To the wonder

Talvez, a questão mais enigmática sobre o cinema de Terrence Malick seja como seus filmes, simplesmente, conseguem distribuição no mercado internacional. Além disso, é igualmente misterioso que, nos últimos anos, alguns dos atores mais influentes de Hollywood, como Brad Pitt, Ben Affleck e Christian Bale estivessem envolvidos nas produções herméticas de Malick, compreendidas somente por um público, não necessariamente mais inteligente, mas minimamente familiarizado com questões metafísicas.

O seu mais novo filme (To the wonder – Amor pleno, no Brasil) é ainda mais radical.

Em todos os filmes anteriores de Malick, ainda havia uma perspicácia antropológica, capaz de cativar certo público de produções “alternativas” interessado por olhares profundos sobre a condição humana em contextos sociais bem específicos: a depressão americana (Cinzas do paraíso), a II Guerra Mundial (Além da linha vermelha) ou a colonização dos Estados Unidos (O Novo mundo). Até mesmo em sua obra mais hermética, Árvore da Vida, havia um retrato agudo sobre o comportamento dos homens,  numa associação dessa condição com o próprio cosmos criado por Deus.

Porém, em To the wonder, a típica eloquência antropológica é minimizada por uma introversão religiosa radical. O único público capaz de compreender esse filme já não é mais aquele curioso por narrativas que escapam da linearidade e da objetividade do cinema narrativo, ou por quem gosta de investigações cujo objeto é o homem natural, mas uma meia dúzia de gente que consegue gostar, ao mesmo tempo, de cinema e metafísica católica. Não é preciso tanta inteligência para considerar, como eu, To the wonder uma obra-prima, mas o fato é que se o indivíduo não for pelo menos alguém que possua uma curiosidade ardente e vital sobre definições católicas sobre o amor, a graça e a redenção, a grandeza da obra de Malick passará quase toda desapercebida.

Mas isso não diria mais respeito às inclinações subjetivas do público interessado do que ao próprio conteúdo objetivo do filme?

O problema é que a orientação dos filmes de Malick sempre foi no sentido da interiorização do mundo empreendida pelo sujeito, e não para os dados do mundo enquanto objetos exteriores. Os filmes de Malick são subjetivos e, para compreendê-los, o espectador não deve dirigir-se à objetividade exterior, mas para o seu próprio repertório subjetivo dos dados em questão. Ou seja, se o espectador não tiver um razoável repertório introvertido sobre os temas sugeridos por Malick, o resultado será aquela prevista revolta do público, que esperava por um melodrama objetivo e direto ao ponto, estrelado por um ator conhecido. Desse modo, o radicalismo de To the wonder justifica-se por uma exigência cognitiva difícil: o espectador deve ser familiarizado com a linguagem cinematográfica não objetiva e, mais complicado ainda, mapear suas próprias definições sobre temas da metafísica católica e relacioná-las com o filme. Como eu disse anteriormente, não se trata de “inteligência”, mas de algo que diz respeito a uma familiaridade, ou a um interesse vital.

É uma exigência profunda e apaixonante para quem lhe é familiar e deve ser por isso que exista aquela meia dúzia de gente que, especialmente após os dois últimos lançamentos de Malick, não hesita em categorizá-los como filmes importantíssimos.

A despeito dessa genialidade percebida pelo público interessado, confesso que mesmo pertencente a ele, sinto falta de alguma objetividade. Assistindo a To the wonder, e naturalmente bastante envolvido com aquilo tudo, eu sentia falta de um simples jogo de campo e contracampo, onde os personagens pudessem se olhar e falar diretamente um ao outro. Claro que isso romperia com o caráter introvertido do filme, elaborado por um cineasta bastante consciente das possibilidades cinematográficas, e em última instância tal recurso poderia parecer uma displicência ou uma falha de coesão.

De qualquer forma, me parece que a insistente introversão de Malick ainda é sinal de um catolicismo teórico, aceito apenas interiormente enquanto um envolvente sistema especulativo. Há dois anos, escrevi um texto sobre Árvore da vida, que tirei de circulação por conter algumas generalizações imperfeitas, principalmente em certos trechos dos parágrafos abaixo. Porém, aponto para uma diferença entre Malick e outros cineastas católicos, que me parece ainda ressoar em To the wonder.

Malick, que já foi professor de filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT), faz um filme filosoficamente apaixonado pela descoberta do mundo – não como uma ideia criada pelo nosso subjetivismo, mas como um espetáculo de uma alteridade que não sinaliza o cogito cartesiano (“penso, logo existo”) como primeiro fundamento filosófico.

Cinematograficamente, é uma opção delicada, sendo esta a única e pequena ressalva que, particularmente, faço ao filme. Por vezes, a paixão filosófica de Malick pelo mundo criado sobrecarrega o filme de autoimportância e, quem sabe, de um sentimentalismo que um olhar mais cínico poderia comparar com os produtos banais da autoajuda. Eu discordo de que exista essa banalidade em “A árvore da vida”, mas o risco é iminente. Por outro lado, filmes de diretores como John Ford, Roberto Rossellini, Eric Rohmer e Manoel de Oliveira demonstram com serenidade a beleza do mundo sem que insistam demasiadamente no sentimentalismo religioso, algo mais próximo do realismo greco-medieval do que o filme de Malick. Na dramaturgia daqueles cineastas católicos, de obras profundamente faladas, os diálogos servem menos para contar uma história do que para ser o verbum que aponta para a realidade do mundo criado. Porém, no caso de Malick, a dramaturgia frontal dos atores é muitas vezes substituída pelo artifício não necessariamente realista das vozes em off, que variam entre preces e indagações.

De qualquer forma, a insistência filosófica de Malick pode se justificar pelo modo como o filme pede a participação do público. No caso de “A árvore da vida”, ter dúvidas sobre os significados do filme faz parte da mesma curiosidade filosófica que instiga as perguntas sobre o sentido da morte e do sofrimento.

Hoje, eu não falaria mais em termos de “sentimentalismo religioso” e nem colocaria Malick afastado da tradição filosófica da subjetividade (pelo contrário!). Naquela época, me faltava alguma bagagem fenomenológica.

De qualquer forma, o problema de Malick me parece justamente localizado numa contínua introversão que, mais cedo ou mais tarde, resulta numa aporia que não era necessariamente desejada – a dificuldade própria da fenomenologia, ao que me parece. Porém, chegar nessa aporia já me parece um ponto de maturidade e, nesse sentido, quando temos em conta que To the wonder assim se encerra, fico com aquela última imagem do filme, um acinzentado Monte Saint-Michel, gravada como uma esperança. Talvez, Malick não espere, como Husserl, chegar à idade de Matusalém, para chegar objetivamente ao fundamento de tudo: Deus.

Recomendação etária: Adultos. Contém cenas breves de sexo e nudez.

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