Batman vs Superman vs Guerra Civil

Um vilão pretende derrotar ou enfraquecer dois heróis poderosíssimos e, com certa astúcia, ao invés de optar pelo confronto direto com eles, cria uma série de aparências de realidade que colocam equivocadamente um contra o outro. Esse é o fio condutor do enredo dos últimos candidatos ao sucesso esmagador nas bilheterias mundiais, lançados com um intervalo de apenas um mês de distância. Nesse confronto, eu tendo a preferir Batman vs Superman, que tem muitos problemas pontuais, mas é instigante se considerado de acordo com perspectivas mais gerais,  ao Guerra Civil, que tem muitos acertos pontuais, mas que no fim das contas parece ser apenas uma diversão bem agradável.

Desde que a Warner/DC inaugurou seu universo cinematográfico de super-heróis com Homem de Aço (2013), os problemas de delegar tal responsabilidade para um cineasta limitado como Zack Snyder já estavam patentes. No fim das contas, o filme é bem razoável (principalmente por causa do ótimo roteiro), mas revela um certo descuido em coisas realmente importantes como direção de atores e escalação de elenco. Snyder definitivamente importa muito mais com o impacto visual da cena isolada do que com a encenação dramática de uma sequência. Isso causa perplexidade não apenas quando assistimos à ruindade performativa de um Henry Cavill (o Superman), mas principalmente quando o desconforto do ator com o papel se revela numa Amy Adams (Louis Lane), que é realmente uma das melhores atrizes de sua geração. Em Homem de aço, eu já lamentava que um projeto de sustentação de universo cinematográfico que abrangeria no futuro personagens fascinantes como Batman e seus inimigos estivesse confiado a um sujeito que não sabe dirigir atores, ou simplesmente não dá bola para isso. Tendo isso em mente, fui assistir ao Batman vs Superman desconfiado. Porém, eu me surpreendi.

Henry Cavill continua canastrão, mas arrumaram uma solução interessante para Amy Adams: ao invés da jornalista abelhuda que nem ela nem Snyder conseguiram construir convincentemente no primeiro filme, surge em cena uma mocinha que, sempre em situações de perigo, só tem a função narrativa de permitir ao Superman fazer cálculos morais bem complicados, ao decidir como salvar a namorada nas ocasiões em que isso pode implicar no efeito colateral de várias outras mortes.

É justamente esse um dos pontos fortes do filme. Batman vs Superman tem peso moral, e isso se reflete o tempo todo até mesmo na canastrice de Cavill, mas principalmente na envergadura forte, pesada e cansada de Ben Affleck, como Bruce Wayne/Batman. Em relação ao Batman, eu posso até preferir interpretações menos violentas do personagem e, de fato, como fã do personagem, não “simpatizo” com a ideia de vê-lo torturar inimigos e matá-los, mas é inegável que do ponto de vista desta específica criação, que não tem obrigação cinematográfica nenhuma de “honrar” com outras interpretações do personagem  (o purismo do fã não tem o menor sentido), o arco dramático dele é muito bem desenvolvido. Achei formidável o recurso da voz em off de Bruce Wayne no começo do filme a lamentar a “queda”, ao mesmo tempo em que grãos de terra caem em cena, em contraposição ao discurso esperançoso dele no final, de maneira que, em seguida, a terra que “sobe” sinaliza uma importante reviravolta. Trata-se de um protagonista que muda, sendo que em todas as etapas desse processo há uma certos elementos cênicos e de enredo construídos para revelar um razoavelmente bem sucedido arco dramático.

Outra coisa bastante interessante no processo de sofrimento do protagonista foi a concepção de um Bruce Wayne atormentado por pesadelos ou premonições, de maneira que a atmosfera onírica sombria prevalece até mesmo em momentos “reais”. Alguns super-heróis apresentados brevemente nesse filme, como Aquaman, Flash, Mulher-Maravilha e Cyborg, são tratados como meta-humanos e achei uma ousadia bem vinda que, nos momentos em que eles são visualizados em vídeos, aquilo tudo pareça como um filme de terror. Parece que em vez de optar pelo humor auto-referencial como uma das estratégias de consolidação da fantasia absurda que envolve heróis fantasiados, que é o caso em todos os filmes da Marvel, Snyder optou por consolidar o absurdo criando um clima geral de pesadelo inóspito. O sujeito tem a mão bastante pesada, sem dúvida, mas o fato é que a proposta do filme tem a ver com esse peso mesmo. Alguns críticos reclamam de falta de senso de humor nesse filme de heróis, mas o fato é que há humor; porém, um humor coerentemente inserido na proposta geral do filme. Eu me diverti bastante com as cenas de paquera na alta sociedade entre Bruce Wayne e a Princesa Diana/Mulher Maravilha (Gal Gadot), e confesso que o filme me ganhou completamente quando, numa dessas cenas de paquera dolorida e desengoçada, eles estavam num ambiente onde se ouvia a valsa n° 2 de Dmitri Shostakovich, a mesma executada naquele grandioso filme de Stanley Kubrick, De olhos bem fechados. Naquele momento, Ben Affleck e Gal Gadot eram dois errantes oníricos desconfortáveis na alta sociedade exatamente como os personagens do filme de Kubrick. Snyder não tem nada a ver com Kubrick, mas uma referência assim que ele faz em Batman vs Superman me parece ser muito mais interessante para reforçar o aspecto fantasioso de seu filme do que qualquer auto-referência sarcástica que vemos aos montes nos filmes de super-heróis.

Por fim, acredito que o maior peso do filme seja aquele peso do temor religioso que teríamos num mundo habitado por homens que voam, que se vestem de morcego, que não envelhecem, ou que vivem nas águas. E que o filme se encerre no momento em que o temor é finalmente iluminado por um faísca de esperança me parece deixar bem claro que houve uma certa coerência em toda as opções visuais e dramáticas fúnebres, cinzentas e feias que saíram da mente de um cineasta quase sempre não muito talentoso. Batman vs Superman é um filme com problemas de encenação, de roteiro (a reviravolta que une rapidamente os dois heróis é, no mínimo, picareta), de edição (o filme precisaria de pelo menos 3 horas de duração) e de concepção visual, mas é muito bom.

Por sua vez, Capitão América: Guerra Civil, de Joe e Anthony Russo, tem pelo menos três atores-personagens excelentes: Robert Downey Jr.- todos os únicos filmes bons que eu vi da Marvel têm ele no elenco, e eu começo a acreditar que isso não é mera coincidência; Tom Holland – o Homem-Aranha/Peter Parker dele é realmente impagável; e por fim, apesar das poucas cenas, um Paul Rudd que faz um Homem-Formiga bem divertido (é fato que a sequência de confronto entre os heróis no aeroporto é sensacional e muito do jeitão fantástico dela se deve ao Homem-Formiga). Há também no filme um uso interessante da paleta de cores para enfatizar seu aspecto fantástico, e um roteiro bem mais “certinho”. Enfim, não tem como não gostar de um filme desses, mas o fato é que é ainda assim eu o considero “derrotado” no confronto com Batman vs Superman. O filme da Marvel é leve e vai embora assim que saímos do cinema. O filme da DC é pesado e literalmente marca a ferro quente.

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