Esquadrão Suicida

Parece-me que David Ayer teve certa liberdade criativa da Warner/DC para desenvolver o filme, pelo menos enquanto o filmava. O que houve, na minha opinião, foi falta de tempo para dar ao filme uma coerência interna, isto é, uma articulação de seus elementos cinematográficos e narrativos que manifeste “qual é” a do filme. Nesse sentido, é difícil avaliar se o filme é bom ou ruim, porque mesmo quando dizemos que o filme é ruim, o juízo parte de uma generalidade que aplicamos ao filme como um todo. Podemos dizer que um dado filme ruim tem performances comprometedoras, encenação preguiçosa, ou ainda um roteiro incoerente, de maneira que tais elementos problemáticos são generalizações que procuram dar conta do filme como uma unidade.

Pensemos, por exemplo, na performance de Jared Leto, como Coringa. A propaganda oficial procurava acentuar uma aura em torno da performance do Coringa, de modo a acentuar que Leto, um ator do método, estava a construir uma atuação à altura do grande legado dos intérpretes anteriores do personagem. Porém, é fato que nem Leto e nem Ayer conseguiram chegar ao que seria uma apresentação de personagem minimamente coesa. Em algumas cenas, Leto parece demais com o Jim Carrey de filmes como “The cable guy” ou “Eu, eu mesmo e Irene”. Carrey é um gênio e não há nada de errado, a priori, numa performance que nos lembre dele, ainda mais se tivermos em consideração que o Coringa é um palhaço. Contudo, uma perfomance do Coringa à Jim Carrey não se articula coerentemente com um filme que tenta, por meio da direção de arte e figurinos, tornar a imagem do vilão parecida com a de um rei do tráfico atormentado, algo que, em outras cenas, o próprio Leto se incumbe muito bem em fazer, fornecendo um registro de vião bem menos histriônico. Isso torna claro que o ator, nas filmagens, ofereceu outras possibilidades de performance que, ao invés de serem eliminadas em favor de uma unidade de caracterização, foram acrescentadas no filme lançado, fazendo da fruição de Esquadrão Suicida uma experiência com um trabalho em andamento.

Outro sintoma da pressa com que o filme foi produzido está no descuido dramático com a vilã do filme, Magia. Fica ao espectador a sensação de que fizeram questão de filmar o primeiro tratamento do roteiro do próprio Ayer, em que este, para ter um primeiro vislumbre da história como um todo (que depois teria de ser naturalmente melhor elaborada), simplesmente se aproveitou das ideias do Caça-Fantasmas, de 1984. A vilã de Esquadrão Suicida, o seu capanga e o combate final com a sua derrota, que implica na “desincorporação” da entidade maligna que havia possuído a mocinha, repetem muitos elementos do Caça-Fantasmas. Contudo, isso nunca é uma “referência” ou “homenagem”, mas ao que me parece apenas um remendo narrativo, porque é necessário um combate com o vilão no terceiro ato e, na falta de tempo para a elaboração de algo mais singular, repete-se descaradamente elementos que já foram utilizados num filme famoso do passado. Isso pode funcionar num primeiro tratamento de roteiro, mas não num filme lançado.

De qualquer maneira, mesmo que o resultado final seja mais uma prestação de contas do atual estado de coisas do universo cinematográfico que a Warner/DC vem elaborando do que um filme uno, acabado e resolvido (para o bem ou para o mal) em si mesmo, o que assistimos não deixa de ser, sob certas perspectivas, muito interessante. O “fracasso” do filme em não ter uma boa história, por exemplo, pode ser personificado na personagem, a um passo da vilania, Amanda Waller, interpretada por Viola Davis. Que essa mulher, o cérebro por trás do Esquadrão Suicida, seja obstinada em reunir, sem muita razoabilidade, um grupo suspeito para a execução de missões confusas, parece indicar que realmente não faz sentido, do ponto de vista narrativo, algo como um “Esquadrão Suicida”. Dessa maneira, o que temos num primeiro momento é inevitavelmente um fracasso narrativo que, enquanto filme, reflete a instabilidade mesma da personagem que move as peças do jogo. Como diz a letra da música dos Rolling Stones que embala as cenas iniciais de apresentação da “jogadora” e da própria cartela com o título do filme: “.. what’s confusing you is just the nature of my game”…

Fiquemos, então, a esperar as próximas jogadas.

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