Um filme americano por excelência

Crítica de minha autoria publicada no Jornal O Popular (30/01/2012)

Em dois momentos do filme J. Edgar, em cartaz na mostra O Amor, a Morte e as Paixões, o personagem-título, diretor do FBI durante décadas, observa, da sacada do seu escritório, a multidão às margens da Casa Branca durante eventos históricos. Na forma como o cineasta Clint East- wood executa as cenas, o povo está em outra direção, sempre indiferente ao olhar de J. Edgar. De fato, J. Edgar é o tipo mais radical do homem americano: o indivíduo de feitos extraordinários, fundador da nação, mas afastado da comunidade. A cultura individualista cria progressos, mas condena seus heróis à solidão. É muito mais fácil inventar geniosos artefatos, ou capturar bandidos perigosos quando não se tem vínculos familiares e afetivos muito sólidos.

A temática do indivíduo solitário, este homem americano arquetípico, persiste em toda a filmografia de Clint Eastwood. Muitas vezes, seus personagens são fotografados parcialmente em sombras, de modo que a ausência de luz sinaliza para uma inaptidão dos solitários diante das relações sociais. Nesse sentido, os próprios personagens interpretados por Eastwood, seja um fotógrafo da National Geographic, um assaltante de banco, um jornalista decadente, um pistoleiro de aluguel, um veterano de guerra, ou um detetive se tornam semelhantes pela ausência de relações afetivas duradouras em torno deles.

No cinema americano por excelência de Clint Eastwood, as maiores histórias afetivas ocorrem entre dois comparsas, e não no núcleo entre homem e mulher que cria as unidades sociais duradouras. Apesar da suposta homossexualidade reprimida de Hoover e seu vice-diretor, amigos inseparáveis durante muitos anos, esta possibilidade importa menos ao filme do que narrar a trajetória de um solitário, que só conseguia se relacionar com um igual de profissão e de convicções. As cenas finais do filme, que preparam Hoover para a morte, são de uma calmaria melodramática belíssima, dignas da melhor tradição do cinema americano “clássico”, que Eastwood honra de forma autoral, sem maneirismos e sem fazer concessões ao mero pastiche.

Que acusem o cineasta de conservador, mas é interessantíssimo que seu filme seja, de uma certa forma, respeitoso com o personagem que acreditava ter livrado os Estados Unidos da ameaça comunista. Eastwood filma, simplesmente, um homem. Não há qualquer tipo de ironia em relação às crenças de Hoover, por mais que elas se revelassem equivocadas ou nocivas. O diretor do FBI, interpretado por um Leonardo DiCaprio com gestos econômicos e certeiros, acreditava nos ideais que fundaram os Estados Unidos. Em sua vida, ele foi um fiel sentinela dessa tradição. Hoover foi casado com todo o passado ideológico americano. Era incapaz de criar uma família, porque passou a vida apegado à mãe. Era incapaz de participar das festas cívicas, porque passava tempo demais criando mecanismos para fazer a história progredir. Envoltos em sombras irremediáveis, os solitários como Hoover conseguem, somente, ser heróis.

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