O cavaleiro das trevas ressurge, de Christopher Nolan

Publicado no Guia de Orientação Católica para Cinéfilos

O movimento do herói

O Cavaleiro das Trevas Ressurge, em cartaz nos cinemas, encerra a trilogia do cineasta Christopher Nolan sobre Batman, super-herói criado pelos quadrinistas Bob Kane e Bill Finger em 1939. As histórias, que se repetem há mais de 70 anos em diversas mídias, narram as peripécias do bilionário Bruce Wayne, que se fantasia de morcego para combater o mal na fictícia Gotham City, povoada por criminosos igualmente fantasiados, como o Coringa e a Mulher-Gato. Entre os poucos que sabem da identidade heroica de Bruce Wayne estão o seu jovem tutelado Dick Grayson, que também se fantasia de “Robin” para auxiliá-lo nas aventuras, e o fiel mordomo Alfred. É um entretenimento bem razoável, não apenas pela movimentação das aventuras, mas pelas possíveis colorações simbólicas das relações entre os personagens.

Nesse universo fantástico, e um tanto comovente pela ausência de elementos explicitamente sobrenaturais, podem ser desenvolvidas relações humanas autênticas entre os personagens. Na trilogia de Nolan, muitos críticos têm observado significados políticos sobre o mundo após o 11 de setembro. Os filmes do Batman ficaram, supostamente, mais realistas. Tudo o que era pitoresco hoje é justificado com dados cientificamente plausíveis. A fantasia do morcego surge por causa de um medo que o personagem adquiriu na infância e os acessórios do super-herói, como o bat-móvel e o cinto de utilidades, tornaram-se produtos da indústria militar. O novo Batman surge para os espectadores jornalisticamente acostumados com imagens do medo e da guerra.

O diagnóstico realista dos críticos está correto, porém, há um dado cinematográfico na trilogia de Nolan, especialmente nos dois últimos filmes, que merece ser considerado. O Cavaleiro das Trevas Ressurge, até mais do que os anteriores, é um exemplo singular de filme sobre o “movimento”.

Observamos sem muita dificuldade que os filmes de ação e fantasia estão cada vez mais movimentados. A própria câmera costumar participar dessa movimentação intensa dos filmes e, não raro, os espectadores saem entontecidos das sessões. Desse modo, a construção das cenas sugere a arbitrariedade mesma como força-motora das coisas. Tudo é indeterminado. Tudo flui. E, assim, os filmes refletem como o mundo contemporâneo se percebe. Porém, é bastante antigo afirmar a indeterminação ou o devir como princípios explicativos. Alguns filósofos pré-socráticos já cogitavam seriamente essas possibilidades.

No filme de 2008, O Cavaleiro das Trevas, o vilão Coringa, na performance antológica de Heath Ledger, é a personificação radical da arbitrariedade e do desenfreado. Ele se disfarça de policial, de enfermeira e de mafioso. Aparece sempre em ação, sendo assim tudo aquilo que não repousa e que não se contempla. Personagem de memória incerta e contraditória, esse diabo inquieto faz questão de se parecer com a loucura de um mundo esquecido de suas origens morais.

Os homens do mundo do Coringa movem-se pela indeterminação e assim os últimos filmes do Batman correm aos nossos olhos incessantemente, de tal modo que o próprio herói é repetidas vezes apresentado em movimento. Fugindo dos carros de polícia, Batman em sua moto veloz parece ser uma das imagens favoritas de Nolan.

Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, são dramas grandiosos os momentos em que os herói são forçados a usar uma bengala, estar numa cadeia, ou ainda, experimentar a impotência diante de uma ponte interditada. Porém, a representação de Nolan, diferente da maioria dos filmes de ação produzidos hoje em dia, opta pela câmera consciente das cenas. A câmera movimenta-se bastante, mas nunca de forma aleatória. O diretor reconhece o “movimento”, mas a ação irrequieta, antes de ser o fundamento do mundo, é um mal que deve ser enfrentado.

Nesta clássica luta do bem contra o mal, o personagem mais resistente ao mundo corrupto não é Bruce Wayne/Batman, o Cavaleiro das Trevas. Na verdade, o policial John Blake, que surge apenas no terceiro filme, é o herói que melhor testemunha as regras de movimento, mudança e corrupção daquele mundo. Ele sabe qual é a identidade secreta de Batman. Ao fim, quando os perigos de destruição de Gotham City são derrotados, consuma-se a movimentação dos três filmes sobre o universo do Batman.

É como se o mundo do pré-socrático Heráclito, que dizia que tudo flui, fosse novamente corrigido pela observação atenciosa de Aristóteles sobre o movimento. Uma potência torna-se ato e, assim, um novo herói desponta na nossa imaginação. Eis a velha lição filosófica rememorada neste bom filme sobre detetives. Como dizia o escritor inglês G.K. Chesterton, “o romance da atividade policial mantém o sentido de que a própria civilização é a mais romântica das rebeliões”.

Recomendação etária: 14 anos, aproximadamente
O filme contém cenas de violência (agressão física e assassinato).

Recomendo que se o filme for assistido em família, com filhos adolescentes, que sejam debatidos alguns pontos mencionados neste artigo – o principal deles, certamente, refere-se ao herói mais ideal da trama, o policial John Blake. Bruce Wayne/Batman apresenta virtudes como a disposição ao sacrifício, mas trata-se de um personagem com algumas atitudes morais que devem ser refletidas como, por exemplo, naquela cena “romântica” com Miranda Tate. É bastante sugestivo que aqueles personagens cederam ao hedonismo de uma relação descompromissada. Outrora os heróis das fantasias costumavam ser celibatários por um grande sacrifício em prol do bem comum. Hoje, possivelmente como resposta ao cinismo de uma sociedade que relaciona o celibato ao homossexualismo reprimido, forçam aos protagonistas das fantasias heroicas comportamentos sexuais não condizentes às virtudes de um verdadeiro herói.

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