Sniper Americano, de Clint Eastwood

Há algum tempo, eu tenho escrito em minhas críticas de cinema sobre o problema narrativo da escolha que os contadores de histórias precisam tomar, estejam eles cientes ou não disso, entre o determinismo ou fatalismo e a liberdade. Ao que me parece, em todas as narrativas pelo menos três possibilidades podem se efetuar: (1) ou é efetivada uma escolha pelo determinismo ou fatalismo (2) ou é efetivada uma escolha pela liberdade – (3) ou é efetivada uma escolha narrativa dialética em que a inevitabilidade daquilo que ocorre (aparentemente uma tese fatalista) se desdobra numa série de efeitos morais e melancólicos, de luto ou de lamento que parecem nos fazer questionar se as ações eram mesmo inevitáveis (nesse sentido, o luto e o lamento parecem colidir com a tese fatalista, uma vez que nos casos em que a escolha narrativa se dá claramente pelo fatalismo ou determinismo, os efeitos que devem se desdobrar são necessariamente o estoicismo ou o cinismo, ou seja, os personagens seguem com o discurso de que a vida é assim e não poderia ser de outro modo, portanto, a própria moral se torna vã).

Pessoalmente, eu acredito que nossas ações são livres, mas mesmo que eu tenha certas convicções positivas a respeito da liberdade, isso não me impede de que, em alguns casos específicos, eu diga que determinados filmes fatalistas são muito bons e que determinados filmes sobre a liberdade são constrangedores. Os filmes fatalistas me parecem bons quando são constituídos por ações puras, sem teses sobre o homem, sobre o mundo ou sobre a moral. Nesses filmes, as regras do espetáculo são todas elas escancaradas, como nas aventuras divertidas de Howard Hawks, ou nas comédias de Jerry Lewis. O fatalismo, em sua melhor forma, não pretende dizer nada sobre a alma humana, sobre a civilização, ou sobre o nosso destino. As pessoas simplesmente vão fazendo coisas e coisas e os filmes terminam com cenas do tipo: “um elefante atrapalhando uma noite de núpcias”, de modo que nada ainda se encerra ou repousa, ou seja, a ordem geral é a ação ou o movimento. Em sentido contrário, o que me incomoda bastante nos filmes fatalistas é o aprisionamento das personagens em regras de ação estabelecidas arbitrariamente pelos contadores de histórias. Eu penso que há uma contradição nesse caso. A arbitrariedade, em sentido narrativo, não pode encerrar uma tese, deixando os personagens em repouso, porque está implicitamente dado em seu pressuposto que outra coisa pode ainda acontecer.

Muitos filmes de Clint Eastwood, me parece, podem ser interpretados a partir da terceira opção que mencionei acima, isto é, a partir de um certo fatalismo dialético. Vejamos suas duas últimas obras ambas lançadas em 2014: Jersey Boys e Sniper Americano.

E, desculpem-me se não consigo me conter desde já, mas Sniper Americano é uma bela duma obra-prima! Antes de dar seguimento ao tema do fatalismo, eu preciso fazer uma digressão no parágrafo que se segue.

Em relação ao Sniper Americano, eu não me lembro dum filme tão perfeitamente editado, desde os tempos áureos de Hollywood, em que os cineastas tinham todo o filme construído na cabeça antes de sequer pisarem num set de filmagem. Acho que toda pessoa que quer seguir o ofício de cineasta ou de editor deve assistir repetidas vezes ao que Clint Eastwood, Joel Cox e Gary D. Roach fizeram em Sniper Americano. As cenas de ação de guerra no Iraque que são cortadas diretamente para cenas de ação familiar nos Estados Unidos, de maneira a implicar numa unidade psicológica do protagonista, não são apenas um primor técnico, mas uma excelência narrativa que engrandece as potencialidades próprias do cinema. Outra beleza cinematográfica do filme são as elipses do início que apresentam fases diferentes da vida do protagonista. Antes de ser um exímio atirador que sofre as conseqüências da guerra, ele foi um garoto que aprendeu certas regras de seu pai e sua vida, enquanto aprendiz, também é apresentada no filme como um processo, que a edição de Cox e Roach articula excelentemente, a partir das sínteses de Eastwood. Em resumo, Eastwood sabe bem como construir imagens para contar uma história e os seus editores sabem bem como articulá-las.

Eu mencionei as regras do pai em Sniper Americano. O mesmo tipo de regras também está em Jersey Boys, a saber, regras fatalistas que ditam a narrativa. Em Jersey Boys, o narrador personagem afirma que há três maneiras de alguém sair da vizinhança: entrar no mundo do crime, entrar nas forças armadas ou ficar famoso. O pai do protagonista de Sniper Americano afirma que há três tipos de homens: lobos, cordeiros e cães-pastores. Essas regras são fatalistas no sentido de que somente elas são reguladoras de ação e, de maneira implícita, deixam claro que outras explicações não dão conta da realidade.

Em Jersey Boys, o protagonista comete algumas pequenas contravenções, canta em casas noturnas, se envolve com uma mulher, fica mundialmente famoso… Ele apenas faz as coisas, sem que elas sejam justificadas por coisas como a “hipocrisia das instituições”, “o desejo pelo poder” ou a “coerção do dinheiro”. Ele está determinado a simplesmente fazer as coisas, sem que nada o determine de antemão a não ser a inclinação pelo agir. Algumas conseqüências virão: o seu casamento e o grupo musical vão ser desfeitos, mas o filme, no melhor estilo do fatalismo de Howard Hawks, termina com todos os personagens em movimento: cantando, dançando e se reconciliando… As pessoas fazem coisas, brigam, se separam e nisso tudo há um agir contínuo pressuposto que, coerentemente a uma arbitrariedade que não consegue aprisionar nada, pode, na ação seguinte, reunir todo mundo novamente, mesmo que depois, como bem sabemos, ninguém estará mais unido, porque as coisas vão mudando e mudando… De qualquer maneira, Jersey Boys tem certos problemas. Clint Eastwood não consegue ser o tempo todo sutil e preciso quanto Howard Hawks. Aquele agir contínuo de tudo e de todos implica em algumas cenas um tanto grosseiras: uma cena não pode terminar em repouso – então, é necessário que alguém estoure uma bola de chiclete; ou ainda, se uma freira surge em cena, ela não pode simplesmente passar despercebida – ela precisa ser velhinha, precisa tomar um cálice de vinho e precisa arrotar… Em outros filmes de Eastwood há esse mesmo tipo de preenchimentos, em que o diretor exagera um pouco. Um de seus recursos mais óbvios são as tatuagens. Em filmes como Sobre meninos de lobos e Menina de Ouro ele revela, por exemplo, tatuagens de personagens, como que para alertar o espectador que aquelas pessoas não são muito confiáveis.

Em Sniper Americano, os preenchimentos são mais bem incorporados à narrativa e alguns chegam a ser comoventes. Gostei particularmente do modo como o protagonista, numa boa atuação de Bradley Cooper, é apresentado, de maneira bem discreta, como um sujeito bastante polido com as pessoas, o que enriquece bastante a caracterização do personagem Chris Kyle.

Chris Kyle, um personagem baseado numa figura histórica contemporânea, que morreu assassinado há pouco tempo, certamente se encaixa, na tipologia de seu pai, como um cão pastor. Trata-se de um personagem típico de Clint Eastwood, que simplesmente age. Ele não se interessa pelas motivações da guerra do Iraque. Ele simplesmente reconhece que seus compatriotas podem ser agredidos – tanto os soldados no Iraque, quanto os americanos em sua própria terra – e que, então, a única coisa a ser feita é agir, para evitar que seus companheiros de farda sejam mortos e que os inimigos ganhem a guerra contra os Estados Unidos. Nesse sentido, ele age de maneira especializada como atirador de elite para dar cobertura aos soldados que fazem invasões e, mais ainda, quando não há muito a ser feito em cima, ele chega a descer dos topos dos prédios e se misturar aos companheiros. Num certo momento, o personagem confessa que, em relação às pessoas que precisou matar em guerra, trata-se de algo a ser resolvido entre a sua consciência, aparentemente tranqüila, e Deus. Porém, segundo suas palavras, o que realmente lhe perturbava é não ter evitado que certos companheiros tivessem morrido no Iraque.

Sniper Americano foi criticado por algumas pessoas por retratar Kyle como um herói. Essa me parece ser uma crítica bastante rasa, independentemente de Kyle ter sido ou não um herói. De fato, o filme é bem respeitoso e as cenas finais são definitivamente solenes – particularmente, eu me emocionei com aquilo tudo, principalmente no modo como Clint Eastwood encerra o filme, abrindo-o para a realidade com imagens gravadas da solenidade de sepultamento de Kyle – mas eu penso que Sniper Americano deve ser assistido, em linhas mais gerais, como um filme sobre um sujeito que, desde criança, movido por crenças fatalistas, encontra na ação o seu modo mais próprio de vida. De fato, o filme não tem uma opinião sobre a guerra do Iraque e, convenhamos, ninguém ainda é capaz de falar razoavelmente sobre algo lamentável que ainda está acontecendo, como é a guerra contra o terrorismo islâmico. É fácil ter opinião sobre o combate aos nazistas, por exemplo, porque tudo aquilo já se encerrou e temos um olhar privilegiado, mas o que dizer de algo que ainda causa tragédias para todos os lados envolvidos?

Por outro lado, nos momentos do filme em que Kyle retorna temporariamente ao lar, o Iraque continua no personagem e isso, por sua vez, é apresentado de maneira trágica, uma vez que o sujeito não consegue mais ter uma vida em paz com sua família. É inevitável que uma leitura pacifista seja justificada por essas cenas. A guerra é realmente uma coisa absurda, sob certos aspectos. Porém, do mesmo modo que me parece insuficiente interpretar o filme como uma obra elogiosa sobre um herói de guerra, me parece insuficiente interpretá-lo a partir de uma leitura pacifista, que nega valor positivo a uma guerra, ou a um homem de guerra.

Sniper Americano é uma obra-prima– e ele se torna tão maior quando interpretado não a partir de dados incertos sobre o valor de uma guerra, ou se um atirador é bom enquanto um técnico ou enquanto uma pessoa que faz o seu trabalho em prol de um bem comum, mas a partir de uma excelência no modo como Clint Eastwood, mais uma vez e, quem sabe, em seu melhor momento, trata do problema do fatalismo. Nos filmes de Clint Eastwood, as pessoas fazem um monte de coisas e, do mesmo modo que certas ações são inevitáveis para sujeitos compelidos a uma extroversão sem qualquer outro fundamento mais forte senão o próprio desejo de agir, as conseqüências de tais atos, por sua vez, são apresentadas no compasso das marchas fúnebres, e não por um olhar cínico que, uma vez convencido de que tudo é determinado, não valoriza o que faz uma ação realmente ser tomada do ponto de vista moral: o fato dela ser livre. Em última instância, ao adotar a perspectiva solene e lamentosa para contar a história de Chris Kyle, Clint Eastwood a insere num contexto de moralidade. O mero fatalismo é muito mais cínico do que isso.

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