Um filme de atores

Na Hollywood antiga, contava-se a história que John Ford, após assistir a Rio Vermelho (1948) disse, admirado, para Howard Hawks, diretor daquele filme: “Eu não sabia que esse fdp (John Wayne) sabia atuar”. Durante décadas, Wayne protagonizou diversas obras-primas de Ford e de Hawks.

Porém, apesar do trio ter sido celebrizado por faroestes, havia bastante diferença de estilo entre os cineastas. Enquanto Ford optava pelo sentimentalismo profundo e alegórico, Hawks construía uma arte consciente de que todas as possibilidades cênicas só podem culminar numa ilusão e que, portanto, o cinema só pode ser profundo se assumir-se enquanto uma brincadeira. Os filmes de Hawks são divertidos e o fundamento disso está mais nas interações cênicas dos atores, do que contexto narrativo. Isso talvez explica porque Hawks saía-se muito bem em praticamente todos os gêneros cinematográficos.

De qualquer maneira, suas obras máximas são dois filmes capitaneados por John Wayne. Em Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959) e Hatari (1962), Wayne é o líder viril e celibatário de uma trupe de sujeitos isolados da vida social ordinária. A camaradagem, as piadas e os conflitos daqueles homens entre si e com o mundo são uma força cênica capaz de deleitar o nosso imaginário de um modo em que o cinema deixa de ser uma espécie do gênero entretenimento para ser uma diversão em si. Os atores são tão divertidos quanto os seus personagens e isso parece inaugurar uma nova possibilidade para a própria arte dos atores.

Pode-se dizer que Hawks abriu caminho para o cinema dos astros de ação dos anos 80 do século passado. Stallone, Schwarzenegger, Norris, Van Damme, Seagal, Lundgren, entre outros, cada um possuía, não o talento de Marlon Brando, mas a potência de John Wayne que, se mal dirigida, tornava-se canastrice constrangedora. Como não havia nenhum Hawks naquela época, os filmes daquele bando só eram autenticamente divertidos em cenas concebidas como alívios cômicos, e não como estruturas essenciais de uma dramaturgia cinematográfica. De qualquer maneira, o público daqueles filmes ainda se lembra de piadas ou tiradas verbais que marcaram época. E o mais interessante é que não se trata de diálogos à Woody Allen, mas de frases que necessitam de canastrões cenicamente inteligentes para dizerem, entre urros e sorrisos, coisas como: “Eu menti” e “Eu sou o seu pior pesadelo”.

Porém, na virada do século, quando aqueles atores e seus espectadores ficavam mais velhos, todos parecem ter se conformado com aquele discurso banal, típico de quem percebe a passagem do tempo: “o mundo mudou”. O mundo ficou mais ecológico, os discursos de gênero se alastravam e até mesmo os rapazes famosos dos esportes descobriram as possibilidades estéticas dos salões de beleza. Com um mundo assim era impossível que não houvesse nostálgicos reacionários a bradar, com igual banalidade que, “antigamente, as coisas eram melhores”.

A nostalgia é um dado do sentimentalismo humano e, para alguém que atua no mundo dos espetáculos, ela pode ser um um ótimo negócio. Assim, o tino comercial de Sylvester Stallone permitiu que ele ressuscitasse no século XXI seus personagens mais famosos, Rocky e Rambo, e criasse a série de filmes Os mercenários.

A premissa da nova série de Stallone é atrativa: reunir, na maior quantidade possível, os astros da pancadaria que faziam sucesso antes da queda do muro de Berlim. Os três filmes realizados até o momento são bastante distintos entre si, apesar da mesma jogada de marketing.

O primeiro, dirigido pelo próprio Stallone em 2010, tem um certo interesse por parecer, em determinados momentos, um filme involuntariamente sobre o horror da violência, que se expressa literalmente nas faces bastante feias de todo o elenco. A fixação de Stallone por certos closes em gente como Mickey Rourke, Dolph Lundgren e nele mesmo resulta numa experiência cinematográfica bastante singular. Os mercenários é um filme em que a brutalidade não se dá por discursos pessimistas sobre a condição humana, mas pela simples exposição facial de um grupo de homens que trabalha no ramo da guerra.

O segundo filme, dirigido por Simon West em 2012, só é bom quando Stallone troca algumas ideias com Chuck Norris, mas isso parece já apontar para o triunfo de Os mercenários 3, este sim, para utilizarmos as mesmas palavras sobre as melhores obras de Hawks, um filme sobre um: “líder viril e celibatário de uma trupe de sujeitos isolados da vida social ordinária”.

O novo cineasta da franquia, Patrick Hughes, fez um filme de atores, todo fundamentado neles. Isso era o que poderia, naturalmente, se esperar da série e, mais ainda, de um certo cinema de ação que se iniciou na década de 80. A ideia inicial de Stallone só se tornou uma excelência cinematográfica depois de dois filmes e o cinema de ação dos canastrões da guerra fria só encontrou a sua obra máxima depois de 35 anos.

Explicar Os mercenários 3 é explicar, simplesmente, o brilho insuspeito de seus melhores atores. Os closes que Stallone experimentou no primeiro filme, estão todos lá, mas dessa vez, Hughes dá mais tempo aos seus atores. Às vezes, os atores ficam com tanto tempo que eles chegam a fitar o espectador devidamente já instalado e confortável na brincadeira, como ocorre nas cenas do bar, no fim do filme. Os mercenários 3 também investe bastante tempo nas gozações entre os personagens à maneira de Howard Hawks: os personagens são divertidos, porque os atores são divertidos.

Nesse filme, é sempre importante que um dos mercenários seja o centro das piadas. Na primeira metade, Wesley Snipes conduz a brincadeira, em cenas como aquela em que ele faz a barba com uma navalha, ou aquela em que a cama confortável do seu quarto parece lhe causar bastante incômodo. Snipes, por seus poucos minutos em cena, mereceria uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante.

Apenas uma indicação, porque se Hollywood for um lugar justo, seria Antonio Banderas, pela sua participação na metade final do filme, o ganhador com louvor da estatueta de coadjuvante em 2015. Banderas sempre foi um canastrão interessante, mas Patrick Hughes eleva esse ator a um patamar digno da melhor comédia americana. A inteligência cômica de Antonio Banderas em Os mercenários 3 é o acontecimento cinematográfico de 2014.

Porém, Banderas e Snipes não fazem um voo solo, como se as suas participações fossem algo como uma mera respiração entre cenas de tiroteios e perseguições. Sendo um autêntico filme de atores, Os mercenários 3 é sobre um bando de desajustados que necessitam todos eles um do outro e, todos eles, de uma figura paterna. Muito mais do que nos dois filmes anteriores da série, Sylvester Stallone demonstra um carinho paternal por cada um dos membros de seu time. Os tiros e as perseguições é que estão no meio disso tudo.

A cena em que Stallone se lembra dos nomes citados pelo falastrão Banderas comove, principalmente, porque ela parece desnecessária à trama. Uma característica presente em todos os grandes filmes da história é a aparente gratuidade de certas cenas, essas espécies de acidentes cinematográficos que revelam aquela verdade da vida, em que as coisas mais fundamentais são, muitas vezes, aquelas que menos prestamos atenção. O pai Stallone ouviu o seu filho Banderas, por mais que fosse bem mais óbvio não fazê-lo.

Na teia familiar de Os mercenários 3, o vilão é aquele que, seguindo a sua lógica implacável e não o seu coração, traiu o grupo. Isso poderia ser um clichê se o intérprete do vilão fosse um mau ator, mas Mel Gibson é mesmo um monstro. Gibson, em poucos closes, e em poucos diálogos, revela que aquilo que destrói o coração de um homem é uma profunda força da inteligência diretamente proporcional ao ressentimento. De qualquer forma, se o principal mérito de Os mercenários 3 é permitir que seus atores fiquem bem à vontade em suas artes, o filme também faz justiça ao seu vilão. Mel Gibson, além de formidável cineasta, sempre foi um ator muito hábil e carismático. Desse modo, por mais modesta que seja a sua participação neste filme da turma de Stallone, que seja um dos primeiros passos para a revitalização de sua carreira.

Talvez, esta crítica tenha muitas divagações e exageros. Mas isso parece inevitável quando quem escreve procura transmitir aquele prazer estético que um filme inesquecível desperta.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s