Gravidade

Numa época em que a indústria cinematográfica depende bastante de filmes em 3D para garantir a presença do público nas salas de exibição, Gravidade, de Alfonso Cuarón, é um feliz exemplar que concilia recursos visuais cativantes e apelativos, com elementos dramáticos que já tornaram a obra um clássico instantâneo para a comunidade dos cinéfilos.

Exageros ou jogadas de marketing à parte, como aquela declaração de James Cameron em que Gravidade desponta como o maior dos filmes ambientados no espaço, o fato é que este filme merece parte de sua boa reputação.

É basicamente um filme de luta pela sobrevivência, tridimensionalmente forjado para deixar os espectadores em suplício até o clímax triunfante. Sandra Bullock é uma astronauta que faz reparações no satélite Hubble, assistida pelo experiente personagem de George Clooney. Num dado momento, eles recebem o comunicado de que a missão deve ser abortada devido à chegada iminente de lixo espacial. Porém, uma vez que os destroços viajam em grande velocidade, o ônibus espacial daqueles astronautas será gravemente afetado. Após os impactos, eles terão de confrontar suas inteligências humanas com o determinismo das máquinas, o que torna a premissa do filme semelhante à de vários clássicos da ficção científica.

Como o filme é ambientado na órbita da Terra, a própria aceleração da gravidade demanda construções de cenas que, potencializadas pela terceira dimensão, atraem o olhar do público pela plasticidade e pelas possibilidades da decupagem. A utilização do plano sequência se dá de maneira espontânea, integrado ao perambular por vezes incerto dos personagens. Porém, no fim das contas, o filme procura exibir seu certificado de qualidade não pelos seus exibicionismos técnicos, mas dramáticos. As lágrimas de Sandra Bullock em gravidade zero, sua comunicação via rádio com um homem oriental que carrega um bebê, e seu renascer na terra são exibicionismos, mas não são necessariamente piegas. A relativa curta duração do filme (90 minutos para uma grande produção é um tempo incomum) não estende o filme para aberturas dramáticas que escapam desajeitadamente do núcleo da narrativa, como ocorre por exemplo num outro filme recente em 3D, com o mesmo tema da sobrevivência: As aventuras de Pi. Neste filme de Ang Lee, como em Gravidade, há um certo sentimento transcendente nas aventuras pitorescas vividas pelos protagonistas, que os forçam a uma mudança espiritual. Pi se declarava católico, hinduísta e muçulmano. A astronauta de Gravidade vê imagens de Cristo e de Buda, em estações espaciais da Rússia e da China, respectivamente. Porém, no filme mais sintético de Cuarón, a corrida pela sobrevivência ocupa uma posição dramática radicalmente central, de modo que as tentativas de simbolismos religiosos são rapidamente eclipsadas por um perigo ou por um triunfo de outra ordem. Ainda bem que não há tempo em Gravidade para a religiosidade brega de As aventuras de Pi. A grandiosidade do filme de Cuarón é de outra ordem.

Gravidade consegue se tornar um filme grande numa cena aparentemente menor, e talvez esta seja uma das fórmulas mais essenciais de um clássico. A melhor cena de Gravidade é um sonho da astronauta, em que ela recebe instruções de como proceder com a falta de combustível da cápsula espacial. O diálogo que, em seguida, se revelará imaginário, coloca a protagonista no limiar entre a obscuridade e a esperança. Neste momento, mais do que em qualquer outro, o filme causa empatia.

Orientação: O filme contém cenas de exposição de cadáveres. É recomendado para adolescentes e adultos, sem restrições.

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