Ida e Vincent

Dando continuidade à série de publicações sobre filmes recentes, hoje eu gostaria de falar menos sobre cinema e mais sobre o único tema que importa, a santidade. Para isso, farei comentários sobre uma obra-prima (Ida, de Pawel Pawlikowski) e sobre o último filme do Bill Murray (St. Vincent – Um santo vizinho, de Theodore Melfi).

A dificuldade que eu tenho para falar sobre Ida, do ponto de vista estético, ou de uma excelência cinematográfica, é que todas as considerações seriam como uma receita de bolo para um filme academicamente perfeito. O filme é dignamente executado. A sua fotografia em preto-e-branco em janela clássica (um pouco mais quadrada do que aquelas que são utilizadas nos filmes de hoje), a expressividade dos closes, os silêncios sugestivos e outras excelências estão plenamente de acordo com a história da jovem noviça que sempre viveu no convento até que, em obediência à madre superiora, antes de fazer os seus votos, viaja com a tia pela Polônia para descobrir a história de seus pais, mortos na II Guerra mundial.

Que a noviça passe por tentações que até então ela desconhecia e que ela possa efetivamente cair nelas foi algo possivelmente previsto pela madre superiora e essa me parece ser a chave para compreender como Ida é um filme profundamente coerente com temas católicos relacionados à vocação e à santidade. A mensagem que pouca gente compreende é que somos chamados a seguir uma dada vocação e que, nesse seguimento, a queda não anula a caminhada, ou o sentido dela; pelo contrário, parece por vezes, providencialmente, fortalecê-la.

St. Vincent, por sua vez, é um filme mais mundano e ordinário, com suas cenas rápidas e suas repetições esquemáticas de cenários fixos. Além disso, ele é repleto de fórmulas melodramáticas que já conhecemos de filmes como Melhor é impossível, Um grande garoto, Gran Torino, e tantos outros, a saber, aquelas relacionadas ao egoísta ranzinza que aos poucos revela ter um bom coração. Mas é um filme muito bom! Tudo bem que Theodore Melfi não dá tanto tempo assim para Bill Murray, mas esse sujeito, que é o melhor ator do mundo (ponto), está num filme em que o seu personagem, que bebe, aposta, se veste mal, busca uma prostituta, entre outras mundanidades, no clímax comovente passa a ser tomado, com alguma razão, como um santo. Objetivamente falando, esse personagem não leva uma vida santa e tem muito pouco de um autêntico santo (em suma, ele nunca seria canonizado) mas o fato é que o filme é muito bem sucedido em sua proposta de permitir encontros, conexões e generosidades em personagens que, como todos nós, têm várias precariedades.

Eu penso que, assim como a santidade nos bate à porta, nos chamando ou nos vocacionando para nos encontrarmos com ela, o santo é aquele que, de acordo com os dois grandes mandamentos da lei divina – amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo – vai ao encontro de ligações e de generosidades. E, importante ressaltar novamente, o sujeito que Deus criou para essas tarefas, a pessoa humana, é sempre como um personagem típico do Bill Murray, uma criatura rabugenta mas que, devidamente cutucada, pode cometer gestos muito bacanas.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s