Homem irracional, de Woody Allen

É aborrecido escrever comentários sobre um filme em se enfatiza que a obra em questão sofreu péssima recepção crítica. Quando se trata do filme anual de Woody Allen, isso pode ser explicado, por um lado, porque se trata de um cineasta que já não surpreende mais ninguém. Para o fã, se o filme agrada, isto não é novidade. Quem não gosta dele, já nem o acompanha. Para o crítico preguiçoso, os temas parecem os mesmos e a resenha gasta parágrafos tentando comparar o filme novo com os antigos, com um lamento preguiçoso de que o cineasta já teve dias melhores. Mas a crítica não pode deixar de cumprir o papel que lhe cabe: se o filme é excelente,  isto deve ser muito bem dito. Homem irracional é excelente, assim como uns outros dez ou quinze filmes do cineasta – e se isso tiver de ser dito todos os anos, que assim seja.

Desde o seu filme anterior, o também excelente Magia ao luar, Woody Allen não tem deixado sua cosmovisão interferir muito naquilo que ele sabe fazer como nenhum outro cineasta vivo hoje: filmar uma boa história, em que se combinam (1) engenhosidade narrativa, (2) bons personagens, (3) ótimas atuações e uma simplicidade e precisão de uso de câmera, em que se capta minuciosamente aqueles três elementos dramáticos. É um prazer acompanhar, por exemplo, o suspense que o cineasta elabora a partir de situações que remontam ao melhor estilo de Hitchcock. É interessante observar como Woody Allen filma as cenas que envolvem um personagem fundamental: o juiz. Em todas elas o personagem está em silêncio absoluto e, na cena da primeira reviravolta dramática do filme, quando o protagonista descobre que o sujeito é um mau juiz, ele fica sabendo isso por meio da fala de outros. E mesmo que só saibamos um dado do personagem (a injustiça que ele cometeu), compreendemos perfeitamente porque na última reviravolta dramática, uma outra personagem chave sente empatia pelo juiz, ou melhor ainda, porque emerge em tal personagem um claro e distinto senso de justiça.

Faço questão de não entrar em detalhes para não estragar a fruição de ninguém, mas a beleza desse filme em que são citados vários filósofos é que aquilo que seria a cosmovisão pessoal do cineasta (que parece apenas um amontado de citações de orelhas de livros), é ofuscada pela sua própria criatividade narrativa, que forja camadas e camadas de eventos surpreendentes que, por sua vez, são muito mais profundos do que a compreensão dele sobre Kant ou Heidegger. No fim das contas, por mais que a ética aristotélica não tenha sido citada por ninguém no filme, o destino daquela que é a verdadeira protagonista da história (afinal, do ponto de vista da narrativa clássica, somente essa personagem de fato “mudou”)  me parece por demais condizente com a ideia de que aprender como viver bem e de maneira decente não se dá somente pela adesão a ideias racionais rigorosas, mas pela via fundamental da experiência.

Woody Allen é mais habilidoso em criar redes de “situações” do que “contextos” e, nesse sentido, Homem irracional me causou, assim como seu filme anterior, a seguinte impressão: se esta obra tivesse saído de um sujeito religioso ou conservador, o público não ficaria de modo algum espantado. Não que seja necessariamente causa de mérito para a arte de ninguém que o seu criador seja “religioso” ou “conservador” – inclusive, o indivíduo Allen não possui esses dois atributos – mas no caso deste cineasta eu tenho achado cada vez mais interessante (e isso vem desde Blue Jasmine, de 2013) como tem sido bom para os seus filmes essa enorme força criativa que passa por cima de qualquer enclausuramento ditado por uma cosmovisão.

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