Rota de fuga (título original: Escape plan)

O personagem de Sylvester Stallone em Rota de fuga não acredita que possa existir uma prisão ideal e absolutamente segura. Seu ofício é infiltrar-se em prisões supostamente ideais, como um aparente criminoso, encontrar maneiras de escapar e, em seguida, apresentar as falhas para as autoridades penitenciárias.

O primeiro ponto de virada da narrativa se dá quando ele é inserido numa dessas prisões de maneira desleal. O espectador deverá, então, compartilhar de sua tensão, afinal todos estamos abertos a uma possibilidade idealista. Se aquela prisão for mesmo essencialmente segura, aquele personagem não poderá recorrer ao seu expediente profissional para escapar. O embate do protagonista será, portanto, contra um sistema idealista, friamente compartimentalizado.

Essa premissa narrativa, por si só, garante uma aventura antagônica a um sem número de filmes contemporâneos, inventivos demais, mas em contrapartida aprisionantes para os seus heróis. Até mesmo os recentes sucessos de Stallone seguem essa tendência. Tomemos, por exemplo, qualquer um dos filmes “Os mercenários”. Há nessas obras diversas exposições instalativas: blocos narrativos do Lundgren, do Rourke, do Willis, do Norris, do Van Damme, e de tantos outros, cada qual cumprindo seu papel narrativo, fechado em si mesmo. Com inventividades diferentes, esse esquema é perceptível também nas crenças narrativas de Quentin Tarantino, Wes Anderson, Tim Burton, Pedro Almodóvar, Martin Scorsese, irmãos Coen e toda uma raça contemporânea de cineastas autorais, que podemos curtir as cores, as formas e os quadros típicos nos nossos compartimentos organizados das redes sociais.

Rota de fuga é anti-hype não por idealismo, mas por acidente. O destino do protagonista não será definido por uma conformação idealista, como ocorre, por exemplo, em Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, em que o plano de fuga do garoto lhe garantirá, em última instância, uma vida igual à de seu novo pai. Não poderia ser de outra forma, neste filme de autor, que dispõe seus personagens de maneira muito criativa em cenários coloridos e organizados, em planos estáticos e em diálogos engraçados e solipsistas. Mas Rota de fuga não almeja nenhuma genialidade. O destino de fuga do personagem de Stallone reflete, isto sim, que a jornada do homem não é um escape para  instalações ideais, por mais brilhantes que estas sejam em essência, mas para encontros que lhe fogem ao controle absoluto.

Além de ser um filme de prisão, Rota de fuga é sobre o encontro da tristeza brutamontes de Stallone com a loucura brutamontes de Schwarzenegger. Explode, por ser boçal, muito humor dessa clássica química entre a introversão e a extroversão. Esses atores ainda estão no auge. A dupla convoca a mise en scène para eles mesmos, de um modo imune a qualquer tentativa de aprisioná-los num esquema de outra criatividade.

Nota: Defensável também é o ator Jim Caviezel, um dos mais completos da atualidade, que vive um vilão com o sugestivo nome de Hobbes. Escrevo sobre esse ator na postagem sobre a série Person of interest.

Orientação: Rota de fuga contém cenas de violência, não muito abusivas, apesar de uma cena desnecessariamente sarcástica ao fim. Do ponto de vista temático, o filme retrata como algo maligno a privatização do sistema de segurança pública. É recomendado principalmente para os fãs da dupla. Até mesmo as mulheres podem gostar.

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