A originalidade de um gênero antiquado

Artigo de minha autoria publicado no Jornal O Popular (22/03/2012) para divulgação de Mostra realizada no Cine UFG

Há algumas décadas, os filmes de faroeste fascinavam o grande público como sendo a forma mais habitual de “filme de ação”. Hoje, parece se tratar de um gênero antiquado. Porém, o que é antigo pode revelar algo de original, porque é fato que algumas coisas muito interessantes começaram, ou tomaram “forma”, naqueles filmes americanos aos quais o Cine UFG está dedicando um ciclo especial.

Por suas próprias características temáticas e de produção (exteriores em grandiosas paisagens naturais e interiores visivelmente artificiais em estúdios), os faroestes do passado lidavam de forma primordial com dois princípios cinematográficos: a composição e a encenação. Se, hoje, o padrão do filme de ação é o personagem Jason Bourne, que a câmera tremida não consegue mais situá-lo no tempo e no espaço, antigamente, quando as aventuras eram mais “originais”, a composição cinematográfica e a encenação eram mais objetivas, serenas e plasticamente mais belas.

É quase unanimidade entre os críticos que os nomes máximos do faroeste americano foram John Ford e Howard Hawks. Qualquer cena de Ford tinha tempo e espaço suficientes para recolher em si as paisagens naturais e o contraste delas com o homem e suas imposições ao mundo. Na cena mais famosa de Paixão dos Fortes, Henry Fonda se põe a descansar no alpendre, sentado numa cadeira de balanço, equilibrando sua perna numa coluna de madeira e observando a paisagem e os homens.

É aí que o próprio cinema se volta para a sua vocação plástica de contemplação do mundo e dos homens. Em Howard Hawks, que colocava a sua câmera “na altura dos homens”, a encenação era de tal forma aprimorada que, em seus filmes mais tardios, como Onde Começa o Inferno, existe uma espécie de consciência escondida de que tudo aquilo é um filme. Nos filmes daqueles dois mestres, as formas da arte cinematográfica foram de tal modo desbravadas que podemos imaginá-los, com a facilidade da analogia, como os próprios caubóis que John Wayne representava nos filmes de ambos.

Porém, aqueles “durões de direita”, como são tipificados vários dos cineastas americanos daquele período, eram geralmente trabalhadores comuns, que encaravam o cinema não como possibilidade de expressão artística, mas como mero ofício. Muitos começaram as carreiras como assistentes de montagem, atores figurantes e eletricistas de estúdios.

Aprenderam a fazer cinema observando. Dessa observação, aprimoraram e criaram suas próprias formas. Quando percebemos, de fato, qualidade estética nos grandes faroestes, o que podemos dizer é que esse acontecimento da arte vem de uma certa humildade contemplativa. No primeiro século do cinema, aqueles diretores precisaram começar alguma coisa, e quando as câmeras foram colocadas em frente a um cânion, ou a um xerife barrigudo, o que mais vem à tona é a força da observação. Hoje, boa parte dos cineastas, talvez intoxicados pelo excesso de imagens com que tiveram contato desde que nasceram, já não tem mais essa capacidade de observação.

A partir dessa pretensão às vezes heroica de observação, pode-se acusar o gênero de pretensões mitológicas, ou ainda de ser complacente com a vitória do homem branco no conflito bélico com os índios, mas é na potencialidade “antiquada” do gênero que descobrimos a sua originalidade. Na contemplação lúcida das figuras violentas que construíram a nação americana, revela-se o inevitável derramamento de sangue que erige as civilizações.

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