Breaking Bad, sensacional

Alerta: o texto contém algumas informações sobre o enredo que pode atrapalhar a fruição de quem ainda não assistiu à série.

Breaking Bad é sensacional. Podemos considerar de um ponto de vista negativo o quão a série é sensacional se quisermos criticar a quantidade enorme de conflitos extremos e coincidências constrangedoras presentes em todas as temporadas da série que, assim como se deu comigo, deixou dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo vidradas na saga trágica de Walter, Skyler, Jesse, Hank, Saul, Fring, Mike e tantos outros personagens profundamente bem bolados e, não raro, muito bem interpretados pelo elenco.

Breaking Bad é sensacionalista. Não duvidemos disso. A série criada por Vince Gilligan foi escrita por uma equipe talentosa de roteiristas para cativar ferozmente o público. É muito difícil não terminar de assisti-la sem um certo sentimento de perda. Gostaríamos de ver trinta temporadas daquilo!

Mas o fato é que Breaking Bad nos impacta, em suas reviravoltas atordoantes, porque mesmo esses excessos dramáticos, no fim das contas, concluem uma fascinante fábula moral.

A tomada aérea que encerra a série, onde a câmera se despede ascendente de Walter White, sinaliza para uma tese que foi rigorosamente apresentada durante todas as temporadas: há uma ordem moral que transcende qualquer tentativa humana de controle da realidade, de modo que quanto mais um homem busca controlar a tudo e a todos, mais esse tudo e mais esses todos se voltam contra ele, de modo que a tragédia passa a se tornar um dado tão cotidiano e previsível da vida quanto reformar o piso da casa, ou levar o filho para a escola.

De um ponto de vista da redenção, Breaking Bad me pareceu um pouco protestante. Minha imaginação católica adoraria que aqueles conflitos se encerrassem com perspectivas de redenção aqui na terra mesmo, sem que o mal fosse sempre motivo para danações temporais irremediáveis. Em resumo, gostaria que houvesse mais “arrependimento ” e “perdão” em Breaking Bad e menos “determinismo” e “punição”.  Em Breaking Bad, os personagens são condenados ao inferno aqui na terra de um modo bastante rigoroso, como se eles já fossem predestinados desde sempre à inevitabilidade das consequências trágicas de suas mancadas.

De qualquer maneira, se o esquematismo calvinista da série pode ser estranhamente rigoroso se o tomarmos como uma espécie de conclusão, ele não deixa de esconder algo de verdadeiro, se analisarmos não todas, mas uma de suas premissas desmembradas.  Uma premissa católica como: “todo ato imoral causa temporalmente consequências danosas para o sujeito e para a comunidade ao redor” engrena o motor moral de Breaking Bad.O protagonista Walter White se esforça para justificar suas imoralidades para si e para os demais não porque ele quer negá-las moralmente, mas porque assente o tempo todo com outra premissa bastante presente no sistema de engrenagem da série, a saber, a tese de que, num dado momento de nossa ação se tivermos de escolher necessariamente entre dois males, somos obrigados a optar pelo mal menor. Walter White sabe que produzir metanfetamina para vender não é algo moralmente neutro. Não se sabe se Walter White concordaria com uma opinião política libertária acerca da compra e da venda de narcóticos, mas ele jamais afirmou, para si e para os demais, tal justificativa.
O problema é mais complexo.

Nas minhas contas, em toda a série, Walter pode ser responsabilizado diretamente pela morte de cerca de 25 pessoas. Indiretamente, esse número ultrapassa uma centena, se considerarmos o episódio da queda do avião.

Porém, moralmente, as decisões mais fatalistas de Walter White, que posteriormente resultariam em uma série de mortes, podem ser resumidas em quatro momentos. Em cada um desses quatro momentos, Walter quis livremente produzir metanfetamina. As decisões livres mais gerais de Walter White não diziam respeito a matar ou não alguém, mas a produzir ou não a droga. Produzir ou não é o que resultaria, posteriormente, em decisões acerca de matar, mentir e trapacear.

O que torna, contudo, Walter White um personagem impressionante é que as suas quatro fatais decisões livres, por mais que discordemos delas, são de algum modo razoáveis. Eu não quero dizer com isso que elas foram resultados de um bom uso da razão, mas que todas foram resultados de cálculos morais, influenciados pela enorme pressão das circunstâncias.

Primeiramente, Walter quis produzir metanfetamina, porque ele assentiu com duas premissas morais legítimas. Se é dever de um homem prover a sua família e se é um mal deixá-la desamparada, uma vez que a sua morte é iminente e seus queridos (um filho portador de necessidades especiais e uma esposa gestante tardiamente) realmente precisam de cuidados, logo, por uma aplicação do princípio do mal menor, parece que é menos danoso produzir apenas um grande lote de metanfetamina para viciados desconhecidos que comprarão a droga de qualquer jeito, do que o risco de deixar a família desprotegida.  Walter agiu em assentimento, portanto, ao princípio moral de sustentação material da família e ao princípio do mal menor. Porém, o erro de Walter, e isso pode ser facilmente o erro de qualquer um, está no fato de que ele considerou o mal de um modo unívoco. Para Walter, a sua família ficar desprotegida aqui neste mundo é um mal, assim como é um mal produzir metanfetamina. Logo, diante da necessidade de escolher entre esses dois males, para Walter o mal menor era entrar no mundo do tráfico de drogas. Só que “abandonar” a família à providência, no caso de Walter, por mais que seja aparentemente um mal que pessoas amadas passem por apuros materiais, não seria um mal moral, como é produzir algo tão destrutivo como a metanfetamina, que leva pessoas desconhecidas ao caminho da morte. Na série, os viciados são retratados como pessoas em situação degradante de vida e Walter sabe disso.

A primeira decisão de Walter trouxe para ele consequências trágicas e após esses apuros e após umas centenas de milhares de dólares, sua decisão a partir dali, inicialmente, era não produzir mais a droga. Contudo, para que sua família não soubesse de sua contravenção, Walter precisou mentir e essas mentiras tornaram a sua vida doméstica insuportável. Sua esposa Skyler, inevitavelmente, descobriu o modo como o marido conseguiu uma grande soma de dinheiro e resolveu, então, pedir o divórcio. Porém, Walter estava obsessivamente disposto a manter o seu casamento e a sua vida modesta de professor secundarista. Nessas alturas, ele recusava sem hesitação uma proposta de milhões de dólares para continuar produzindo a droga. Skyler, portanto, ao perceber a teimosia de Walter em não deixar a casa, se utilizou de uma estratégia moralmente danosa para que o marido se separasse dela. Ela teve uma relação com o seu chefe e fez questão de revelar isso para Walter.

Assediado cada vez mais por um grande traficante local, Walter, sem estar com os pés fundamentados numa família, resolveu, então, produzir novamente a droga. A segunda decisão de Walter, ao meu ver, não seria tomada se a sua esposa resolvesse perdoá-lo, ou ainda se ela não tivesse cometido adultério. Mais uma vez, se torna bastante claro na série como um ato moralmente danoso afeta todo um grupo de pessoas.

Walter se envolveu a partir dali com um sistema fortemente racionalizado de produção de drogas, de modo que, como todos os joguetes de um grande negócio ilegal, a própria sobrevivência passa a depender de uma relação de inteira subserviência ao comandante. Houve um momento, portanto, em que a terceira escolha de Walter se deu por pura necessidade de sobrevivência. Como ele era um químico genial e ninguém mais sabia como fabricar um produto com um nível de pureza tão alto quanto o que ele conseguia, se Walter deixasse de produzir, ele seria assassinado.

Uma decisão moral é justificada por vários motivos. Por que Walter produz metanfetamina? Em última instância, a resposta é: porque ele livremente quer. Em sua quarta decisão sobre produzir a droga, o sim de Walter, mais do que nas vezes anteriores, parece já inteiramente determinado pelo seu simples querer. No último episódio da série, ele diz a Skyler que produzia metanfetamina por ele, e não por sua família. A fala de Walter não parece inteiramente honesta, porque tudo na realidade pode ser dito em vários sentidos e explicado por diversas causas. De qualquer forma, o que é interessante no discurso de Walter é que ele se assume inteiramente responsável por seus atos, o que não deixa de ser, de um certo modo, uma verdade moral.

Walter é radical em assumir responsabilidades de uma tal maneira que, em diversos momentos da série, uma das causas mais trágicas de seus problemas é justamente a sua vontade desordenada em querer controlar a realidade. É o velho problema do pecado original: não é possível que o homem seja Deus.

Há uma interpretação interessante sobre o último episódio. Especula-se que os eventos inverossímeis que encerram a série são uma espécie de sonho de Walter à beira da morte. Walter teria morrido antes de dar a partida no carro que ele roubou em New Hampshire. A cena fornece elementos interessantes para essa interpretação. Quando percebe que o carro está, aparentemente, sem a chave de partida, Walter solicita a uma “providência” que a situação seja resolvida e conclui que, se ele sair com o carro, o resto será resolvido apenas por ele. Imediatamente, ele retira a chave que escapa do para-sol do carro. É uma situação um tanto pitoresca que, na interpretação onírica da conclusão da série, aquilo a que assistimos é o fim que o próprio Walter gostaria de ter para si e para seus últimos inimigos.

Eu concordo com essa interpretação, mas num sentido máximo. Penso que toda a série pode ser interpretada como um sonho trágico de alguém que tentou, em vão, controlar tudo. Quando eu interpreto a série dessa maneira, como uma representação onde os personagens não são tomados apenas como americanos do sudoeste, mas como peças de um drama moral com teses a ser demonstradas, Breaking Bad me parece ser bem mais convincente do que se tomado apenas como um envolvente retrato sociológico sobre a falência do sonho americano, por exemplo. O episódio da queda do avião no fim da segunda temporada me parece, assim como os eventos derradeiros, igualmente uma “fantasia”, que deve ser interpretada não como uma coincidência dramática forçada, mas como uma conclusão de tese.

Aparentemente, as chaves sempre caíam do para-sol para Walter, mas quando ele tentava, a partir dali, resolver tudo à sua maneira, as coisas se complicavam mais ainda. Alguém poderia argumentar, com razão, que o público adora Breaking Bad e se compadece com Walter, porque se identifica com suas qualidades de homem comum: ele é visto carinhosamente dando leite para a sua bebê, lutando para pagar contas e trocando o sistema de filtragem de água da casa. Porém, penso que realmente adoramos Breaking Bad, porque em nossa fragilidade humana de querermos inutilmente controlar uma realidade da qual não somos senhores, somos capazes de nos identificar com o Walter “mau”.

Recomendação etária: É recomendada para adultos, devido ao teor bastante violento de algumas cenas. A primeira temporada contém ainda cenas de sexo e nudez, reduzidas drasticamente nas demais temporadas.

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