qual a comunidade ao redor e a cidade refletem a solidão e a chegada da velhice do personagem, este filme Creed, com seu jovem protagonista, é baseado em encontros: Adonis vai conhecendo a cidade e as pessoas e, em contrapartida, o velho Rocky conhece uma figura filial com quem se preocupar e, dessa maneira, ter um sentido para a vida. Os encontros e atritos humanos no filme talvez sejam sua grande força. O filme diz respeito a pessoas de carne e osso, cada uma com seus problemas, tentando lutar pela vida, ora em colaboração, ora em solidão.  Porém, sob a aparência de um melodrama ordinário, este filminho que pouca gente poderia dar o merecido crédito, por se tratar, além do mais, de uma sétima visita ao universo do personagem Rocky, é na verdade uma obra intensa, pulsante, viva e, sem exagero algum, disparadamente o melhor filme de 2015.

Publicado em Cinema, Uncategorized | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Os oito odiados, de Quentin Tarantino

Até o momento em que Quentin Tarantino sustenta o mistério dos seus personagens, encobrindo ao máximo possível as motivações de cada um, Os oito odiados é o melhor filme do cineasta. Porém, justamente a partir das cenas que culminam na primeira morte de um dos “odiados”, as coisas se desenvolvem de uma tal maneira que, no fim das contas, pelo menos essa foi a minha impressão, resultam no pior filme de Quentin Tarantino. O mistério que Tarantino controlava tão bem nos diálogos, nos efeitos sonoros da incômoda nevasca, na trilha original misteriosa e divertida de Ennio Morricone e no enclausuramento cênico dos personagens, se desvanece quando o cineasta, ao invés de resolver os  mistérios, as ambiguidades e as sugestões por esforços narrativos que  poderiam muito bem tornar os personagens mais instigantes, decide simplesmente por aplainar todas eles num jogo de brutalidade. Os oito odiados deixam de ser oito personagens para se tornarem uma exagerada e aborrecida imagem de uma única ultra-violência, que explode até mesmo as colunas da coesão narrativa, algo que nunca havia sido problema para um roteirista talentoso como Tarantino. Os oito odiados parece ser o filme de Tarantino que mais cita o próprio Tarantino, especificamente na ideia de um clímax à Cães de aluguel; porém, a obsessão do cineasta em repetir isso não fez nada bem para a sua recente obra. Pena. Na minha opinião, Os oito odiados é o primeiro filme ruim de Quentin Tarantino.

Publicado em Cinema | Marcado com , | Deixe um comentário

Star Wars: Episódio VII – O despertar da força, de J.J. Abrams

Essa é uma crítica sem spoilers. Aliás, não menciono nada do enredo.

Eu devo confessar que me emocionei com o novo Star Wars. Dei algumas risadas, torci para os heróis, lamentei uma tragédia, e senti um aperto crescente no coração na medida em que  a mocinha, lá naquela ilha no meio do nada, se aproxima de… (quem viu, sabe o quê).

Enfim, se o cinema for apenas um entretenimento, pouca coisa é tão divertida quanto isso. Porém não há necessidade alguma, de minha parte, de retomar o velho e um tanto frívolo debate que antagoniza diversão e arte. De fato, para se analisar serenamente o novo Star Wars, é preciso suspender de início qualquer adesão a teses sobre o que o cinema deve ser para somente em seguida fazer algum juízo.

Para quem acredita que o cinema é a arte do cineasta, em que este deve se valer inventivamente das potências da direção cinematográfica para construir sua visão própria do mundo e dos homens, o filme de J.J. Abrams pode incomodar. Abrams é muito mais um reciclador do que um criador. Porém, se levarmos em conta que umas das razões de ser de Star Wars é a causa final do lucro bilionário em todo o planeta, não faria sentido esperar um trabalho de mise-en-scène que não fosse já longamente testado e aprovado pelas emoções do grande público ao longo de mais de cem anos de história do cinema. Nesse sentido, Abrams é bastante talentoso. Além do mais, é preciso enfatizar que nem sempre um cinema de autor é sinônimo de bom cinema. Há filmes péssimos em que encontramos uma visão própria do mundo e dos homens a partir de elementos cinematográficos peculiares a um cineasta.

Então, os méritos do novo Star Wars estão todos eles concentrados no modo bem sucedido com que J.J. Abrams organiza elementos reconhecíveis pelas zonas de conforto da audiência. Se o primeiro Star Wars operava assim em 1977 a partir da reconstrução de elementos não pertencentes ao seu próprio universo, o filme de Abrams, quase quarenta anos depois, o faz a partir dos elementos do próprio universo criado por George Lucas, especialmente daqueles da trilogia de 1977-1983.

Na virada dos anos 1960 para 1970, naquela primeira geração que fazia filmes após ter estudado cinema nas faculdades, ou pelo menos de maneira auto-didata, e aqui podemos citar, entre outros, Peter Bogdanovich, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, William Friedkin, John Millius e Martin Scorsese, havia em todos os casos, a despeito de como cada um pode ser considerado mais ou menos um autor, um interesse enorme pela “reciclagem” ou pelo menos por um “referencialismo” ao cinema do passado. George Lucas e Steven Spielberg são da mesma geração e não se diferem em nada de seus pares em relação à atitude de que o cinema também deve ser construído a partir de referências sólidas. Porém, se Lucas e Spielberg foram, disparadamente, os cineastas mais bem sucedidos daquela geração em termos de aprovação do grande público, me parece ser mais do que uma coincidência o fato de que eles foram os mais interessados em “reciclar” ou “fazer referência” aos elementos cinematográficos que se sintonizam com os desejos do espectador médio de cinema.

Na trilogia de 1977-1983, especialmente no primeiro episódio, Lucas reciclava filmes de samurai, de aventura e de ficção científica, a partir de uma consciente ideia do que uma jornada mitológica deve ser.  Porém, na trilogia de 1999-2005, ele parece ter abandonado o propósito da “reciclagem”, com um interesse maior pelos desdobramentos políticos e psicológicos de sua mitologia.

O fato é que George Lucas é muito mais um visionário que contribuiu decisivamente para o avanço do uso da tecnologia no cinema do que um cineasta por vocação. Historicamente abstraindo, e sem qualquer juízo estético em relação a isso, penso que a Industrial Light & Magic de George Lucas foi muito mais importante para o cinema do que os seus próprios filmes. Me parece que a mente de Lucas encontra o seu lugar bem mais no mundo da criação de efeitos especiais do que no mundo da narrativa cinematográfica. É curioso observar que enquanto na trilogia de 1977-1983, Lucas contratou outros diretores e roteiristas para conduzirem “O império contra-ataca” e “O retorno do jedi” a partir de suas ideias gerais; na trilogia de 1999-2005 ele assina sozinho o roteiro e a direção. Inclusive, abrindo parênteses, penso que o dedo da roteirista Leigh Brackett, escritora de ficção científica e que trabalhou nas histórias de alguns dos melhores filmes de Howard Hawks, seja um dos motivos da preferência mundial por “O império contra-ataca”.

J.J. Abrams é um melhor contador de histórias do que Lucas, embora, ironicamente “recrie” o mestre para superá-lo. Por isso, me parece sintomático que agora, na ocasião do lançamento do novo Star Wars, o filme de Abrams esteja sendo considerado pela maioria dos entusiastas da série como muito melhor do aqueles da trilogia de 1999-2005 e praticamente equiparado àqueles da época onde falávamos, nas sessões da tarde aqui no Brasil, em Guerra nas Estrelas.

Mas eis que chegamos agora a uma outra ironia. Conforme afirmei anteriormente, Lucas e sua geração tinham como interesse reciclar e renovar suas referências cinematográficas. Abrams, por sua vez, trabalha com reciclagem da reciclagem. Vale lembrar que em 2011, ele já havia reciclado Spielberg no filme “Super 8”. Sinceramente, acho que Abrams seja realmente talentoso como artesão. O seu Star Wars é um filme que, além de emocionar, nos faz, enquanto espectadores, viver o cinema como uma festa. E, como ocorre com todos os bons filmes, saímos da sessão conversando animadamente sobre o que vimos e ficamos, durante alguns dias, pensando sobre isso tudo. Porém, saímos de Star Wars falando sobre Star Wars e tudo o que circunda esse universo específico e não sobre a vida, os homens e a arte do cinema, como é o caso nos bons filmes autorais.

Por tudo isso, em parte eu me alinho com aqueles incontáveis críticos que festejam o filme de Abrams e em parte me desalinho, expressando aqui uma preocupação crítica que não pode ser esquecida: o cinema se enriquece quando é construído por elementos mais “autorais” do que “reciclados”.

Publicado em Cinema | Marcado com , , , | 2 Comentários