Ideia e vida

Para que eu consiga escrever com mais facilidade sobre alguns dos filmes a que assisti recentemente, pretendo nas próximas publicações relacionar filmes. Hoje, comentarei brevemente sobre A teoria de tudo e O Grande Hotel Budapeste. Gosto mais desses filmes do que pode ser deduzido pelos comentários abaixo, mas de qualquer maneira eles estão bem distantes dos meus favoritos do último ano.

A teoria de tudo

Numa primeira consideração, A teoria de tudo chama a atenção por causa da imitação perfeita que Eddie Redmayne faz do físico Stephen Hawking e por ser um melodrama fácil de ser assistido, com todos os conflitos e reviravoltas que podemos esperar de uma história que envolve o relacionamento de um homem com uma mulher, que é colocado fortemente à prova em diversos momentos. Porém, o que mais me chama a atenção nisso tudo é que o filme, assim como momentos cruciais da vida de Hawking que ele pretende representar, não tem absolutamente nada a ver com a cosmologia daquele físico. Nesse filme de James Marsh, a vida e a obra de Hawking são coisas tão radicalmente distintas que todas as falas do roteiro sobre cosmologia poderiam ser facilmente substituídas por especulações sobre outros campos do saber, que o filme continuaria sendo o mesmo melodrama razoável que é. De qualquer maneira, isso é menos um demérito do filme do que uma representação inevitável de um estado das coisas em que aqueles que buscam na astrofísica uma “teoria de tudo” não têm qualquer pretensão de que dali surja um fundamento para outras áreas do pensamento, como a ética.

O Grande Hotel Budapeste

De uma maneira análoga, que a existência real e concreta seja uma coisa a ser evitada em favor daquilo que se encaixa numa visão subjetiva também caracteriza os filmes de um outro cineasta, Wes Anderson. O seu filme mais recente, Grande Hotel Budapeste é o espaço ideal para enclausurar personagens, que são mais joguetes de um artífice do que representações de pessoas. Porém, se assistido como uma alegoria de um certo decoro burguês – exteriormente complexo em seus rituais, porém essencialmente vazio – que também faz parte da decadência cultural que o filme pretende mostrar, o concierge de Ralph Fiennes  surge como o personagem mais bem construído e emblemático de todo o cinema de Wes Anderson: um idiota que se esforça muito para não se aparentar como tal. O único problema é que talvez passe despercebido que o protagonista seja, ele mesmo, decadente, uma vez que foi vítimas de decadentes (que Anderson, em sua fuga da realidade, não chama de nazistas – mas que os espectadores do cineasta sabem que são…) e, principalmente, pelo fato de seu costume de se relacionar sexualmente com hóspedes idosas seja algo desenvolvido sem relevância moral, mas como uma piada.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s