Sully, de Clint Eastwood, e A chegada, de Denis Villeneuve

Qualquer tomada de decisão envolve certa predição do futuro. Dois filmes recentes tratam do drama da predição: Sully, de Clint Eastwood, e A chegada, de Denis Villeneuve. Contudo, há uma diferença crucial entre os filmes. O filme de Eastwood é sobre o que sucede a dramática escolha, enquanto o filme de Villeneuve é sobre o que a antecede.

Sully, interpretado muito bem por Tom Hanks, é um piloto de avião experiente, tem sabedoria prática e toma a decisão que julga ser a mais prudente. Contudo, mesmo sendo bem sucedido, ou seja, tendo previsto bem o futuro, Sully será atormentado moralmente pelas vozes internas (de sua própria consciência) e publicamente pelas vozes externas das autoridades. O clímax do filme se dá quando, em audiência pública onde são liberados os áudios dos pilotos na cabine, o tal registro de realidade apazigua e faz entrar em acordo o íntimo do protagonista e a pressão externa dos julgadores. Sully tomou, de fato, a decisão correta. Penso que o drama desse filme enxuto e simples, sobre os 208 segundos que Sully teve de deliberar pelo pouso que terminou por salvar a vida de uma tripulação de 155 pessoas, envolve o drama cognitivo da phrónesis aristotélica que, diferentemente, do conhecimento platônico ideal, não envolve apreensão do objeto em sua inteireza, porque parte de dados recolhidos na realidade mutável, pelas instâncias da experiência sensível (percepções, memórias e experiências), e não de uma contemplação cognitiva que tem como objeto aquilo que não pode mudar. O pensamento prático de Sully possibilitou que vidas fossem salvas, contudo por ser pensamento pautado por experiências, o seu resultado poderia ter sido diferente do previsto. Em certo momento, Sully ao tentar se defender explica para a autoridade que é um piloto muito experiente, mas o julgador invalida a tentativa, afirmando que a experiência individual não deve ser levada em consideração, mas apenas aquilo que seria a totalidade das condições dos 208 segundos. Nesse sentido, as autoridades exalam uma arrogante segurança porque dispõem de procedimentos advindos das tecnologias da informação e das ferramentas de perícia que terminarão por responder verdadeiramente se a decisão prática de Sully foi acertada ou não. O ideal platônico do conhecimento absolutamente preciso é o que pauta a autoridade federal National Transportation Safety Board, que investiga alguém que só pode se defender aristotelicamente. Eis o drama.

É um tema recorrente na filmografia de Clint Eastwood. Em 2012, ele protagonizou As curvas da vida, um filme dirigido por um de seus colaboradores, Robert Lorenz. O velho protagonista, um olheiro de baseball, prefere utilizar seus “olhos”, ou seja, sua experiência sensível, para tomar decisões que envolvem contratação de jogadores, do que ferramentas informatizadas de cálculo e predição. O drama daquele filme é que o velho sofre de glaucoma. Para um personagem “aristotélico”, isso é trágico.

Por sua vez, no filme A chegada, como a protagonista vivida pela grande Amy Adams afirma, a sua concepção de “memória” sofreu reviravolta e isso vai implicar em um tipo de drama onde Aristóteles não tem vez. Não por acaso, a protagonista é uma cientista compelida a encontrar ferramentas precisas de diálogo com seres alienígenas que garantam pleno entendimento entre os comunicantes. Quando ela compreende a linguagem alienígena, a sua compreensão da realidade sofre uma reviravolta. Em A chegada, a inteligibilidade é de fato a morada do ser. A predição do futuro se torna certeira e a personagem, que tem outra maneira de pensar e de viver o início e o fim das coisas, conhece a partir de experiências e “memórias” não reais ainda. O filme termina com uma escolha, mas não haverá mais suspense, como em Sully, porque o resultado da deliberação é conhecido plenamente, sem margem para outra possibilidade a ser especulada.

É um bom filme, embora Villeneuve, a meu ver, ainda seja um cineasta que depende muito de bons colaboradores, apesar de sua inegável impostação estilística render, vez ou outra, alguma boa composição de cena para os nossos olhos. Seu melhor filme, disparadamente, ainda é The Prisoners (no Brasil lançado como Os suspeitos), que tem um excelente roteiro e foi editado por Joel Cox e Gary D. Roach, parceiros de longa data, vejam só, de Clint Eastwood.

Sully, na minha opinião, é bem melhor. Não há requinte, reviravoltas mirabolantes e diálogos bem sacados. Mesmo o humor é apenas razoável. Mas Clint é o único cineasta do mundo que se sai bem diante da “mediocridade”, porque o mundo mesmo é abordado em sua instabilidade. Clint filma rápido e não solicita repetições exaustivas de cena para os seus atores, porque para ele a ideia da composição perfeita é um contrassenso, porque o mundo não é disposto perfeitamente. A fraqueza que vez ou outra surge em seus filmes, por sua vez, é situada num terreno de personagens que vivem o drama das decisões individuais, de maneira que num relato em primeira pessoa, como é o caso de Sully, há um “ganho” com cada canastrão arrogante que surge em cena, e com toda uma gama de coadjuvantes mal desenvolvidos que, essencialmente incapazes de empatizar com o protagonista, contribuem sobremaneira para a sua solidão. Enfim, no cinema dos solitários de Clint Eastwood, Sully surge com mais um digno e inesquecível exemplar, embora os comentários críticos e a temporada de premiações estejam sendo bem mais generosos com o filme de Villeneuve.

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