Star Wars: Episódio VII – O despertar da força, de J.J. Abrams

Essa é uma crítica sem spoilers. Aliás, não menciono nada do enredo.

Eu devo confessar que me emocionei com o novo Star Wars. Dei algumas risadas, torci para os heróis, lamentei uma tragédia, e senti um aperto crescente no coração na medida em que  a mocinha, lá naquela ilha no meio do nada, se aproxima de… (quem viu, sabe o quê).

Enfim, se o cinema for apenas um entretenimento, pouca coisa é tão divertida quanto isso. Porém não há necessidade alguma, de minha parte, de retomar o velho e um tanto frívolo debate que antagoniza diversão e arte. De fato, para se analisar serenamente o novo Star Wars, é preciso suspender de início qualquer adesão a teses sobre o que o cinema deve ser para somente em seguida fazer algum juízo.

Para quem acredita que o cinema é a arte do cineasta, em que este deve se valer inventivamente das potências da direção cinematográfica para construir sua visão própria do mundo e dos homens, o filme de J.J. Abrams pode incomodar. Abrams é muito mais um reciclador do que um criador. Porém, se levarmos em conta que umas das razões de ser de Star Wars é a causa final do lucro bilionário em todo o planeta, não faria sentido esperar um trabalho de mise-en-scène que não fosse já longamente testado e aprovado pelas emoções do grande público ao longo de mais de cem anos de história do cinema. Nesse sentido, Abrams é bastante talentoso. Além do mais, é preciso enfatizar que nem sempre um cinema de autor é sinônimo de bom cinema. Há filmes péssimos em que encontramos uma visão própria do mundo e dos homens a partir de elementos cinematográficos peculiares a um cineasta.

Então, os méritos do novo Star Wars estão todos eles concentrados no modo bem sucedido com que J.J. Abrams organiza elementos reconhecíveis pelas zonas de conforto da audiência. Se o primeiro Star Wars operava assim em 1977 a partir da reconstrução de elementos não pertencentes ao seu próprio universo, o filme de Abrams, quase quarenta anos depois, o faz a partir dos elementos do próprio universo criado por George Lucas, especialmente daqueles da trilogia de 1977-1983.

Na virada dos anos 1960 para 1970, naquela primeira geração que fazia filmes após ter estudado cinema nas faculdades, ou pelo menos de maneira auto-didata, e aqui podemos citar, entre outros, Peter Bogdanovich, Brian De Palma, Francis Ford Coppola, William Friedkin, John Millius e Martin Scorsese, havia em todos os casos, a despeito de como cada um pode ser considerado mais ou menos um autor, um interesse enorme pela “reciclagem” ou pelo menos por um “referencialismo” ao cinema do passado. George Lucas e Steven Spielberg são da mesma geração e não se diferem em nada de seus pares em relação à atitude de que o cinema também deve ser construído a partir de referências sólidas. Porém, se Lucas e Spielberg foram, disparadamente, os cineastas mais bem sucedidos daquela geração em termos de aprovação do grande público, me parece ser mais do que uma coincidência o fato de que eles foram os mais interessados em “reciclar” ou “fazer referência” aos elementos cinematográficos que se sintonizam com os desejos do espectador médio de cinema.

Na trilogia de 1977-1983, especialmente no primeiro episódio, Lucas reciclava filmes de samurai, de aventura e de ficção científica, a partir de uma consciente ideia do que uma jornada mitológica deve ser.  Porém, na trilogia de 1999-2005, ele parece ter abandonado o propósito da “reciclagem”, com um interesse maior pelos desdobramentos políticos e psicológicos de sua mitologia.

O fato é que George Lucas é muito mais um visionário que contribuiu decisivamente para o avanço do uso da tecnologia no cinema do que um cineasta por vocação. Historicamente abstraindo, e sem qualquer juízo estético em relação a isso, penso que a Industrial Light & Magic de George Lucas foi muito mais importante para o cinema do que os seus próprios filmes. Me parece que a mente de Lucas encontra o seu lugar bem mais no mundo da criação de efeitos especiais do que no mundo da narrativa cinematográfica. É curioso observar que enquanto na trilogia de 1977-1983, Lucas contratou outros diretores e roteiristas para conduzirem “O império contra-ataca” e “O retorno do jedi” a partir de suas ideias gerais; na trilogia de 1999-2005 ele assina sozinho o roteiro e a direção. Inclusive, abrindo parênteses, penso que o dedo da roteirista Leigh Brackett, escritora de ficção científica e que trabalhou nas histórias de alguns dos melhores filmes de Howard Hawks, seja um dos motivos da preferência mundial por “O império contra-ataca”.

J.J. Abrams é um melhor contador de histórias do que Lucas, embora, ironicamente “recrie” o mestre para superá-lo. Por isso, me parece sintomático que agora, na ocasião do lançamento do novo Star Wars, o filme de Abrams esteja sendo considerado pela maioria dos entusiastas da série como muito melhor do aqueles da trilogia de 1999-2005 e praticamente equiparado àqueles da época onde falávamos, nas sessões da tarde aqui no Brasil, em Guerra nas Estrelas.

Mas eis que chegamos agora a uma outra ironia. Conforme afirmei anteriormente, Lucas e sua geração tinham como interesse reciclar e renovar suas referências cinematográficas. Abrams, por sua vez, trabalha com reciclagem da reciclagem. Vale lembrar que em 2011, ele já havia reciclado Spielberg no filme “Super 8”. Sinceramente, acho que Abrams seja realmente talentoso como artesão. O seu Star Wars é um filme que, além de emocionar, nos faz, enquanto espectadores, viver o cinema como uma festa. E, como ocorre com todos os bons filmes, saímos da sessão conversando animadamente sobre o que vimos e ficamos, durante alguns dias, pensando sobre isso tudo. Porém, saímos de Star Wars falando sobre Star Wars e tudo o que circunda esse universo específico e não sobre a vida, os homens e a arte do cinema, como é o caso nos bons filmes autorais.

Por tudo isso, em parte eu me alinho com aqueles incontáveis críticos que festejam o filme de Abrams e em parte me desalinho, expressando aqui uma preocupação crítica que não pode ser esquecida: o cinema se enriquece quando é construído por elementos mais “autorais” do que “reciclados”.

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2 respostas para Star Wars: Episódio VII – O despertar da força, de J.J. Abrams

  1. The Bat disse:

    Ótima crítica.

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