“Tudo é vaidade”, diz Debi & Lóide 2

Impressionar o público, para que as salas de cinema continuem a ser ocupadas e para que os programas de televisão continuem a manter bons índices de audiência é o que tem em comum, apesar de visões estratégicas diferentes, os criadores e os financiadores de filmes e séries. Enquanto os primeiros querem impressionar, porque desejam, além de dinheiro, um certo reconhecimento artístico ou fama, os produtores querem bancar coisas impressionantes para, principalmente, ter retorno financeiro, como é previsível e natural para qualquer investidor.

Porém, após um século de um aumento extraordinário de recursos e estímulos audiovisuais, não é nada fácil impressionar o público de hoje. Não bastam efeitos especiais impressionantes para atrair o público, é praticamente obrigatório que eles sejam exibidos em terceira dimensão. Não bastam cenas engraçadas num filme de comédia, é preciso que elas sejam agressivas. Essa mesma perspectiva sensacionalista é observada nas renomadas séries de TV. Por mais que elas abriguem alguns dos melhores talentos da dramaturgia, é necessário que as histórias contenham reviravoltas mirabolantes a cada temporada, de modo que a própria “qualidade artística” não é imune ao desejo dos realizadores de impressionar.

Mesmo os filmes dos circuitos alternativos ou dos realizadores aclamados pela crítica pretendem, de algum modo, impressionar muito. Neste ano, o filme que foi escolhido para ser o representante brasileiro entre os filmes do mundo inteiro que serão assistidos pela academia que concede os oscars, tem como protagonista um adolescente, ao mesmo tempo, cego e gay. Dramaticamente, a paixão de um garoto cego e gay impressiona mais do que se ele tivesse apenas um desses dois atributos.

Por outro lado, mesmo os grandes cineastas, que há décadas cativam o público fiel dos cinéfilos, às vezes tendem a exagerar os seus próprios cacoetes. Nesse sentido, Martin Scorsese parece ser o caso mais emblemático. O que dizer ainda dos cineastas que impressionam por apresentar uma série de referências ao próprio cinema? Dos cineastas franceses, que flertam com a Nouvelle Vague, aos criadores de blockbusters que homenageiam clássicos do cinema americano popular, numa nostalgia que, muitas vezes, se refere a obras ainda muito recentes assinala, por sua vez, para o fato de que o espectador também é impressionado por sua capacidade de dizer, sabiamente, a quem está do seu lado ou a si mesmo: “nesta cena, ela está homenageando o filme tal”.

Ou seja, há inúmeras formas artísticas, picaretas, politicamente corretas, visualmente deslumbrantes, aterrorizantes, cômicas e melodramáticas de “ganhar” o público que, além de já ter assistido a uma porção de coisas desde a tenra infância, é cada vez mais estimulado por vídeos, mensagens e ilustrações transmitidos nos smartphones. Se os filmes estão cada vez mais sensacionalistas, é porque os realizadores parecem não ter outra opção.

Este preâmbulo foi necessário para que eu começasse a justificar a tese deste texto que, curiosamente, pode impressionar o leitor também: Debi & Lóide 2, de Peter e Bob Farrelly, em cartaz nos cinemas, é um filme para ser aplaudido de pé.

Há 20 anos, os irmãos Farrelly começaram uma carreira cinematográfica na comédia cuja estratégia sensacionalista era descarada. Piadas visuais com referências a tudo o que pudesse ser expelido pelo corpo humano eram apresentadas com um radicalismo raro no cinema americano comercial.

Porém, diferentemente de outras comédias grosseiras que surgiram concomitantemente e ainda hoje atraem o público, os irmãos Farrelly sempre tiveram um senso dramático que, não raro, enriquecia as tramas. Muitos personagens dos irmãos Farrelly, apesar de suas falhas físicas, morais e psicológicas, costumam ser vinculados afetivamente a uma pequena comunidade e dispostos energicamente a gestos altruístas.

A combinação de humor agressivo com o melodrama ingênuo dos mocinhos insuspeitos é uma marca singular dos irmãos Farrelly e, a despeito dos sensacionalismos, filmes como Kingpin; Eu, eu mesmo e Irene; Ligado em você e Amor em jogo são simpáticos de uma tal maneira que é praticamente impossível o espectador não ser docemente cativado.

Se Debi & Lóide, o primeiro filme dos irmãos Farrelly, inaugurou essa tendência que se repetiu simpaticamente durante duas décadas nos filmes desses cineastas, a sua continuação segue um outro caminho. Claro que ainda é um filme com calor humano e piadas absurdas, mas desta vez esses elementos são fundamentados não pelo desejo de impressionar ou de causar “sensação”, mas por um posicionamento existencial que, finalmente, coloca os irmãos Farrelly no panteão que há muito tempo seus admiradores entre os cinéfilos ansiavam, a saber, aquele destinado aos gênios da comédia americana.

Em Debi & Lóide 2, os acontecimentos narrativos mais fundamentais se revelam, passo a passo, como pregações de peças. Nada do que é visto ou ouvido é digno de confiança e, desse modo, os irmãos Farrelly construíram um filme onde aquilo que é aparente deve ser colocado em “suspensão”. De uma maneira análoga a uma epoché filosófica, em que todas as credulidades aparentes e naturais devem ser colocadas em suspensão de juízo, para que se obtenham certezas evidentes daquilo que resta, Debi & Lóide 2 centrado em protagonistas minimamente inteligentes, coloca como vaidades tudo aquilo que não pode ser assentido por moleques de 11 anos de idade, que não apenas não entendem, como fazem questão de ignorar todas as coisas pronunciadas pelos sérios desse mundo. Dessa maneira, aquilo que resta em Debi & Lóide 2 é a evidência que diz o Eclesiastes: “vaidade das vaidades – tudo é vaidade”. Por sua vez, moralmente, o que resta é o zelo radical que se deve ter pelo outro, porque não há nada contingente mais importante do que o amor humano.

A vida, a morte, o tempo, a inteligência, o sexo, a astrofísica, um punhado de pó e os rins – tudo isso se torna piada, não fundamentalmente por causa do teor agressivo das cenas, ou porque os atores ou os personagens são engraçados, mas porque tudo é passageiro. Tudo passa, sem dúvida, mas isso não significa que as coisas contingentes são dignas de desdém. O filme não é niilista. A vaidade é engraçada e não desesperadora.

Assistir a Debi & Lóide 2 é participar de uma jornada tão radicalmente fundamentada na vaidade, da qual diz o Eclesiastes, que mesmo o grande talento cômico dos atores Jim Carrey e Jeff Daniels não se faz tão explícito. Há uma interação fantástica entre os atores, que contribui muito para a pregação de peça generalizada que é o filme, mas o fato é que mesmo que eles mereçam o Oscar, cada um, pelas genialidades performativas, o espectador não é impressionado pelas caretas impagáveis de Jim Carrey ou pela alienação de Jeff Daniels.

Debi & Lóide 2 não é impressionante ou sensacionalista. É um filme muito engraçado, feito sob medida para o público que quer simplesmente relaxar, mas trata-se de uma jornada cômica radical de outra maneira. Por fim, alguém poderia dizer que talvez o filme procure impressionar pela nostalgia, como acontece num mundo cinematográfico cada vez mais tomado por continuações, refilmagens e homenagens. Mas até mesmo desse risco o filme radical dos irmãos Farrelly se fez imune.

Trata-se, sim, de uma jornada nostálgica, mas de uma nostalgia metódica que conduz o espectador não para as suas memórias sobre outros filmes, mas para um certo resíduo, ao mesmo tempo personalíssimo e generalíssimo que todos carregamos, aquele de quando não éramos exatamente nem crianças ingênuas e nem adolescentes maliciosos, mas sim garotos capazes de debochar de qualquer vaidade desse mundo, quando tumultuávamos uma aula, uma apresentação pública ou uma reunião de família.

É isso o que fazem os protagonistas do filme dos irmãos Farrelly, numa das comédias mais geniais da história do cinema: Debi & Lóide 2.

Recomendação etária: Adultos. O filme contém diálogos chulos. Além do mais, em algumas cenas, as sugestões de atos sexuais são constrangedoras.

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