Mad Men… a dois episódios do fim


O antepenúltimo episódio de Mad Men, Lost Horizon, que foi exibido na semana passada, teve uma sequência que me parece sintetizar o arco dramático do protagonista vivido por Jon Hamm. Para quem ainda não viu a série de Matthew Weiner, ou está um pouco atrasado, prometo que não vai revelarei nada que possa atrapalhar. Eu tentarei descrever em linguagem matemática a sequência que me chamou a atenção naquele episódio.

O protagonista finge que é outra pessoa, assumindo uma identidade x. Porém, quem o desmascara, afirma que ele tem, na verdade, uma identidade y. O protagonista desmascarado retruca, dizendo que não é x, mas que também não é y. Ele fala que é e a cena se encerra.

Porém, como os espectadores sabem muito bem, o protagonista não é x, nem y e nem z.

Estou descrevendo Don Draper (ou, melhor dizendo, Dick Whitman) a partir de variáveis, não apenas porque quero preservar os leitores de spoilers, mas porque aquela estrutura de alternâncias de identidade da sequência de Lost Horizon vale, com conteúdos diferentes, para toda a lógica dramática de Mad Men.

Don Draper/Dick Whitman sofreu uma série de infortúnios ao longo da série que o desinstalaram continuamente das identidades que ele pretendia assumir. Porém, nas vezes em que ele foi forçado a abandonar o tipo de vida, o círculo social e a realidade de trabalho que tinha num dado contexto de identidade, imediatamente a nova identidade que ele tinha de construir parecia, como a anterior, ser muito bem sucedida até ser implacavelmente desfeita para, em seguida, a lógica do círculo voltar a funcionar…

Os fãs da série, como eu, devem estar um tanto ansiosos para saber se o final vai ser aberto (e aí a lógica do círculo prevaleceria), ou se há alguma chance de Dick Whitman surpreendentemente se estabilizar numa identidade, nem que tenha de morrer para isso (o que implicaria no rompimento do círculo). Porém, o que me parece é que dois episódios não serão suficientes para apresentar uma estrutura dramática realmente consistente que dê conta de tal rompimento, principalmente se tivermos em vista que em Mad Men as reviravoltas mirabolantes se revelaram, ao longo da série, como parte daquela mesma estrutura circular.  O mesmo tipo de coisa que era uma grande reviravolta na terceira temporada se torna rotina nos últimos episódios.

De qualquer maneira, a dúvida que realmente importa sobre o fim de Mad Men não é nem se haverá um final aberto ou não, mas se haverá, de fato, algum tipo de felicidade para Dick Whitman/Don Draper. Até o momento, 90 episódios  deixaram claro que Don Draper é um sujeito bem sucedido em conquistar dinheiro, mulheres e respeito junto aos pares, mas ainda assim ele é sempre infeliz. Moralmente falando, Mad Men é mais um drama sobre uma das primeiras constatações da Ethica Nichomachea, de que o bem não pode ser definido a partir de prazeres, honras ou riquezas.

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