Creed, de Ryan Coogler

Há um bocado de pequenas maravilhas  em Creed. A primeira delas, mais geral, diz respeito à sua ideia mesma e ao modo como ela é incorporada no enredo: trata-se da tentativa de Ryan Coogler, um jovem cineasta, de revisitar o legado de uma famosa série de filmes, colocando a sua narrativa sob o ponto de vista de um protagonista que, na história, também tem de viver sob o peso de um legado.

Antes da grande luta, o jovem Adonis recebe o calção do pai. No calção estão bordados, de um lado, o nome que representa o legado (Creed) e, do outro lado, o nome que ele havia escolhido anteriormente para viver sua carreira sem o peso paterno (Johnson). A graça disso tudo é que Creed, assim como o novo Star Wars, revisita elementos narrativos e estéticos de filmes do passado de maneira a agradar os fãs; mas diferentemente do novo Star Wars, é também um filme marcado pela criatividade própria de seu realizador.

Ryan Coogler revelou nesse filme ser membro de uma escola cujos integrantes estão quase todos eles mortos ou, na melhor das hipóteses, justificados pela máscara da ironia. Coogler é, simplesmente, um criador inteligente do bom e velho melodrama. A sequência em que Adonis treina no hospital em que Rocky está internado é uma das coisas mais fantásticas saídas da mente de uma cineasta nos últimos anos. Pouca gente consegue fazer rir e chorar ao mesmo tempo em cenas que estão lá não apenas para cumprir um propósito de pausa emocional, mas que fazem também a narrativa ir para frente, revelando um pouco mais as características de seus personagens. É admirável também o senso de precisão de Coogler. Os temas musicais famosos que Bill Conti compôs para o primeiro filme Rocky são tão pouco utilizados que mesmo em cenas onde a nossa memória cinéfila suplica fortemente pelas execuções mais empolgantes da trilha, Coogler opta por utilizá-la com parcimônia. Sem dúvida, seria mais “fácil” usar bastante a música de Conti, mas o fato é que mesmo o legado da trilha sonora é também neste filme não apenas um peso do qual que se deve ceder sempre, mas uma influência a ser retrabalhada para o bem maior do melodrama.

Por fim, é preciso destacar as performances de Michael B. Jordan e de Sylvester Stallone, que emprestam grande vitalidade para os seus personagens. No terceiro ato, Rocky se torna praticamente um co-protagonista e é impossível, mesmo para o espectador mais frio, sair ileso da história de amizade que é construída entre o velho e o jovem. Enquanto o penúltimo filme da série, Rocky Balboa, dirigido por Stallone, é uma beleza introvertida, na qual a comunidade ao redor e a cidade refletem a solidão e a chegada da velhice do personagem, este filme Creed, com seu jovem protagonista, é baseado em encontros: Adonis vai conhecendo a cidade e as pessoas e, em contrapartida, o velho Rocky conhece uma figura filial com quem se preocupar e, dessa maneira, ter um sentido para a vida. Os encontros e atritos humanos no filme talvez sejam sua grande força. O filme diz respeito a pessoas de carne e osso, cada uma com seus problemas, tentando lutar pela vida, ora em colaboração, ora em solidão.  Porém, sob a aparência de um melodrama ordinário, este filminho que pouca gente poderia dar o merecido crédito, por se tratar, além do mais, de uma sétima visita ao universo do personagem Rocky, é na verdade uma obra intensa, pulsante, viva e, sem exagero algum, disparadamente o melhor filme de 2015.

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