Más adaptações

Neste ano, apesar do sucesso nas bilheterias e da generosidade de uma boa parte dos resenhistas e críticos – que só pode ser entendida como propaganda dissimulada ou, na melhor das hipóteses, como um desespero pela carência de filmes realmente bons – as adaptações para o cinema de histórias em quadrinhos oscilaram, ao meu ver, entre o desastre e a mediocridade.

Eu retiraria apenas o novo X-Men desse quadro crítico dos filmes baseados em quadrinhos. Felizmente, dessa vez o filme de Bryan Singer não se revelou apenas como uma alegoria sobre o preconceito, mas como uma fantasia sobre o clássico tema filosófico dos futuros contingentes. O filme endossa a tese de que se  futuro não pode ser determinado, as nossas ações são livres. X-Men, agora, parece ser uma saga anti-determinista e uma vez que as ações dos heróis, livremente boas ou más, resultarão em consequências imprevisíveis, o cenário dramático se torna mais rico em possibilidades do que aquele resultado da pregação dos outros filmes da série sobre a necessidade de aceitarmos os “diferentes”.

O novo Robocop, de José Padilha, é ainda um filme melhor sobre o mistério da liberdade humana. Os conflitos do filme são resultados da impossibilidade de uma inteligência artificial capaz de ser completamente determinada a tomar decisões, por mais que os seus artífices habilidosos tenham a pretensão de controlar e de prever uma totalidade de possibilidades. Nesse sentido, o remake de Padilha diminui bastante o tom amalucado e explosivo do filme original, de Paul Verhoeven. Isso rendeu críticas até certo ponto plausíveis para o diretor brasileiro, uma vez que Padilha se dá mal na sátira. O pobre teor cômico do filme está canalizado no personagem bastante caricato de Samuel L. Jackson, um apresentador de TV reacionário. De qualquer forma, mesmo Robocop não sendo uma adaptação de histórias em quadrinhos, me pareceu o melhor filme de “super-heróis” do ano, um pouco à frente de X-Men.

Guardiões da galáxia, de James Gunn, é descaradamente uma comédia. A trupe de protagonistas desajustados em seus papéis de “heróis” parece uma nova tentativa da produtora Marvel em apostar na fórmula de sucesso dos Vingadores. Parece ter dado certo, uma vez que o filme foi um grande sucesso de bilheteria.  Porém, todos os personagens de Guardiões da Galáxia, até mesmo os figurantes, são um “peixe fora d’água”, o que me parece comprometer bastante as possibilidades cômicas da história. Uma árvore humana que pronuncia uma mesma sentença durante todo o filme deixa de ser engraçada quando ela interage com um cara azul, uma mulher verde e um guaxinim igualmente falante. Se todos são estranhos, essa totalidade implica, em última instância, numa aborrecida normalidade. Outro fator problemático no filme é que, diferentemente dos Vingadores, os heróis não são pessoas que assumem uma outra fantasia, mas são todos eles o próprio “uniforme”. Talvez seja por isso que, num mundo narrativo que pretende se impor como “anormal”, as únicas coisas que funcionam como “anormais” são as músicas dos anos 70 e 80 ouvidas pelo protagonista em seu walk-man. Porém, por mais que uma ou outra cena seja divertida nesse aspecto e, por mais que alguns resenhistas tenham adorado isso, é impossível que uma trilha sonora sozinha consiga sustentar dramaticamente um filme.

Capitão América: O soldado invernal, outro filme da Marvel lançado neste ano, e dirigido por Anthony Russo e Joe Russo, obteve a mesma reação de Guardiões da Galáxia: sucesso de público e conivência dos resenhistas e críticos. Que o grande público goste de diversões do tipo não me parece estranho. Muita gente vai ao cinema somente para ser estimulada, independentemente de qualquer profundidade narrativa que o filme possa oferecer. Mas o que me parece muito estranho é que o filme tenha ganhado comentários positivos por quem, teoricamente, tem o papel de defender a arte do cinema de atentados como esse novo filme do Capitão América. O argumento que muitos utilizaram de que “o clima de paranoia de Capitão América acena para clássicos dos anos 70, como Todos os homens do presidente e Três dias do Condor” é superficial por vários fatores: homenagear não é necessariamente um mérito e, mais grave ainda, às vezes o próprio objeto de uma homenagem pode não ser tão bom assim. No fim das contas, Capitão América me pareceu apenas um filme confuso, barulhento, incompleto e, na melhor das hipóteses, um episódio de uma cine-série que, quem sabe, pode servir como elo de ligação para coisas melhores a serem lançadas posteriormente.

Um problema generalizado que eu vejo em várias adaptações do universo de quadrinhos da Marvel é a pobreza de seus vilões, com a exceção dos personagens do Homem-Aranha. Apesar do novo filme do herói lançado neste ano ser um tanto medíocre, é inegável que seus vilões, em comparação àqueles dos Guardiões da Galáxia ou da trupe dos Vingadores, parecem ter sido escritos por um gênio da dramaturgia. A ideia de um vilão cuja maldade possa, de algum modo ser explicada, já é um “algo mais” que O espetacular Homem-Aranha 2, de Marc Webb, apresenta, apesar de não ser nenhuma novidade para quem assiste aos filmes desse super-herói desde a trilogia de Sam Raimi, lançada na década passada. É apenas um mais do mesmo – mas é um “mais” também em sentido positivo, se compararmos o filme de Webb com um Soldado Invernal, ou com um Guardiões da Galáxia.

Recomendação etária: todos os filmes citados contêm cenas brandas de violência, sendo recomendados para adolescentes e adultos.

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