True Detective, de Nic Pozzolatto

O contraste psicológico entre um par de detetives é uma fórmula geralmente utilizada no cinema policial como alívio cômico. Por sua vez, não é nada cômica a primeira antologia da série “True Detective”, criada por Nic Pizzolatto e dirigida por Cary Joji Fukunaga, apesar de ser narrativamente sustentada por um par de detetives, cada qual, e aqui podemos nos remeter à tipologia junguiana, oposto um ao outro segundo o tipo geral de disposição psicológica (um é introvertido e o outro é extrovertido) e segundo a preferência cognitiva (o introvertido é também intuitivo e se baseia, portanto em abstrações e dados gerais e o extrovertido é também perceptivo, optando, dessa maneira, por se orientar de acordo com dados concretos e com uma atenção voltada para os detalhes.

Apesar do tempo de cena ser dividido entre os dois protagonistas, é de um certo modo evidente que o personagem principal é o introvertido intuitivo vivido por Matthew McConaughey, o cerebral, pessimista e obsessivo detetive Rust Cohle que investiga a partir de sua própria teoria geral sobre o caso dos assassinatos em série que move a trama, e não a partir de dados concretos que se acumulam uns aos outros. Dessa maneira, o detetive será desacreditado pela maioria do corpo policial que tomará a linha investigativa de Cohle como paranoica.

O caso só será solucionado, duas décadas depois, porque o parceiro de Cohle, o extrovertido perceptivo Marty Hart, vivido por Woody Harrelson, montará a última peça do quebra-cabeça ao perceber um detalhe concreto fundamental que Cohle, obcecado pelas linhas gerais de sua tese, não poderia notar: uma casa que, após um tempo, foi pintada e passou a ser verde. A tese geral de Cohle estava certa, mas a investigação não poderia ser finalizada sem o apoio perceptivo de seu parceiro.

De qualquer maneira, certos elementos figurativos da trama como a vegetação pantanosa de Louisiana, ou o labirinto do clímax, são como que personagens da série, resultando em simbolismos, bem pouco sutis, é verdade, que contribuem para que o protagonismo psicológico do detetive Rust Cohle determine também o “clima” geral dos episódios. A primeira antologia de “True Detectiva” é misteriosa e dada a simbolismos, assim como o seu protagonista.

Pode-se facilmente elogiar a antologia por esses fatores e pode-se, em decorrência disso, enaltecer a construção de personagem feita por Matthew McConaughey, mas me parece que se não houvesse o talento específico de Woody Harrelson, a série como um todo poderia ser um lamento determinista, cujo pessimismo geral, sufocaria qualquer elemento estranho à sua fechada rede de símbolos. O personagem de Woody Harrelson, com todas as suas preferências perceptivas é, de fato, estranho ao mundo mental de Rust Cohle e, por conseguinte, da própria estruturação narrativa dos episódios. O detetive Marty Hart é mundano, ordinário e dado a cometer os mesmos tipos de erro e todas essas qualidades caem como luva nos modos aparentemente boçais de Woody Harrelson. Mas além de atuar facilmente como um aparente estúpido, Harrelson também consegue personificar aquele tipo de sabedoria dos homens ordinários que quase sempre se esconde para, no momento oportuno, dar o devido bote.

A boçalidade aparente do detetive Hart é a força narrativa necessária para rivalizar com o mentalismo de Cohle e, consequentemente, de todo aquele mundo narrativo. Por fim, o triunfo de “True Detective” me parece ser essa força mesma, de Harrelson-Hart, que lhe ameaça, mas também que lhe completa.

Orientação: Recomendada somente para público adulto, e ainda assim com restrições. Contém cenas macabras e bastante violentas. Há também diálogos bastante chulos e cenas de sexo e de nudez. 

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