Mad Men – O último episódio

Primeiramente, devo alertar que haverá spoilers!

Aliás, eu nem quis incluir uma foto, porque as imagens mais relevantes do último episódio podem ser um tanto reveladoras.

Há dois episódios do fim, eu escrevi:

Os fãs da série, como eu, devem estar um tanto ansiosos para saber se o final vai ser aberto (e aí a lógica do círculo prevaleceria), ou se há alguma chance de Dick Whitman surpreendentemente se estabilizar numa identidade, nem que tenha de morrer para isso (o que implicaria no rompimento do círculo). Porém, o que me parece é que dois episódios não serão suficientes para apresentar uma estrutura dramática realmente consistente que dê conta de tal rompimento, principalmente se tivermos em vista que em Mad Men as reviravoltas mirabolantes se revelaram, ao longo da série, como parte daquela mesma estrutura circular.  O mesmo tipo de coisa que era uma grande reviravolta na terceira temporada se torna rotina nos últimos episódios.

De qualquer maneira, a dúvida que realmente importa sobre o fim de Mad Men não é nem se haverá um final aberto ou não, mas se haverá, de fato, algum tipo de felicidade para Dick Whitman/Don Draper. Até o momento, 90 episódios  deixaram claro que Don Draper é um sujeito bem sucedido em conquistar dinheiro, mulheres e respeito junto aos pares, mas ainda assim ele é sempre infeliz. Moralmente falando, Mad Men é mais um drama sobre uma das primeiras constatações da Ethica Nichomachea, de que o bem não pode ser definido a partir de prazeres, honras ou riquezas.

A lógica dramática circular prevaleceu. Don Draper/ Dick White se “reinventou” em uma nova identidade, mas para a felicidade do personagem, seu novo eu é um pouco mais autêntico (e, por conseguinte, parece ser um pouco mais feliz), ainda que, como já poderíamos ter esperado, não tenha havido algum tipo mais satisfatório de redenção.

A ideia de redenção implica numa permanência do “eu”, mas numa disposição desse “eu” em mudar livremente, na medida do possível, as circunstâncias de sua vida de modo a conduzi-lo a uma felicidade mais autêntica e associada a uma moral – em que se busca o que é mais autenticamente bom.

A ideia de reinvenção, por sua vez, implica não apenas na disposição em mudar circunstâncias que estão sob o nosso controle, mas numa aposta de que o “eu” deve ser alterado também a partir das contingências que mais definem a sua identidade, nem que isso implique em escolhas moralmente complicadas.

Dick Whitman, o protagonista de Mad Men, sempre foi um sujeito obcecado por se reinventar. No início dos anos 50, após matar acidentalmente um companheiro de guerra na Coréia, ele roubou a sua identidade por conveniência, e com ela se tornou, na década seguinte, um gênio da publicidade em Nova York.

Tal posição lhe permitiu ganhar uma fortuna, honras e, além disso tudo, com a habilidade de seu espírito galanteador, muitas mulheres. Porém, e isso é um lugar-comum há pelo menos 2500 anos, desde a ética aristotélica, os sábios deste mundo nos dizem que honras, riquezas e prazeres não definem autenticamente o bem associado a uma vida feliz.

Don Draper se sentia infeliz e, numa certa altura de seu sucesso mundano, ele esteve aberto a algum tipo de “novidade”, que o fizesse mais feliz. No fim da segunda temporada da série, seu personagem sumiu de todos durante uma passagem a trabalho na Califórnia. Eu me lembro que o penúltimo episódio terminava com Don Draper mergulhando no mar, como se ele estivesse renascendo em batismo. Penso que o personagem buscava por algo mais profundo do que uma reinvenção. Talvez, a redenção mais relevante de seu personagem em toda a série tenha se dado ali.  Ele se tornou um sujeito mais reflexivo. Quando voltou para casa, Draper esteve disposto a salvar seu casamento e a ser afetivamente mais próximo da sua mulher e de seus filhos.

Porém, a partir dali, as decisões do personagem e as circunstâncias de sua vida contribuíram ciclicamente para reinvenções, em que o término amargo de cada etapa se unia, em círculo, a um novo relacionamento, lar ou posição no mundo do trabalho. E o reflexivo protagonista tinha consigo que as coisas não estavam nada bem. Vários episódios se encerravam com um Don Draper confuso, quase sempre fumando, que experimentava suas aflições acompanhado apenas da noite.

E eis que, no fim da série, Draper resolve novamente cair na estrada, dando satisfação de seu sumiço apenas para a sua filha.  E aí, nós espectadores de toda a série até então, nos perguntávamos como iria se encerrar a saga de Draper. Com mais de 80 episódios na bagagem, creio que a maioria dos fãs desconfiava de que o final seria provavelmente aberto, de modo a revelar apenas o que seria a nova adaptação de identidade de Dick Whitman.

Houve, de fato, quem já tivesse previsto que, no fim das contas, Draper voltaria readaptado para a McCann e, mesmo sendo um personagem fictício, seria o criador da peça publicitária real de 1971 da Coca-Cola, que reunia uma multidão de pessoas de diferentes raças e culturas aparentemente em paz e amor umas com as outras.

Os elementos de cena favorecem bastante essa interpretação. Don está num retiro espiritual na Califórnia, fazendo yoga em grupo. Enquanto meditam, a câmera fecha na face do protagonista e ouvimos um efeito sonoro que indica que Draper teve um insight que o deixou contente (ding!). Daí, corte para as imagens da propaganda da Coca-Cola.

Independentemente de qual seja a conexão narrativa das últimas cenas da série, o diretor e criador da série Matthew Weiner criou mesmo uma elipse genial.

Há uma ligação coerente de toda a série com as derradeiras imagens de 1971 da Coca-Cola.

Ao meu ver, em linhas gerais, Mad Men é sobre o modo como as pessoas que trabalham no mundo da publicidade vivem suas jornadas em busca da felicidade. A partir desse fio condutor geral, a sacada narrativa central da série está no fato irônico de que aqueles que mais produzem discursos de persuasão sobre a felicidade não sabem muita coisa sobre ela.

A publicidade, tal como a conhecemos, não se trata somente de uma divulgação descritiva das propriedades reais de um objeto de consumo, mas principalmente de uma apresentação de como tal objeto é capaz de nos fazer felizes. A felicidade é central na publicidade, mas trata-se de uma felicidade aparente, uma vez que, como a sabedoria de milênios tem insistido, aquilo que a publicidade divulga (a possibilidade de honras, riquezas e prazeres) não é objeto de uma felicidade autêntica. Don Draper tem aquilo tudo e não é feliz.

Mas será que, já no fim do século XX, após o mundo pós-guerra ter sido bombardeado com duas décadas de tantas propagandas sobre felicidade aparente, os consumidores já não estariam, de um certo modo, cansados dessas ilusões? Além do mais, diante da possibilidade de uma nova guerra mundial devastadora, e das guerras reais ao redor do mundo que na década de 1960 passaram a ser cada vez mais televisionadas, as pessoas estivam definitivamente mais abertas a um tipo de bem que não fosse apenas constituído de honras, riquezas ou prazeres. “A paz entre os povos” passa a ser um bem desejável diante das imagens horrendas do noticiário.

Esse deve ter sido o insight de Draper durante o retiro espiritual.

Porém, penso que não se trata de um fim de todo irônico, a saber a comercialização de um dado de sua vida espiritual – e a parte não irônica disso (nem que ela seja bem pequena) é, de algum modo, comovente .

Uma análise rigorosa nos leva a concluir que Dick/Don, como gênio da publicidade tal como a conhecemos, soube vender uma aparência de felicidade, ou seja, a Coca-Cola como símbolo de harmonia entre os povos. Porém, mesmo que a Coca-Cola esteja acessível aos povos do mundo todo, isso não significa que ela seja um elemento autenticamente agregador, afinal, não é um refrigerante que fará com que as pessoas descubram quais as características autenticamente humanas que as unem.  Porém, de qualquer maneira, vende-se que a “união entre as pessoas é importante” e Dick/Don, por mais que tenha tido a ideia de vender isso para a Coca-Cola, teve a ideia, porque baseou-se em experiências reais.

No fim da série, mais ainda no último episódio, o protagonista dedicou boa parte do seu tempo em tentar se conectar realmente com as pessoas. Não se tratava de um ócio criativo, em que, ao dar uma pausa em seu ritmo de trabalho, e observar como as pessoas se comportavam, ele buscasse a oportunidade de posteriormente vender aquilo que ele observou que elas desejavam. De fato, se ele iria vender alguma coisa depois (a importância da união) isso partiu de um desejo próprio e não observável em outros. Aliás, no fim da série, todas as suas tentativas de conexão com as pessoas foram desastrosas. Um grupo de veteranos de guerra o espancou, sua filha não quis que ele cuidasse dela e dos irmãos após a morte iminente da mãe, uma mulher com quem ele teve um breve relacionamento quis roubá-lo, e a sobrinha do verdadeiro Draper lhe falou abertamente que sua tentativa de aproximação com ela era absurda.

Porém, ao participar do retiro, atendendo ao convite daquela sobrinha (antes dela perder a paciência com ele), Draper teve a oportunidade de descobrir o que poderia ser importante para ele. Num dado momento do retiro, ele confessou seus pecados numa ligação telefônica para a colega de publicidade Peggy Olson, com quem realmente tinha alguma sintonia afetiva. A confissão, por si só, já revela um personagem sinceramente em busca de redenção: “Eu quebrei todos os meus votos. Eu escandalizei os meus filhos. Eu roubei um nome e não fiz nada com ele”.

Em seguida, ao participar de uma dinâmica de grupo, ele se comoveu com o relato de um indivíduo angustiado. O discurso de um homem ordinário acabou por fazer Dick/Don se prostrar humildemente diante de um semelhante. Não havia nada de cínico nas lágrimas de Dick/Don diante do relato daquele homem e no abraço que ele lhe concedeu, e a interpretação que talvez o protagonista estivesse chorando por projeção pode ser o caso apenas parcialmente, uma vez que tratava-se de um tipo realmente bem ordinário, que não tinha em vida os prazeres, as honras e as riquezas de um Don Draper.

Ligar-se com as pessoas importa para o ofício de Don Draper, no sentido de que ele tem de vender o que elas desejam. Porém, por mais que seu destino de ser um sujeito em constante e cíclica reinvenção esteja sempre em prol do mundo dos negócios, a nova reinvenção de Dick Whitman teve nele, de certa maneira, um pequeno efeito moral e redentor.

A publicidade não se tornou mais verdadeira, mas a jornada do protagonista em busca de si mesmo, ainda que ele a tenha transformado em objeto de venda, lhe tornou um pouquinho (talvez só um pouquinho mesmo) mais feliz. Se a publicidade continua, na pior das hipóteses, vazia enquanto discurso sobre a realidade, a vida do protagonista, desta vez, nem tanto.

No fim das contas, a grande sacada de Mad Men,  uma série conhecida junto ao público por insistir em acontecimentos pequenos, tinha de ser uma coisa bem pequena, como uma pequena felicidade. Um belo fim para aquela que seja, quem sabe, a melhor dramaturgia em série feita para a TV até hoje.

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