Interestelar

Depois de As aventuras de Pi, em 2012 ; Gravidade, em 2013 e Interestelar, em 2014, será difícil passarmos por um ano sem um filme visualmente espetacular, cujos efeitos visuais estão ligados a uma premissa fantástica e pretensiosa acerca dos sentimentos de angústia e de esperança ocasionados pela luta humana diante de uma sobrevivência, que pode se encerrar a qualquer momento.

De qualquer maneira, se tomarmos apenas esses exemplos, o filme anual grandioso está cada vez melhor. Para quem passou imune pela megalomania de Christopher Nolan nos últimos anos – e eu devo admitir que gosto bastante da trilogia do Batman – Interestelar  vai ser muito bem apreciado. Afinal, já estamos acostumados a ignorar o maior defeito de um filme de Christopher Nolan, a saber, os personagens esquemáticos de Michael Caine, como porta-vozes da auto-importância da história em questão.

Há duas coisas que me deixaram satisfeito em relação a Interestelar.

A primeira, que certamente não agradará aos críticos do cineasta, está relacionada a um certo “profissionalismo” de Nolan. Hoje, eu não conheço um caso sequer de cineasta que, propositadamente interessado em sintetizar diversas referências cinematográficas em seu próprio filme, não se atrapalhe com o resultado final. Em Interestelar, por sua vez, há homenagens e citações a Kubrick, Spielberg e Tarkovisky –  o mistério do homem quando se vê isolado num cenário radical, como o espaço sideral; o apego à família e a inevitabilidade da inclinação religiosa mesmo numa civilização tecnicamente avançada, são temas do filme que, em diversas cenas, parecem fazer referência, respectivamente, àqueles cineastas. Aliás, especialmente no caso de Spielberg, Nolan me parece melhor ainda do que o mestre, conforme explicarei adiante.

De qualquer maneira, apesar da diversidade referencial relacionada a temas e a estilos tão díspares, Nolan consegue se equilibrar em meio a tantos acenos. Como eu disse, Nolan é “profissional” e a cinefilia, por conseguinte, não parasita o filme, mas serve-lhe como ferramenta. Interestelar é um filme que articula bem as suas referências, sem que qualquer uma delas pareça estranhamente ou gratuitamente inserida.  Isso me parece um mérito relevante, uma vez que, especialmente no caso de 2001, de Kubrick, seria impossível não lhe “pagar algum pedágio”. Afinal, a originalidade de 2001 será sempre um fardo para tudo o que lhe sucede enquanto ficção científica pretensiosa sobre o “homem” num contexto de viagem espacial.

Por fim, quero dizer o que realmente me agradou em Interestelar. Em linhas gerais, trata-se de um filme sobre um pai que, moralmente (1), se vê obrigado a se distanciar, talvez para sempre, de sua família. A relação desse pai com a filha, especialmente, me pareceu, nos momentos mais geniais do filme, análoga à relação mesma de Deus com os homens. São belíssimas as cenas em que o pai, já bastante distante no tempo e no espaço de seus filhos, consegue receber comunicações de seus queridos por transmissão de vídeo. Os seus filhos têm dúvidas, bastante legítimas, se o pai vai ouvir, de fato, aquilo que dizem. Mas o pai ouve os seus filhos e, principalmente, se comove por eles. A relação familiar não se dá num âmbito meramente melodramático, como seria o caso nos filmes de Spielberg, para emocionar o espectador, mas como possibilidade de expressar um algo a mais, que é a própria inevitabilidade da inclinação religiosa do homem.

(1) Em relação à perspectiva moral do filme, penso que boa parte do crédito precisa ser concedida ao seu roteirista Jonathan Nolan, irmão do cineasta. Os heróis de Jonathan, que também escreveu os dois últimos episódios da trilogia do Batman e é o criador da série Person of Interest, são moralmente profundos não de acordo com a regra vigente que torna um personagem “cinza” por um acúmulo de boas e más ações. Jonathan não se interessa muito por um personagem enquanto “sujeito” moral, mas enquanto “agente”. Dessa maneira, os heróis morais escritos por Jonathan são profundos, porque  agem e não porque são bons e maus, ao mesmo tempo, e a partir de um certo acúmulo de eventos. Os heróis de Jonathan são profundos, porque fazem o bem em situações extremas, onde as escolhas morais são difíceis. A profundidade, por sua vez, está no fato de que o bem que esses personagens fazem, muitas vezes é “aparentemente” um mal.

Recomendação etária: o filme contém cenas brandas de violência, sendo voltado preferencialmente para adolescentes e adultos.

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