Magia ao luar, de Woody Allen, e considerações sobre a arte da comédia


Magia ao luar, o novo filme de Woody Allen, é muito bom. Se considerarmos os últimos grandes filmes do diretor, não é tão engraçado e imaginativo como Meia-Noite em Paris, e nem tão profundo do ponto de vista da construção de personagens como Blue Jasmine, mas talvez seja tão bom quanto, ou ainda melhor. Me parece ser um filme de maturidade, em que o ceticismo do diretor abre-se, sutilmente, para certos encantos da existência. Apesar do filme citar o Nietzsche (de manual, diga-se de passagem), e ser, de algum modo, pessimista a respeito da possibilidade de um mundo transcendente, trata-se, ao meu ver, do filme mais “chestertoniano” de Woody Allen. E, do ponto de vista cinematográfico, o diretor ainda é um dos poucos que domina a arte de contar uma história. Magia ao luar tem o charme narrativo da época de ouro das comédias americanas, em que os personagens e a trama são introduzidos em cenas e diálogos concisos, sem que isso implique, como ocorre hoje, em construções aleatórias, apressadas e que não dão tempo do espectador desfrutar a própria comédia.

Aliás, sobre o que é uma boa comédia, e como ela deve ser desfrutada, gostaria de apontar, brevemente, e sem a devida profundidade que o tema merece, algumas coisas.

Se os humoristas brasileiros que gostam de fazer piadas sobre religião compreendessem melhor a arte da comédia, eles se envergonhariam de tudo o que já fizeram. No filme de Woody Allen eu ria bastante das piadas que o protagonista fazia sobre a crença religiosa, não porque eu concordasse com aquilo, mas porque o próprio contexto cômico é tão bem estabelecido, que a graça se dá não porque eu quero debochar de alguém que eu tomo como estúpido (como é o caso do mau humorista, que age só pela cutucada ou provocação a alguém que ele julga intelectualmente ou moralmente inferior a si próprio), mas porque, o personagem, em si, é engraçado. O personagem é um cético radical, mas não é o ceticismo radical ou o seu objeto que são engraçados. Pessoas são engraçadas e não ideologias, filosofias ou religiões. Daí a pobreza do humor dos jovens brasileiros que trabalham com comédia. Devido ao fato deles não serem bons atores, bons escritores e bons diretores, sobra apenas a possibilidade da comédia como provocação, porcamente protegida por um direito à liberdade de expressão. Um bom comediante, por sua vez, não se contenta somente com a dita liberdade de expressão e com técnicas provocativas, como se a arte fosse um mero bullying. Antes, para que alguém produza boa arte, são necessários o talento (esse misterioso talento, muito possivelmente nato ou precocemente adquirido), trabalho duro, estudo e autocrítica incessante.

Uma das coisas mais engraçadas que eu já vi na vida são os primeiros minutos do filme Groundhog day (Feitiço do tempo), dirigido por Harold Ramis. E o que é propriamente muito engraçado? O personagem de Bill Murray conduzindo um telejornal. Só isso.

Recomendação etária: Adolescentes e adultos.

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