Blue Jasmine

Para certa gente, anualmente há um compromisso com o lançamento do novo Woody Allen. Desde o fim do século passado, quando os filmes dele demoravam até dois anos para chegar ao Brasil, tem sido o meu caso. Porém, a constância da minha frequência não acompanha sempre o gesto da adesão.  Num ano, eu acho muita graça de Meia-noite em Paris, no ano seguinte, eu me aborreço profundamente com Para Roma com amor. De qualquer forma, em relação ao cineasta que produziu aquela tríplice formidável de 83 (Zelig)/84 (Broadway Danny Rose)/85 (A rosa púrpura do Cairo), trinta anos de maus filmes ainda não significariam para mim motivo de desistência.

Hoje, a boa notícia é que talvez Blue Jasmine seja o melhor filme dramático de Woody Allen.

Num drama, transparece mais do que em qualquer outra gênero, a busca dos personagens pela felicidade. Allen é profundo demais para confundir este fim da humanidade com meras realizações mundanas, porém ele tende a reservar para os personagens, de modo que estes vivam sem desespero, uma conformação com as ilusões, ou com o pragmatismo da vida. Assim, não ter muita consciência da obscuridade do destino ou ter uma ilusão qualquer para se apegar parecem ser a melhor saída para a felicidade. Penso que estas soluções comprometem uma boa parte de seus filmes, por causa da  confusão conceitual da felicidade com coisas ilusórias ou funcionais. Se a felicidade não é isso, os personagens ainda estão em desespero e, dramaticamente, os filmes cumprem aparentemente, e não realmente, aquilo que propõem.

Por sua vez, Blue Jasmine é uma tragédia que demonstra, a partir de uma caracterização precisamente confusa da personagem de Cate Blanchett, como a busca pela felicidade não pode se dar por honrarias, riquezas ou mesmo ainda por apegamentos meramente humanos. A confusão mental da personagem de Cate Blanchett reflete, em suma, o drama humano de confundir felicidade com coisas passageiras.

A felicidade, ou o sumo bem como um fim último a ser buscado, é conceitualmente íntima à verdade e à sabedoria. Definitivamente, isto não faz parte do programa dos filmes de Woody Allen, mas obras que acentuam, pelo menos, o que a felicidade não é podem ser apreciadas pelo público interessado.

Orientação: O filme é recomendado para o público adulto. Não há imagens constrangedoras ou diálogos muito chulos, mas há assuntos sensacionalistas (adultério, abuso de álcool e de medicamentos, assédio, crise familiar, esquizofrenia e sexo casual).

Cotação: * * * *

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